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quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Difícil viver só entre a multidão

Difícil viver só entre a multidão
Sentir que se é só
Tanto quanto ao nascer e ao morrer
Só no caminho sinuoso do encontro de si
Renegar convites alegres de fútil companhia
E encontrar o sonho numa solidão equivalente
Abraçá-la como se abraça a gente...
Sina que sempre se adivinhou
Ao longe no destino que traçou
Caminho sem retorno de êxtase
As palavras ficam vazias, abstratas
Nem sinal de poesia!
Eu, que as venero e as amo!
Que nelas me queria poder fundir 
E delas me cobrir por inteiro
Estranha condição de ser infinito
De alma em revolução
E o fosso entre mim e os outros que não vejo
Vai-se cavando lento e moribundo
No movimento natural da ordem das coisas
Totalmente só no meio de tanto ruído
Só uma voz quero ouvir
Só uma voz quero seguir:
A do silêncio impoluto que escuta.

sábado, 12 de outubro de 2019

Delírio de poeta

Ser poeta é também saber dizer o que não sente
Dizer uma verdade como quem mente
E olhar-se só na sua crua nudez
Rasguem esses versos tristes
Apaguem a alma de quem os fez
Só trazem angústias as suas palavras
Dores e cinismos enrubescem a tez
Pesar de todos, de quem os lê!
Espíritos doentios e insanos
Atirem ao vento as folhas escritas
De palavras vãs, ilusórias e malditas
Abençoados poetas, boas almas proscritas
Que trazem à luz a mórbida podridão
Perdida algures, escondida talvez no coração

Crónica de Maus Costumes 151


Rescaldo           

            Uma semana após o ato eleitoral e o mesmo ainda dá que falar, apesar de o resultado ser o que já se adivinhava!
            Curiosamente, neste momento, nem se discute se foi o Costa que realmente venceu ou o Rio que não soube ganhar… Parece, então, que estes dois senhores não têm grandes novidades para oferecer aos cidadãos. Bem analisada a situação, entre os dois maiores partidos do centro, um mais virado à esquerda e o outro à direita, as diferenças nem são assim tão assinaláveis! Às vezes interrogo-me sobre o motivo de tanto circo no hemiciclo se quando a oposição passa a Governo é mais um pouco do mesmo! Ah! Já sei… A laranja do Passos Coelho tornou-se demasiado liberal! Verdade, mas essa também nunca foi a génese do partido. A sua verdadeira identidade foi criada e reside no programa do tempo do falecido Dr. Francisco Sá-Carneiro, a quem dei um beijo, num dos seus comícios (tinha uns meros cinco anos e toda vaidosa e triunfal atirei em casa com uma certa admiração que tinha dado um beijo ao senhor Carneiro, que era um homem e não um bicho!). Certo é que o momento me ficou na memória. Estava ao colo da minha prima Alexandrina, jovem já espigadota, que me atirou contra o candidato, a quem espetei um beijo na bochecha direita, se a memória não me atraiçoa. Pouco mais tarde, lembro-me de ver o ar de estupefação dos meus pais ao saberem da morte do político, num suposto acidente de aviação. Quando questionei, a resposta terá sido: o Sr. Carneiro a quem deste um beijinho morreu, porque o avião onde ia caiu. Foi a primeira vez que tive contacto com o espírito português sebastianista e messiânico sem sequer imaginar o que isso era.
 O país ficou órfão, tal como há muitos séculos, no rescaldo de Alcácer-Quibir. Sá-Carneiro era o novo D. Sebastião e, tal como ele, não sobreviveu para conduzir o país ao Quinto Império tão desejado por Padre António Vieira e por Fernando Pessoa!
            De lá para cá, as desgraças económicas e políticas sucedem-se: quatro bancarrotas, todas durante a governação PS. Ninguém ensina economia a essa gente?!
Depois, vêm as laranjas mecânicas arrumar a casa e arrumam tudo tão direitinho que espremem o sumo todo! O povo farta-se do espancamento e já esquecido da desgraça económica anterior renovam a confiança e a história vai-se repetindo, repetindo, repetindo ad infinitum e já ninguém tem paciência! Talvez por isso ninguém queira saber que o António Costa tenha apenas conseguido mais uns meros 120 mil votos e o Rio tenha levado uma sova, apesar de não considerar isso uma hecatombe. Por mim, se conseguissem reunir o melhor dos dois partidos, sem fazerem da política um saco de gatos metidos ao barulho, seria magnífico. Um novo partido com a junção do melhor dos dois mundos, deixando de fora todos os incompetentes e oportunistas que ambos carregam e talvez, talvez pudéssemos começar a almejar algo de novo.
            Enquanto tal não acontece, entretém-se a opinião pública com falsas notícias, enxovalhos e falta de respeito para quem soube conquistar o eleitorado. Se querem contestar Joacine e o Ventura (por este último não nutro a menor simpatia) façam-no com argumentos válidos e ideias do que se pretende para o país, não com ataques diretos e desprezíveis às pessoas. As ideias existem para serem debatidas, no entanto, sempre com o respeito devido pelo indivíduo. Gozar com a gaguez de alguém não é aceitável. Diminuir o outro por fatores externos à ideologia e disparatados é cobardia. A representação destes partidos na Assembleia deveria fazer refletir os políticos de tradição, tal como a elevadíssima abstenção! O afastamento cada vez maior entre o cidadão comum e a política dá origem a fenómenos estranhos. Trump e Bolsonaro não surgiram do acaso…
Já agora, mete-me sempre muita confusão ver gente a encarniçar-se (e bem) contra o fascismo, mas depois aceitarem placidamente o comunismo, que é capaz exatamente das mesmas aberrações, como o provam os mais variados exemplos. O último e mais recente é o Maduro, de quem tanto gosta o nosso BE e o Partido Comunista! Um povo submetido à ideologia marxista é tão espezinhado e sofredor quanto o que é submetido ao fascismo. Como ainda não se percebeu isto?! Como é possível os partidos não se demarcarem destes figurões?!
Regimes totalitários sejam eles de direita, sejam de esquerda, nunca mais!
Nina M.

