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sábado, 2 de outubro de 2021

Crónica de Maus Costumes 248

 

 A salgalhada do Dec-lei nº 54/2018, de 6 de julho

                Tentarei dar voz à angústia de uma colega, que sei ser partilhada, por já o ter sentido na pele. Dizia que ninguém abordava o tema, que não se falava sobre o assunto e que era necessário que o fizéssemos.

                Dava conta do seu sofrimento por ter de acompanhar um menino NSE, antes NEE (para os mais distraídos, já não temos alunos NEE, mas antes com necessidades de saúde especiais) com uma problemática para a qual não se sentia com competência para lidar. Eu e todos os meus colegas que já tiveram de fazer o mesmo compreendemos perfeitamente o desespero e a impotência.

                Ao longo da minha carreira, que conta já mais de vinte anos, já tive meninos com atrasos cognitivos ligeiros (o problema mais comum e talvez o menos difícil de lidar) e severos, de difícil gestão… Cegos, surdos, alunos com trissomia 21, com espectro de autismo, com esclerose múltipla e sei lá o que mais. Não tenho qualquer formação em Educação Especial e, perdoem-me a franqueza, não quero ter. Já foi uma via para efetivação célere de professores e nunca o quis fazer. Estive exatamente vinte anos a contrato, mas nem essa situação precária me motivou a tirar tal especialização. Não quero ser mal interpretada e quem me conhece sabe que nessas circunstâncias, quando tenho esses alunos especiais, faço o que melhor posso e sei fazer, dentro do que a minha sensibilidade (porque sei que a tenho) me aconselha. No entanto, por que razão se há de colocar professores sem formação na área a lidar com estes meninos, que necessitam e merecem os profissionais mais qualificados? Por razões meramente economicistas, obviamente. A já conhecida mania da tutela de querer fazer omeletes sem ovos e mais com menos!

Já lecionei uma disciplina intitulada Atividades para a Vida Diária. Cheguei a sair da escola com os meninos, a levá-los à mercearia mais próxima e pô-los a fazer compras, pagamentos e receber trocos. Evidentemente, as compras pagava-as eu e lá ficava com os produtos; levava-os à cantina para dobrarem guardanapos e prepararem os talheres para as refeições, fazia bolos e lanches e passeios pelas imediações da escola, brincava com jogos que desenvolvessem o raciocínio, insistia semana após semana na escrita do nome, fazia jogos no computador e ensinava a enviar e-mails. Dois deles não conseguiam aprender, enfim… Semana após semana a inventar o que fazer, a repetir tarefas, enfim, a tentar fazer bem… sabem uma coisa?! Detestava! Gostava das crianças, que sei que se afeiçoaram a mim. Era carinhosa e dava-lhes todo o mimo e atenção, mas detestava ter estas funções!

                Eu gosto de ensinar. Particularmente, Literatura. É com alunos do secundário que me sinto mais feliz e realizada, porque é nessa faixa etária em que se começa a falar de Literatura com outra propriedade, que é o prazer que a escola ainda me reserva… Perdoem-me, mas não fui preparada para acompanhar meninos com patologias significativas, apesar da minha boa vontade, quando tenho de o fazer! E, muito sinceramente, não deveria ter de o fazer! Nem eu nem qualquer outro colega sem formação. Do meu plano curricular, nunca constou qualquer cadeira que me tivesse preparado para tal! As minhas meninas surdas não tinham intérprete na sala de aula! Só tinha de lecionar Gil Vicente e Camões! Porventura, seria eu obrigada a saber Língua Gestual Portuguesa?! A sensação de impotência é terrível, porque tinha a plena consciência de que a aula não lhes chegava, apesar de estarem, obviamente, na carteira da frente e de, supostamente, serem capazes de ler os lábios… Também não era o colega de Educação Especial que lhes ia explicar “Os Lusíadas”, se não era professor de Português, nem tinha competência para o fazer!

Façamos uma reflexão séria, porque isto é brincar com os pais e com as próprias crianças. É fingir uma inclusão que nada tem de inclusiva. É um brincar ao faz de conta que me transtorna e me indigna! Há muito que estes pais deveriam mobilizar-se para exigirem profissionais habilitados e todos os meios para que as escolas possam trabalhar adequadamente com os seus filhos! A tutela não pode querer uma escola inclusiva, mas que o é só para inglês ver. Atenção! As escolas fazem o que têm ao seu alcance para suprir essas lacunas e necessidades, mas talvez, numa ação concertada, estivesse na altura de fazer certas exigências, juntamente com os pais e também nós, professores, como por exemplo, a colocação do número necessário de docentes com habilitação para lidar com estas problemáticas e que possam orientar, implementar e lecionar os discentes que apresentam um Programa Educativo Individual e/ou um Plano Individual de Transição.

