O Natal já não é o que era
O Natal, por mais que me esforce, já
não tem o mesmo sabor. Não foram os Natais que mudaram sobremaneira… Fui eu
quem, primeiro, cresceu e, depois, envelheceu.
Deixei de aguardar ansiosamente
pelos presentes. Em criança, era uma azáfama e, por antecipação, descobríamos o
que nos iam ofertar, apesar dos esforços vãos da minha mãe, que tentava evitar
que os descobríssemos. Porém, a alegria e a magia partilhada com os irmãos e os
primos era certa e o convívio especial. Depois do jantar em casa de cada um, a
nossa Tia abria os braços acolhedores e o resto da consoada era passada em sua
casa, entre rabanadas de leite, de chá e de vinho, à vontade do freguês… Nunca
comi nenhumas. Não aprecio essa doçaria. Excetuando o pão-de-ló da tia, que
também já não podemos comer, não queria saber dos formigos nem da aletria. Falar
deste pão-de-ló é vê-la sentada num banco com o alguidar enorme de barro que
acolhia os ovos, o açúcar e a farinha batidos à força de braços que seguravam
as duas canas, batidas cruzadas e sincopadamente. Ah! Tia, onde quer que
estejas, sentimos a tua falta e os Natais não são mais os mesmos. Rapávamos as
canas e os alguidares com a língua e dedos, mesmo assim, à lambões!… Hoje, há
também pão-de-ló de forno de lenha, mas não sabe ao mesmo…Já mais jovens, não
eram as prendas que faziam diferença, mas o convívio de primos entre os
amendoins, o espumante e as cartas jogadas.
Hoje, o Natal perdeu um pouco da sua
magia. Talvez tenha crescido de mais. Não há presentes pelos quais anseie.
Sabem que só os livros e experiências de passeios ou viagens me podem fazer
sonhar. Estou cada vez pior com os livros. Não suporto oferecer aqueles que não
possuo… Só se não gostar do género, mas não sou de ofertar o que eu não gosto…
Depois, livros não são um presente que se ofereça a qualquer um. É um presente
especial e há que merecê-lo, pelo que a época natalícia consegue ser
exasperante. Cada vez menos gosto de andar à cata de presentes em lojas cheias.
Passo pelas ourivesarias, sapatarias e lojas de moda quase sem olhar. No
entanto, devo entrar, rebuscar nos molhos de roupa revirada à procura da
camisola certa para oferta ou de outra coisa qualquer… Com a falta de paciência,
vejo-me às compras de Natal nos vinte e dois e vinte e três. Consegui evitar a
véspera, menos mal…
Enfim… olho-me e vejo-me a comer as
batatas cozidas com bacalhau e a saberem-me bem (nunca apreciei) e sinto a
maturidade entranhada nos ossos.
Salva-nos
a euforia dos pequenos. Agora, a vez é deles, dos primos que se reúnem e
regozijam com os presentes que o pai-natal ou o Menino- Jesus deixou no
presépio, tal qual outrora os pais fizeram, mas sem tia… É ouvi-los dizer que
esperam um ano inteiro por este dia em que se juntam todos em casa da avó, com
a lareira acesa e é uma festa!… É bom para os pais também, pois os irmãos
reúnem-se e é bom.
O Natal, agora, é feito de serenidade.
Continuo sem comer as rabanadas, os formigos e a aletria… Somos adultos com as suas
famílias que desaprendem o encanto. Pelo sim pelo não, para finalizar o repasto,
sento-me à mesa da casa onde cresci a rabiscar a crónica com que vos desejo um feliz
Natal.
Nina M.
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