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sábado, 24 de dezembro de 2022

Crónica de Maus Costumes 305

 O Natal já não é o que era

                O Natal, por mais que me esforce, já não tem o mesmo sabor. Não foram os Natais que mudaram sobremaneira… Fui eu quem, primeiro, cresceu e, depois, envelheceu.  

            Deixei de aguardar ansiosamente pelos presentes. Em criança, era uma azáfama e, por antecipação, descobríamos o que nos iam ofertar, apesar dos esforços vãos da minha mãe, que tentava evitar que os descobríssemos. Porém, a alegria e a magia partilhada com os irmãos e os primos era certa e o convívio especial. Depois do jantar em casa de cada um, a nossa Tia abria os braços acolhedores e o resto da consoada era passada em sua casa, entre rabanadas de leite, de chá e de vinho, à vontade do freguês… Nunca comi nenhumas. Não aprecio essa doçaria. Excetuando o pão-de-ló da tia, que também já não podemos comer, não queria saber dos formigos nem da aletria. Falar deste pão-de-ló é vê-la sentada num banco com o alguidar enorme de barro que acolhia os ovos, o açúcar e a farinha batidos à força de braços que seguravam as duas canas, batidas cruzadas e sincopadamente. Ah! Tia, onde quer que estejas, sentimos a tua falta e os Natais não são mais os mesmos. Rapávamos as canas e os alguidares com a língua e dedos, mesmo assim, à lambões!… Hoje, há também pão-de-ló de forno de lenha, mas não sabe ao mesmo…Já mais jovens, não eram as prendas que faziam diferença, mas o convívio de primos entre os amendoins, o espumante e as cartas jogadas.

            Hoje, o Natal perdeu um pouco da sua magia. Talvez tenha crescido de mais. Não há presentes pelos quais anseie. Sabem que só os livros e experiências de passeios ou viagens me podem fazer sonhar. Estou cada vez pior com os livros. Não suporto oferecer aqueles que não possuo… Só se não gostar do género, mas não sou de ofertar o que eu não gosto… Depois, livros não são um presente que se ofereça a qualquer um. É um presente especial e há que merecê-lo, pelo que a época natalícia consegue ser exasperante. Cada vez menos gosto de andar à cata de presentes em lojas cheias. Passo pelas ourivesarias, sapatarias e lojas de moda quase sem olhar. No entanto, devo entrar, rebuscar nos molhos de roupa revirada à procura da camisola certa para oferta ou de outra coisa qualquer… Com a falta de paciência, vejo-me às compras de Natal nos vinte e dois e vinte e três. Consegui evitar a véspera, menos mal…

            Enfim… olho-me e vejo-me a comer as batatas cozidas com bacalhau e a saberem-me bem (nunca apreciei) e sinto a maturidade entranhada nos ossos.

Salva-nos a euforia dos pequenos. Agora, a vez é deles, dos primos que se reúnem e regozijam com os presentes que o pai-natal ou o Menino- Jesus deixou no presépio, tal qual outrora os pais fizeram, mas sem tia… É ouvi-los dizer que esperam um ano inteiro por este dia em que se juntam todos em casa da avó, com a lareira acesa e é uma festa!… É bom para os pais também, pois os irmãos reúnem-se e é bom.

            O Natal, agora, é feito de serenidade. Continuo sem comer as rabanadas, os formigos e a aletria… Somos adultos com as suas famílias que desaprendem o encanto. Pelo sim pelo não, para finalizar o repasto, sento-me à mesa da casa onde cresci a rabiscar a crónica com que vos desejo um feliz Natal.

Nina M.

domingo, 18 de dezembro de 2022

Crónica de Maus Costumes 304

 Ministro, escuta! Os professores estão em luta!

 O subtítulo era um dos gritos de ordem de ontem, na manifestação que juntou entre vinte e cinco a trinta mil professores, a quem o tempo ajudou.