           


quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Queria escrever ...

Queria escrever ...
O mais belo poema de amor
Como uma palavra simples
Atirada ao vento sem pudor
Ou a chuva miúda de verão
Que sempre soa a bela canção
O amor sublime e transcendente
O que não está ao alcance da mão
Poder...
Transformar a natureza e o ser
Alcançar a "divina loucura" de Platão
E que faz todo o Homem estremecer
Ser...
O poeta inspirado da coisa indizível
O pintor aprimorado das emoções
Mas escorregam as palavras
Como fio de água por entre os dedos
Líquidas e furtivas
Fecham-se ambas as mãos
Presunção inocente de quem quer
Aprisionar a poesia vadia
Em vão...
Ela nasceu para ser livre e inteira e magia
Não é, porém, maior que o amor que canta
Antes a sua fiel escrava e que espanta
À espera do absoluto da vida
Da sorte que lhe soprará o verso perfeito
E assim mostrar ao mundo
A sua beleza...A grandeza desmedida

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Sinto o cheiro cálido da melancolia

Sinto o cheiro cálido da melancolia
Leve e suave odor a rosas
Pétalas já desmaiadas
Adivinham-se no ar plácido
Foi a tristeza que te embalou
Levou-te o brilho de meus olhos
És ânsia amaciada por amor
Sorriso do silêncio e da solidão
Nas mãos vagas e vazias
O sabor da felicidade que se quer guardar
Encerra-a no espírito último
Onde se guardam as coisas sagradas
E onde sempre se volta para sonhar

sábado, 5 de outubro de 2019

Crónica de Maus Costumes 150


Ainda assim, viva a República!