Dizer no Artigo 3º que são princípios orientadores da educação inclusiva:

a) Educabilidade universal, a assunção de que todas as crianças e alunos têm capacidade de aprendizagem e de desenvolvimento educativo;

b) Equidade, a garantia de que todas as crianças e alunos têm acesso aos apoios necessários de modo a concretizar o seu potencial de aprendizagem e desenvolvimento;

c) Inclusão, o direito de todas as crianças e alunos ao acesso e participação, de modo pleno e efetivo, aos mesmos contextos educativos;

d) Personalização, o planeamento educativo centrado no aluno, de modo que as medidas sejam decididas casuisticamente de acordo com as suas necessidades, potencialidades, interesses e preferências, através de uma abordagem multinível; []

Para no Artigo 10º, no ponto 7, dizer-se que “as medidas adicionais são operacionalizadas com os recursos materiais e humanos disponíveis na escola, privilegiando-se o contexto de sala de aula”, não é mais do que atirar toda a responsabilidade para as escolas, sem lhes atribuírem os meios necessários, sugerindo a implementação de sinergias com as autarquias e outras entidades, no sentido de proporcionar a educação inclusiva, prevista e regulamentada no Decreto-lei nº54/2018, de 6 de julho. Se isto não se tratar de retórica falaciosa, peço a um colega de Filosofia (e conheço alguns) que me corrija o erro, porque tenho humildade suficiente para poder aprender!

A ti, Isabel, que sugeriste a escrita do texto, ainda que a minha voz não chegue longe e, portanto, seja absolutamente inócua, espero ter conseguido reproduzir as tuas preocupações, que são também as minhas e as de muitos.

Estas crianças merecem respeito! Já agora, os professores que tentam fazer o seu melhor, também!

 

Nina M.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Desgosto

 Matei-te dentro de mim

Como a mulher má da infância 

Fazia aos gatos ainda cegos e feios

Amarrados num saco e atirados ao poço 

Poupados à dor da vida, a dor maior


Morreste-me, desgosto, devagar

Em asfixia lenta

Com mãos invisíveis a apertarem-me a garganta

Até não sentir a carne nem as vértebras 

Até não sentir nada 

Só o cinismo sobejava


A cada silêncio ou ausência de palavra

Era a minha voz que se afastava

Longínqua e nada nela perdurou

E no desgosto enraizado

A dor se calcinou 


Não se lhe permite o corpo, o pranto

Nem pungentes gemidos

Uma alma que já  morreu outrora

Fica cega, muda e doente dos ouvidos






quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Apeteces-me com violenta ternura

Apeteces-me com violenta ternura

Feita de violetas e girassóis

Desejo a tua carne ausente

Beijá-la sofregamente

Como quem morde a saudade


Saciar-me de ti ao limite

Para suprir a extrema falha

A tua alma em mim

Assim, despersonalizada,

Como fora de minha pertença

Porque o teu verso é a minha carne




sábado, 25 de setembro de 2021

Crónica de Maus Costumes 247

 

Xenofobia e desumanização

                Parece que Portugal vai receber duzentas jovens afegãs, jogadoras de futebol, atividade que lhes é vedada no seu país pelo regime talibã. Soube da notícia, que não agrada a muitos, pelas redes sociais.

                Às vezes, questiono-me se as pessoas abrem as notícias para efetivamente ler ou se sabem mesmo ler, dada a quantidade de disparates que debitam. Se fossem comentários parvos, mas inócuos, não me irritariam, mas a substância, o veneno e o ódio destilado são uma realidade de difícil acomodação. Surgiram de imediato teorias da conspiração. Como se duzentas raparigas, que fogem da violência, da perseguição, da discriminação e da subjugação que lhes são impostas no seu país, fossem meios a utilizar num plano diabólico de tomada da Europa, estratégia levada a cabo pelos terroristas sanguinários. Depois, chegam os argumentos dos apoios e da falta de dinheiro, dos portugueses que passam muitas dificuldades e dos quais ninguém quer saber. Condescendo relativamente neste ponto. Há muito português a precisar de ajuda que não tem, mas os que falam desses também os instrumentalizam e só se lembram de que eles existem nestes momentos. São pedra de arremesso embrulhada num argumento frágil, mas ainda não vi ninguém a mobilizar-se contra a miséria.