Começo com um agradecimento aos colegas de Vilela, Paredes, que se organizaram para fretar um autocarro e que foram parceiros de viagem e de luta. Foi um dia longo e cansativo, naturalmente, e que começou muito cedo. Não foi fácil para os professores, nesta altura, irem a um sábado a Lisboa, mas foi necessário e bonito de se ver. Finalmente, os professores obtiveram atenção e cobertura televisas. Parece que o país, tal como quem nos governa só vai ouvindo quem se junta em multidão considerável em frente à Assembleia, a casa da Democracia, em protesto e apupo. Cheguei a temer pelo movimento, pois assim que se chegou, havia alguns colegas, mas não em número que permitisse perceber a dimensão da manifestação. À hora marcada, os professores começam a surgir das várias artérias que levam ao Marquês. E assim que se inicia a marcha em direção à Assembleia, com regozijo, começamos a perceber a mole humana que se estendia ordeiramente, em protesto. Passamos pela Mortágua cidadã, que se abeirou no passeio, mas não se contou com a presença dos vários partidos que costumam colar-se a estes movimentos. Talvez pensassem que seria pouco expressivo, dadas as condições em que aconteceu. O S.T.O.P., organização sindical a quem o Governo e as outras associações sindicais prestam pouca atenção e acusam de radicalismo, soube compreender a insatisfação da classe, que é grande, e mobilizar as pessoas. Este sindicato é pequeno, pouco expressivo, mas talvez cresça depois disto. Lembrar que os milhares de professores que ali se encontravam não são todos associados do S.T.O.P. Muitos deles não terão qualquer filiação sindical, outros serão filiados noutras associações e, outros, por certo, pertencem mesmo ao sindicato que ajudou a dar voz ao descontentamento e o galvanizou. O posicionamento dos cidadãos em relação ao panorama político mudou. Continuamos a ter os indefetíveis defensores partidários, mas a quantidade de pessoas que se desliga desses movimentos e se orienta pelo que o seu espírito crítico e consciência lhes ditam tem vindo a aumentar, para a ser a realidade nos próximos tempos. Não há razão para se impugnar a liberdade de escolha face a uma posição partidária com a qual não se concorda. Acredito que os cidadãos, principalmente, as novas gerações, cada vez mais, farão as suas opções sem atenderem a cores partidárias, como acontecia no tempo dos meus pais, nos anos conturbados pós abril. Significa que se assim funciona relativamente à vida política do país, também acontece na mesma medida noutras organizações, portanto, não se pode medir a força de um movimento de sublevação pelo apoio que é dado pelos maiores representantes sindicais. Já em 2008, na famosa manifestação dos cem mil professores e que quase derrubou a senhora ex-ministra cujo nome evito pronunciar pela urticária que ainda me causa (julgo que ainda não surgiu político que me tivesse conseguido espoletar tanta ira), o descontentamento nasce no seio da classe e é, depois, cavalgado pelas organizações sindicais. Porém, a revolta é genuinamente das pessoas, a quem os sindicatos se associaram e bem, pois é para isso que existem: defender a classe profissional que representam e não agendas partidárias ou próprias. Estamos perante uma situação similar e os nossos representantes têm de se habituar a ouvir a voz da população. Ministro, em latim, significa aquele que serve e é para isso que eles são eleitos, para servir os que os elegeram e não para se servirem deles. Ninguém serve bem o outro se não o souber ouvir, acolher as suas preocupações, dialogar e chegar a consensos, de boa-fé. Marcar reuniões que não conduzem a lado algum, porque já se estipulou que “vale mais um mau acordo do que acordo algum”, questiono, para quem?! Para o Governo ou para os reivindicam? Não, senhor ministro, o que vale mais é defender aquilo em que se acredita. Não queremos um mau acordo. Queremos que o Governo e os Sindicatos com maior expressão compreendam isto: os professores não estão dispostos a fazer um mau acordo! Não desta vez. Temos vindo a ter sucessivos mais acordos desde 2008 e estamos fartos! Apetece dizer: Chega! Basta! Quero usar a palavra chega sem qualquer receio de outras conotações. Chega de os professores serem lesados e feridos na sua dignidade! Chega de atropelos! E se surge um sindicato pequeno, mas que é capaz de dar voz ao ditado “vale mais partir que torcer”, pois ainda bem, já que só assim parecem combater a surdez com que se imunizam!