            Há coincidências felizes! Reparo no número redondo e gordo desta rubrica: cento e cinquenta! É um bom número! Representativo das crónicas semanais quase sem interrupções, que têm vindo a ser urdidas há cento e cinquenta semanas. Que melhor dia haveria para o celebrar que este 5 de outubro em que se comemora a implantação da República e em simultâneo o dia professor?!
Festejo duplamente: sou republicana por convicção e também sou professora. Convém, porém, referir que os motivos para a celebração se prendem apenas com o ideal que a República e o professorado representam e não pelo facto de possuir grandes motivos para festividades.
O meu republicanismo prende-se com o facto de acreditar e defender que todos os cidadãos nascem livres e iguais em direitos e deveres e que, apesar das dificuldades e até das oportunidades diferentes, todos, sem exceção, podem aspirar a contribuir para os desígnios da nação, caso se considerem capacitados para tal. Os monárquicos poderão alegar que a casa real seria mais adequada, pois a educação dos príncipes, futuros representantes da nação, é feita com zelo, para que estejam à altura do desafio. Não contesto, mas peca por falha grave: a de se basear o acesso aos mais altos desígnios do país no fator hereditariedade, sem que os cidadãos possam escolher livremente o seu representante. A esse sistema falta a democracia plena exercida através do direito ao voto. Tudo o que implique dano na liberdade de cada um não terá o meu acolhimento.
No entanto, sou obrigada a reconhecer que a República tem falhado imenso com os cidadãos. Não deixo de pensar que vivemos num regime quase feudal sob a capa de pretensa democracia republicana! Os impostos pagos aos senhores, na Idade Média, são agora pagos ao Estado. Lá como agora: as regalias obtidas pelo pagamento das taxas continuam aquém do desejável! O problema é antigo: investimentos errados e desvios indevidos. Desta forma, o povo, para não dizer a arraia-miúda, continua a ver uma boa parte do seu rendimento esmifrado para senhores, mas atualmente, camuflado sob a capa da boa intenção do bem comum! Acresce o seguinte: apesar de teoricamente todos os cidadãos poderem chegar ao Governo da nação, o que a História nos põe em evidência é o facto de se perpetuar uma espécie de hereditariedade na ocupação dos cargos governativos! É caso para dizer: “filho de peixe sabe nadar!” Durante anos, entre a tarefa de governar e a de fazer oposição, os rostos vão sendo os mesmos e com tradição familiar. A diferença reside no facto de terem sido eleitos. Ora bem, não é totalmente verdadeiro, uma vez que elegemos apenas o representante de um partido e não todos os elementos de um governo. A democracia não é pura na escolha de um governo, pelo que se pensarmos bem, ainda encontramos laivos de uma Monarquia embutida. Já agora, o nosso Portugal tão peculiar não implementou a República em todo o território em 1910! Os flavienses apenas hastearam bandeira dois anos mais tarde (1912) e andaram às turras com o Paiva Couceiro e as Invasões Monárquicas. Quem conhece um pouco da História local, fica a saber que os rostos que circulavam nos Paços do Concelho na Monarquia eram os mesmos no tempo da República! Seriam convicções bastante flexíveis! De modo que de lá para cá pouco ou nada mudou! Esvai-se assim o meu ideal de República, aquele em que acredito verdadeiramente e desejo para o meu país…
Estabelecendo a ponte com a flexibilidade que querem na Educação, parece-me que poderia ser uma estratégia proveitosa, mas acredito que se trata mais de um meio para atingir determinado fim! Não vislumbro um verdadeiro interesse em fazer com que os alunos aprendam mais e melhor e sejam justamente avaliados em função da evolução e das aprendizagens reveladas. Fico com a impressão de que se trata de uma forma de se atingir mais rápida e eficazmente uns almejados números na literacia para fazer boa figura nos estudos da OCDE. Não obstante, a quem interessa ter cidadãos livres pensadores e questionadores de uma ordem instituída? Por certo, não às elites que nos têm governado. Quem leu Aldous Huxley e George Orwell saberá que nada melhor do que o pensamento instigado e controlado em massa para evitar a rebelião e eliminar o pensamento crítico. Quanto mais ignaro o povo, melhor para o governante. Em Orwell até o extermínio da palavra acontece. A inexistência do lexema liberdade gera a impossibilidade de nela pensar, já que o pensamento é formulado com o verbo! De modo que também na sociedade orwelliana e também de Huxley havia uma espécie de Índex e as narrativas históricas eram constantemente reformuladas, repetidas à exaustão até se inculcarem na memória coletiva. Uma mentira repassada infinitamente torna-se verdade! Isto há coisas! O que a literatura vai buscar! Como se tal fosse possível! O problema é que enquanto se fornece o circo ao cidadão, (televisão, internet, jogos…) o político aprende realmente com os livros! Há que causar dependência do que não se precisa e ir retirando e fornecendo o brinquedo consoante a necessidade. Mantém-se o povo entretido e esbaforido, com o objetivo de ter acesso a uma falsa necessidade criada pelo mercado e quando se quer ser bonzinho, permite-se que lá chegue um pouco mais rápido. Assim, com papas e bolos se enganam os tolos.
Os professores, esses seres que por aí vão pululando e que têm a obrigação de serem analíticos e desejarem formar cidadãos críticos, têm de ser afrouxados, manietados e contaminados pelo desânimo. Pode ser que assim a angústia seja tão forte que se deixem seduzir pelo pensamento comum e em vez de serem ovelhas tresmalhadas passem a conduzir o rebanho pelo trilho de todos!
Faço honra a José Régio e ao seu “Cântico Negro”: “Não sei por onde vou/ Não sei para onde vou/ - Sei que não vou por aí!”

Nina M.



sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Não sei se são mentira ou verdade

Não sei se são mentira ou verdade
As narrativas que me invento
Mas sei serem um bom placebo
Para adoçar o pensamento
Viajo para além de mim
Crio mundos, uma nova dimensão!
Que fazer quem nasce assim
Pródigo de imaginação?!
Tão real este sentir
Da personagem que pari
Sorrio ligeiramente ao vê-la
 A ser idêntica a si
Cavalgo na fantasia
No universo do impossível
Deliciosa essa harmonia
Inversa ao real tangível...
Viver dentro e fora de mim
Com toda a consternação
Não é meio nem um fim
Apenas intrínseca condição!
Formulo novas existências e fascínios
Etéreas emoções reinvento
Diálogos improváveis mas tão reais
Fruto só do pensamento.
Perco-me dentro de mim!
No labirinto que me adentra
Nele me vou procurar
Se é ilusão não me assusta
E lá desejo morar
Que é na casa do meu ser
Onde sempre me vou encontrar.