                Assim, as miúdas ou são vistas como alguém que vem viver com o apoio do Estado português, entenda-se viver às expensas do contribuinte, ou como alguém que tem uma cultura muito diferente e, como tal, não se vai adaptar ou ainda, na pior das hipóteses, como peões de uma estratégia talibã para domínio da Europa. São apenas refugiadas que tentam preservar as suas vidas! Talvez seja conveniente explicar que o nosso país receberá uma certa quantia por este acolhimento, mas mesmo que assim não fosse, resta-me perguntar sobre o tipo de humanidade que queremos. Não será um princípio ético ou moral evidente auxiliar quem precisa? No meu entendimento, temos todos o dever de cooperar e de acolher o outro, sabendo respeitar as suas diferenças. Foi precisamente esta capacidade de cooperação em sociedade que permitiu que a espécie humana se protegesse, se desenvolvesse e se multiplicasse. Vivemos tempos estranhos. Uma era de individualismo exacerbado, em que o ego se sobrepõe ao coletivo e que faz com que se entenda a vida própria como mais importante do que a do outro.

Um egoísta manifesta amor exclusivo por si, mas o ser constrói-se com o outro, numa dialética de reconhecimento do seu igual, onde a cooperação, o respeito e a aceitação são a chave para a sobrevivência e bem-estar de ambos. Ao separarmos o “nós” do “outro”, ao vê-lo como alguém díspar, justificando-o com as divergências culturais, estamos a desmerecê-lo, a não o reconhecer como nosso igual, abrindo portas à desumanização. A História mostra que para pessoas absolutamente vulgares cometerem grandes atrocidades, basta convencê-las do demérito do outro, instigando o medo e o ódio àquele a quem não se reconhece como nosso semelhante, considerando-o alguém inferior a quem se pode retirar a sua dignidade, desumanizando-os, remetendo-os à categoria de animais que podemos subjugar. John Steinbeck relata-o cruamente no seu “Vinhas da Ira”. Após a publicação do romance que colocou a América a ler, deixando a nu as atrocidades de um capitalismo selvagem que sobrevive pela disseminação do ódio do norte-americano em relação ao seu compatriota, teve de se proteger com medo das possíveis retaliações. Acreditava que apenas a sua fama de escritor o salvara de um assassinato. Os californianos não suportavam os “okies”, oriundos do mesmo país, seus compatriotas, porque eram diferentes de si. Pobres, carregavam a miséria e a fome no olhar. Gente vilipendiada na sua terra de origem e também no oásis prometido e a ira que se forma num estômago consolado com pêssegos quentes impulsiona a ação com a esperança na mudança. Não os reconheciam como iguais e a partir desse pressuposto todas as atrocidades eram permitidas.

                Paradoxalmente, aquele que maltrata o outro, desumaniza-se em primeira instância a si mesmo. Ao roubar pela violência a dignidade alheia, está a perder a sua própria dignidade. Quando o coração do Homem deixar de sofrer pela miséria do outro, deixar de o reconhecer como seu igual, perdeu o estatuto de ser humano.

                Obviamente, quem chega tem o dever de respeitar a lei de quem acolhe, sem perder a sua identidade, porque em democracia há tolerância e respeito pela liberdade individual, desde que esta não faça perigar um coletivo.

                Sejam muito bem-vindas, meninas! Oxalá aqui possam reunir condições para continuarem a fazer o que gostam e lutarem pela vossa liberdade e pela liberdade das vossas conterrâneas. A vossa voz tem de se fazer ouvir e a vossa luta deve ser a luta de todos, mas em primeiro lugar, tem de ser a luta de todo o povo afegão. Haja coragem!

 

Nina M.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Outono

 Amanheço e é outono

Lugar de folhas castanhas

Desperta a alma do seu sono

Procura ver-se nas entranhas


Cores quentes outonais

Sob o pálido céu azul

Caem das nuvens vendavais

Vai-se a alegria com o vento do sul


O sol já não brilha como outrora

Chega a pequena brisa que fustiga

Torna-se mais opaco pela aurora

E a sua ausência castiga


Prenúncio do fim do dia

Mesmo se este vai a meio

Instalou-se a melancolia

Assim que o outono veio


Sem chilreios nem outras vozes

Só as bátegas nas vidraças

Bagas que escorrem velozes                         

A dar conta de desgraças


Fica sempre um vazio

No sensível coração

Com a partida do estio

Parece instalar-se a solidão


Estação mais triste, esta

Apesar das cores quentes

Sossego de fim de festa

Primeiro frio indecente


Não cansa um céu límpido

Nem o brilho de um sol quente

Desejo de um mar tépido

De uma alma sempre ardente


É outono. É velhice.

Nostalgia sem idade

Inverno precoce e cúmplice

Da nossa efemeridade.







segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Cartas

  O mundo está mais seco!

  Já ninguém escreve cartas

  De amor...

  Só sms lacónicos e feios

 Como se de estenografia se tratasse.

 

Mas as emoções são redondas.

Plenas. Ufanamente espaçosas

E gostam de ocupar as suas linhas...