Ontem, o senhor ministro já concedeu entrevista. Estava nervoso. Transpirava. Não creio que fosse apenas pelo calor do estúdio, mas porque percebeu que a contestação engrossa fileiras. Como todos os governantes, o João Costa preferiu cerrar dentes e não mostrar fraqueza antes de negociar, quis estabelecer linhas vermelhas com um microdiscurso orientado para persuadir a opinião pública e não os seus professores. A profissão docente tem as suas especificidades, pelo que não é comparável com outros serviços públicos. Um professor contratado ou de quadro desenvolvem o mesmo tipo de trabalho, independentemente dos cargos que cada um exerce. O cargo de direção de turma é dos que mais trabalho e responsabilidade implicam e é dos que menos importância se lhe atribui e, no entanto, sem ele, as escolas não funcionariam. Ninguém o deseja e quase todos o fazemos, contratados e gente do quadro. Os que não desempenham este desempenham outros, portanto, senhor ministro, há hierarquias, mas não há “chefias” no sentido literal do termo, com papéis absolutamente distintos. Um diretor de turma, um coordenador de departamento, um coordenador de projetos, um coordenador de cursos profissionais, professores que integram grupos de trabalho diferenciados e afins continuam todos a cumprir a principal função e a mais prazerosa: dar aulas. O senhor sabe-o. Tem essa obrigação, pelo que vir falar para a opinião pública, dando a entender que os professores não podem ser diferentes de outros serviços públicos não passa de um sofisma ou não teríamos um Estatuto Próprio a que o senhor quer pôr termo. Depois, mente ao tentar desvalorizar o movimento gerado nas redes sociais, fazendo crer que não passa de populismo. Trata-se de descontentamento, indignação e revolta e ficou o aviso. Por último, talvez fosse bom enviar para as televisões o documento emanado do Conselho de Ministro para que se perceba quem mente. O cerca de trita mil professores que estiveram presentes na manifestação, senhor ministro, não são nem iletrados nem ignorantes. Sabem ler e interpretar. Importa mais o que não está escrito do que o que ficou redigido. A sua garantia verbal de que não haverá professores selecionados pela autarquia vale zero, quando pela redação do documento tudo é possível! E é verdade. É mesmo isso que o senhor está a pensar. Não! Os professores não confiam nem em si nem no seu Governo.

Por último, colegas, é tempo de união. Precisamos de todos, porque só com todos evitaremos a hecatombe. É tempo de unir e não de separar. Professores (do público e do privado) e Associações sindicais é tempo de agirmos coletivamente, pois a luta ainda agora começou. Centremo-nos no que importa: a escola, os alunos e os seus professores.

 

Nina M.

 

 

 

 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

Se soubesses a importância de um beijo

Se soubesses a importância de um beijo
Poderia dizer ósculo, mas não soa
A ternura que se afague

E se soubesses o bem do amplexo
Sentido, sinónimo de abraço desejado
O plantar da semente contra a corrosão

Se soubesses da angústia pelo teu mal
Por adoecer juntamente, estancarias
instantaneamente a hemorragia

Da alma que sangra desilusão
O receio de uma convicção [falsa]
O temor de uma partida indesejada

Como poderias deixar de ser
Se vives no calor do meu regaço
Pejado de vida?













terça-feira, 13 de dezembro de 2022

O cinismo do poeta

Rompe-me as veias este cinismo
Dorido, desencantado e sarcástico 
Torna-me descrente e cego
A qualquer ato de fé
E eu que sempre juro 
A ele não me render
Vejo-me agastado e penitente
Quase vencido e a sofrer

Conheço todos os quase da vida
A meio caminho de tudo
Quase feliz quase sereno
Quase cumprido
Rompem-se as ilusões na esquina
De um abismo que sempre quis

E de um quase nada feito
Sem virtude nem engano
Estala em mim este cinismo
Que me embala e causa dano
Prossegue o mundo na sua calha
Alheio a toda a razão
A justiça que se tarda
Envenena o coração

O amor, o seu antídoto,
Ao vê-lo assim instalado
Parece ter-se perdido
Sem rumo em qualquer estrada
Vagueia, assim, livremente
O cinismo impenitente
A castigar o poeta
O mundo e a sua gente


domingo, 11 de dezembro de 2022

Não quero rendição

Não quero rendição
Ao desencanto
Nem à injustiça
Não quero rendição
À desilusão
Nem aos déspotas
Desejo de liberdade inviolável
Rendição apenas
Ao amor
Àquele que não pede
Anulação
Nem fingimento de ser
Quem não se é
Porque não seria amor
Antes escravidão
Não seria escolha
Seria submissão
Não à rendição
Não à anulação
Ser de sublevação 

sábado, 10 de dezembro de 2022

Crónica de Maus Costumes 303

 

Revolta e indignação

Trago dois assuntos para a agenda de hoje: Ronaldo e professores.

Relativamente ao Ronaldo, dizer que anseio pelo fim da novela que a comunicação social, redes sociais e a própria família criam em torno do homem. Para ele, apenas uma palavra: obrigada, pelo tanto que deu à seleção e, sobretudo, pelo coração que põe quando traz as quinas ao peito. Aos que o destratam sem tino, sem consciência e sem razão sugiro que se remetam ao silêncio. Ronaldo não é nem nunca foi o meu ídolo. Só tive um e esse partiu há duas semanas. Porém, sei reconhecer no Cristiano a grandeza futebolística que tem, fruto do seu esforço, da sua dedicação e da sua superação. Sei, sobretudo, ser reconhecida pelo facto de levar o nome de Portugal ao mundo e de defender acerrimamente as cores do seu país. Cristiano é um jogador gigante em fim de carreira, mas continua humano, cheio de virtudes e de defeitos também. Não me interessa se é mais ou menos arrogante, se falhou aqui ou ali, como todos nós. Quem foi sempre esclarecido e nunca errou atire a primeira pedra, já dizia Cristo, ou então aqueles que tanto o criticam que digam o contributo maior que deram ao seu país. Cristiano conquistou o mundo e agora, do alto dos seus trinta e sete anos, o corpo não responde com a mesma agilidade e rapidez, não porque ele não se empenhe seriamente, mas porque o rendimento já não pode ser o que foi. Está a ser muito penoso para ele aceitá-lo e digerir. É difícil compreender que quem se esforça e se exige tanto tenha problemas em aceitar o que a quem está de fora parece óbvio?!

Respeito por quem já trouxe tantas alegrias desportivas ao país e empatia para que ele possa aceitar a nova realidade. Ser-se compreensivo e respeitador para com ele não significa ser condescendente, penso que nem ele o quereria quando caísse em si. Se Ronaldo não tem capacidade física para fazer os noventa minutos, não faz ou não joga. Certo. Nunca comprometer o coletivo em nome do individual, mas respeitar quem deu tanto implica não se regozijar com o seu mau momento, implica não ser cruel nem maldoso e nem é uma questão de generosidade, mas de caráter. Assim o entendo.

Por isto, Ronaldo, mesmo não gostando quando, de alguma forma, hostilizas o meu clube, desejei muito que pudesses ser o herói do jogo, uma última vez. Não foi possível. Nem sempre é possível. Sabes um segredo… Os melhores heróis trazem sempre consigo algum lastro de derrota. Terás de o superar, porque o céu já o alcançaste, independentemente de tudo.

Fecho este separador e passo abruptamente para os professores e a sua luta. Não posso deixar de fazer, também por aqui, o apelo à união dos professores, em primeiro lugar e, depois, aos sindicatos. Perante mais um ataque soez à classe, pede a razão que nos batamos pela defesa da classe, mas também da escola pública, tão de si depauperada pelas sucessivas governações.