No mundo cruel e cínico

A doçura perdeu o seu lugar.

O poeta canta a amargura e o pesar...


Ninguém mais escreve 

Cartas de amor...

Guardam-nas desatualizadas

Amarelecidas e com sabor a bafio.


O prazer de abrir o envelope...

O coração desabrido...

Em ânsia de poesia suave

Não existe mais...


O algodão doce enjoa os adultos.

Mas que sabem eles de amor

E das cartas  não escritas?

De palavras perdidas por registar?


Que sabem eles do cheiro a tinta no papel?

Da letra desenhada a beijar a alma?

Das cartas amarelas pelo desprezo do tempo

Esquecidas no fundo da gaveta?


Ou talvez cartas nunca escritas e nunca recebidas...

Que sabem eles?


 






sábado, 18 de setembro de 2021

Crónica de Maus Costumes 246

 

Pedidos e pequenas vaidades

                Ora bem… Ireis perdoar o tema de hoje, que surgiu inusitadamente a pedido da filha. Seria para falar de campanhas, arruaças e eleições, mas não há como negar a solicitação ansiosa da pequena da casa.

Ao ver-me dirigir para o escritório quis saber se iria escrever a crónica e se seria ela o assunto. Disse-lhe que não e os grandes olhos castanhos arregalaram-se primeiro e entristeceram depois. Soltou o lamento: “mas amanhã é a minha festa! É a minha comunhão e tu não vais escrever sobre isso?” De maneira que cá estou a cumprir a petição que vai ser lida por quem de direito… Há rogos que não devem ser ignorados e sinto que este é um deles, porque tu, minha pequena, a par do teu irmão, sois pedaços da minha alma e pedaços da minha carne e do meu sangue, criados pelo milagre da vida. Pedido vosso com o intuito de vos sentirdes suficientemente importantes para a mãe, desde que feito dentro do que é razoável, só por motivo de força maior não será cumprido. Isto exclui certos bens materiais. Não são importantes e sabeis o que penso sobre isso, porque vos digo constantemente. Este miminho de te veres representada na escrita da mãe pode ser aplicado, desde que com conta peso e medida.

A Matilde vai ler perante uma plateia. Briosa como é, quis ter uma participação mais ativa na cerimónia e lê muito bem, mas anda preocupada. Será um aborrecimento se com o nervosismo a língua se enrolar e a palavra “eucarística” sair mal pronunciada. Quer muito superar o desafio com sucesso, mas há o receio de falhar e sei que quando chegar o momento, o seu coraçãozinho tenro baterá a mil.

Vai correr tudo muito bem, filha, mas se houver engano, também não faz mal, porque as nossas vidas estão cheias de fracassos e apenas alguns sucessos. Acredito mesmo que são necessários os tropeços para aprendermos com eles. Certamente, se tal acontecer, nunca mais esquecerás de que te enganaste a ler na tua primeira comunhão, mas também terás aprendido que errar faz parte da vida e que mesmo que nos esforcemos, nem sempre as coisas correm como queremos. Aprenderás a resistir, a minimizar o tombo e a prosseguir no caminho. Depois, apesar de tudo, estarás muito bonita no teu singelo vestido (que já experimentaste à exaustão) a celebrar com a tua família o momento que tanto anseias… A vaidade feminina que não dá tréguas desde cedo! O vestido que tem de condizer com a sandália, com o gancho de cabelo e o agasalho fino de malha. Tudo selecionado com afinco, pormenor, muito cuidado e esquisitice, porque nestas idades não se gosta de qualquer coisa. Não precisei de muita intromissão. Intuitivamente, a pequena descobre que o bom gosto exige simplicidade.

Espero que seja um dia feliz, daqueles que irás sempre recordar mais tarde. Eu fiz a minha primeira comunhão mais cedo. Tinha apenas seis anos e ainda hoje recordo a cerimónia, feita no Porto, com crianças que desconhecia, por motivos que não vou aqui relatar, mas sobretudo a prenda de que mais gostei: um boneco a imitar um bebé, mas tão grandinho, que punha a tua avó a comprar-lhe “baby-grows”. Quando saía com o “martelão” (como lhe chamava o teu avô, o que me enfurecia), as pessoas julgavam tratar-se mesmo de um recém-nascido. Recordo também o relógio da praxe oferecido pelo padrinho. Naquele tempo era assim… Depois, do almoço talvez se lembrem melhor os adultos, porque a tua mãe comia tão pouco e tão mal que o cardápio não tinha importância nenhuma.

Talvez, um dia, sejas tu a escrever as memórias da tua festa. O que a tua mãe quer é apenas que sejas feliz e que bênção divina possa sempre acompanhar-te.

 

Nina M.