 Não! Os professores não querem ver a sua liberdade de escolha posta em causa em nome da gestão de recursos humanos. Não! Os professores não querem estar sujeitos à vontade e perfis maleáveis e manhosos e que permitem a adulteração da escolha de um profissional. Não! Os professores não querem ver sonegado o direito de se aproximar da sua área de residência, porque ao contrário do que o senhor ministro diz, muitos de nós não moram onde trabalham, porque já têm uma vida feita e habitação própria noutro lugar. O professor poderá, eventualmente, viver onde trabalha se lhe forem dadas condições para tal. Não! Os professores não querem andar de escola para escola entre concelhos ou até no mesmo, na sua própria viatura e com combustível pago do seu bolso, porque ou as escolas distam mais de cinco quilómetros ou ninguém lhes paga o gasóleo e o desgaste. Não! Os professores não querem ficar à espera numa lista interminável, quando são muito bons, mas as quotas dizem que não o podem ser. Não! Os professores não querem perder a sua liberdade de pensar, de se pronunciar e de agir, ao abrigo de uma coerção camuflada de poderem vir a ficar sem o seu lugar se forem uma voz dissonante. Não! Os professores não querem ser marionetas nas mãos dos que até ao momento só nos desgovernam. E não! Os professores não querem lutas fofinhas e inócuas, serviçais, à espera da esmolinha! Os professores querem, porque merecem, todo o respeito da sociedade e este, meus amigos, não é feito de meras palmadinhas nas costas em tempos difíceis, mas com ações concretas de dignificação da carreira. Um governo ingrato que não reconhece nem tem interesse em proporcionar uma escola pública de qualidade e que vive à custa do espírito de missão dos professores, porque o têm e volta-se contra eles, não é de confiança. Não!

É hora de dizer: Basta!

Às associações sindicais apelo para que terminem com as “guerras de alecrim e de manjerona”, que acabem com as suas guerrinhas de interesses, pois os tempos são duros e de luta. Os professores estão mobilizados. Cavalguem essa mobilização e, sobretudo, não nos falhem como tem vindo a acontecer. Não queremos acordos razoáveis sempre com prejuízo para o nosso bolso. Queremos uma escola que seja merecedora do nosso empenho e da nossa motivação e que nos reconheça o esforço. Não se fazem reformas contra as pessoas! Fazem-se reformas pelas pessoas e elas são os professores e os seus alunos!

Aos encarregados de educação dizer-lhes que nós, professores, também somos pais com filhos nas escolas públicas e que têm também os seus professores em greve. De seguida, alertá-los para duas realidades que parecem não querer compreender: dentro de pouco tempo, a falta de professores será avassaladora e da forma que tratam a classe, a desvalorizam e achincalham, poucos serão os jovens que virão para o ensino; depois, para colmatar essa falha arranjarão alguém com algum conhecimento superficial sobre os assuntos para ensinar os vossos filhos… Voltamos à década de oitenta em que havia profissionais no ensino de bradar aos céus! Apesar de, como em todos os ofícios alguns de nós serem melhores do que outros, acreditem que nunca a educação teve profissionais tão bem preparados e começa a perdê-los, sem retorno. A mim, se me quiserem reformar e deixarem trazer para casa o ordenado intacto, eu bato com a porta.

Gosto de ser professora e não tenho pejo em dizer que sou muito boa profissional dentro de uma sala de aula. Gosto de sentir os meus olhos brilharem e o meu sangue ferver quando lhes falo do revolucionário Garrett, do sarcasmo e inteligência do Eça, do príncipe Camões, daquele que o queria suplantar, o Fernando e as suas Pessoas e do nosso génio último, o nosso Nobel que tanto nos orgulha. É isso que faço com gosto e sei que os meus alunos farão a justiça de o reconhecer. Cansada! Não dos nossos jovens cada vez mais difíceis de motivar, mas de sucessivos Governos que querem fazer da escola pública o esgoto nacional e dos seus professores, capachos sem voz ativa!

Acordem, colegas!

“É a hora!

Valete, fratres.”

 

Nina M.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sábado, 3 de dezembro de 2022

Crónica de Maus Costumes 302

 

Quem tem filhos tem cadilhos

As pessoas que mais amamos são as que têm o condão de tornar o dia claro ou de o fazer de nevoeiro e de chuva intensa. São as que nos dão as maiores alegrias e, paradoxalmente, as que nos causam os maiores padecimentos e preocupações. Às vezes, conseguem ambos num curto espaço de tempo.

As pessoas que uma mãe mais ama são os filhos. Acima dela mesma e, por cansada que esteja, não há esforço que não desenvolva para os ver no caminho certo, que pode ser o que eles escolherem, mas pelo qual devem trabalhar. Quando se tem filhos que não assumem as suas responsabilidades como devem ser assumidas, esse comportamento deve ser acompanhado de perda de direitos, mas de forma positiva e construtiva. Um equilíbrio difícil de se conseguir quando eles são obstinados na teimosia.

A necessidade de autonomia e de bons resultados não se compadece do ritmo de cada um, no mundo quantitativo e competitivo em que vivemos. Os que se inquietam com essas pressas e esses ritmos terão de se adaptar ao mundo em que vivem, mesmo que ele contrarie os valores que se andou a aprender. Se ao jovem foi ensinado que a cooperação é mais interessante do que a competição ou, pior ainda, se a preferência pelo desligamento e abandono da competição é um traço de personalidade, está o miúdo e estão os pais envolvidos em sarilhos. O jovem, porque não entende o motivo de ter de ser assim e a cenoura do sucesso profissional com que se lhes acena é ainda um futuro demasiado longínquo e os pais porque sabem a realidade em que se mexem e sabem que a vida atropela os mais incautos.

A colisão entre estas duas forças opostas gera desconforto para todos, até porque as expetativas de uns não são coincidentes com as dos outros. Fazer com que o jovem compreenda que não basta a positiva para entrar na Universidade, mas que tem de estudar seriamente, se o quiser fazer, é trabalho hercúleo.

O controlo e o aperto parental no que diz respeito à imposição de estudar, a partir de determinada idade, são dificílimos. Então, para os que até têm ambições, mas estas exigem trabalho que não se gosta de fazer, é uma cruz! Um dossiê a ser gerido com cautela e negociado, sempre à espera que a maturidade dê o sinal de sua graça ou então que o medo da perda de certos privilégios possa espoletar a ação.

Até lá, aconselho o remédio que eu tomo: quilos de paciência a ingerir pela manhã, com reforço a meio da tarde, e um acompanhamento próximo, o que para quem detesta o controlo se revela uma medicação indigesta, mas necessária e, ainda assim, às vezes, ineficaz.

Para além disto, resta acender a velinha para Santo Efrén, que propõe a seguinte oração:

Senhor e Mestre de minha vida,

Afasta de mim o espírito de preguiça,

De abatimento, de domínio, de loquacidade,

E concede a mim, teu servo,

um espírito de integridade,

de humildade, de paciência e de amor.

Sim, Senhor e Rei,

Concede ver os meus pecados

E não julgar os meus irmãos

 Há que aproveitar e pedir por nós, pelos filhos e, já agora, pelos alunos, que padecem do mesmo mal. Ainda estive para retirar a loquacidade da equação, mas adulteraria o original. No entanto, faço o reparo de que se esta não for no sentido pejorativo da verborreia vazia, pode e deve ser estimulada. Se for para os fala-barato que não deixam ninguém descansar às oito da manhã, com tanto paleio para nada dizer, então, que a abandonem para sempre! Porém, Santo Efrén, que seriam os escritores sem ela?!

Diz o povo que quem não pede Deus não ouve… Peçamos.

 

Nina M.