Sinto o cheiro cálido da melancolia
Leve e suave odor a rosas
Pétalas já desmaiadas
Adivinham-se no ar plácido
Foi a tristeza que te embalou
Levou-te o brilho de meus olhos
És ânsia amaciada por amor
Sorriso do silêncio e da solidão
Nas mãos vagas e vazias
O sabor da felicidade que se quer guardar
Encerra-a no espírito último
Onde se guardam as coisas sagradas
E onde sempre se volta para sonhar
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segunda-feira, 7 de outubro de 2019
sábado, 5 de outubro de 2019
Crónica de Maus Costumes 150
Ainda assim, viva a República!
Há coincidências felizes! Reparo no
número redondo e gordo desta rubrica: cento e cinquenta! É um bom número!
Representativo das crónicas semanais quase sem interrupções, que têm vindo a
ser urdidas há cento e cinquenta semanas. Que melhor dia haveria para o
celebrar que este 5 de outubro em que se comemora a implantação da República e
em simultâneo o dia professor?!
Festejo
duplamente: sou republicana por convicção e também sou professora. Convém,
porém, referir que os motivos para a celebração se prendem apenas com o ideal
que a República e o professorado representam e não pelo facto de possuir
grandes motivos para festividades.
O
meu republicanismo prende-se com o facto de acreditar e defender que todos os
cidadãos nascem livres e iguais em direitos e deveres e que, apesar das
dificuldades e até das oportunidades diferentes, todos, sem exceção, podem
aspirar a contribuir para os desígnios da nação, caso se considerem capacitados
para tal. Os monárquicos poderão alegar que a casa real seria mais adequada,
pois a educação dos príncipes, futuros representantes da nação, é feita com
zelo, para que estejam à altura do desafio. Não contesto, mas peca por falha
grave: a de se basear o acesso aos mais altos desígnios do país no fator
hereditariedade, sem que os cidadãos possam escolher livremente o seu
representante. A esse sistema falta a democracia plena exercida através do
direito ao voto. Tudo o que implique dano na liberdade de cada um não terá o meu
acolhimento.
No
entanto, sou obrigada a reconhecer que a República tem falhado imenso com os
cidadãos. Não deixo de pensar que vivemos num regime quase feudal sob a capa de
pretensa democracia republicana! Os impostos pagos aos senhores, na Idade
Média, são agora pagos ao Estado. Lá como agora: as regalias obtidas pelo
pagamento das taxas continuam aquém do desejável! O problema é antigo:
investimentos errados e desvios indevidos. Desta forma, o povo, para não dizer
a arraia-miúda, continua a ver uma boa parte do seu rendimento esmifrado para
senhores, mas atualmente, camuflado sob a capa da boa intenção do bem comum!
Acresce o seguinte: apesar de teoricamente todos os cidadãos poderem chegar ao
Governo da nação, o que a História nos põe em evidência é o facto de se
perpetuar uma espécie de hereditariedade na ocupação dos cargos governativos! É
caso para dizer: “filho de peixe sabe nadar!” Durante anos, entre a tarefa de
governar e a de fazer oposição, os rostos vão sendo os mesmos e com tradição
familiar. A diferença reside no facto de terem sido eleitos. Ora bem, não é
totalmente verdadeiro, uma vez que elegemos apenas o representante de um
partido e não todos os elementos de um governo. A democracia não é pura na
escolha de um governo, pelo que se pensarmos bem, ainda encontramos laivos de
uma Monarquia embutida. Já agora, o nosso Portugal tão peculiar não implementou
a República em todo o território em 1910! Os flavienses apenas hastearam
bandeira dois anos mais tarde (1912) e andaram às turras com o Paiva Couceiro e
as Invasões Monárquicas. Quem conhece um pouco da História local, fica a saber
que os rostos que circulavam nos Paços do Concelho na Monarquia eram os mesmos
no tempo da República! Seriam convicções bastante flexíveis! De modo que de lá
para cá pouco ou nada mudou! Esvai-se assim o meu ideal de República, aquele em
que acredito verdadeiramente e desejo para o meu país…
Estabelecendo
a ponte com a flexibilidade que querem na Educação, parece-me que poderia ser
uma estratégia proveitosa, mas acredito que se trata mais de um meio para
atingir determinado fim! Não vislumbro um verdadeiro interesse em fazer com que
os alunos aprendam mais e melhor e sejam justamente avaliados em função da
evolução e das aprendizagens reveladas. Fico com a impressão de que se trata de
uma forma de se atingir mais rápida e eficazmente uns almejados números na
literacia para fazer boa figura nos estudos da OCDE. Não obstante, a quem
interessa ter cidadãos livres pensadores e questionadores de uma ordem
instituída? Por certo, não às elites que nos têm governado. Quem leu Aldous
Huxley e George Orwell saberá que nada melhor do que o pensamento instigado e
controlado em massa para evitar a rebelião e eliminar o pensamento crítico.
Quanto mais ignaro o povo, melhor para o governante. Em Orwell até o extermínio
da palavra acontece. A inexistência do lexema liberdade gera a impossibilidade
de nela pensar, já que o pensamento é formulado com o verbo! De modo que também
na sociedade orwelliana e também de Huxley havia uma espécie de Índex e as
narrativas históricas eram constantemente reformuladas, repetidas à exaustão
até se inculcarem na memória coletiva. Uma mentira repassada infinitamente
torna-se verdade! Isto há coisas! O que a literatura vai buscar! Como se tal
fosse possível! O problema é que enquanto se fornece o circo ao cidadão,
(televisão, internet, jogos…) o político aprende realmente com os livros! Há
que causar dependência do que não se precisa e ir retirando e fornecendo o
brinquedo consoante a necessidade. Mantém-se o povo entretido e esbaforido, com
o objetivo de ter acesso a uma falsa necessidade criada pelo mercado e quando
se quer ser bonzinho, permite-se que lá chegue um pouco mais rápido. Assim, com
papas e bolos se enganam os tolos.
Os
professores, esses seres que por aí vão pululando e que têm a obrigação de
serem analíticos e desejarem formar cidadãos críticos, têm de ser afrouxados,
manietados e contaminados pelo desânimo. Pode ser que assim a angústia seja tão
forte que se deixem seduzir pelo pensamento comum e em vez de serem ovelhas
tresmalhadas passem a conduzir o rebanho pelo trilho de todos!
Faço
honra a José Régio e ao seu “Cântico Negro”: “Não sei por onde vou/ Não sei
para onde vou/ - Sei que não vou por aí!”
Nina
M.
sexta-feira, 4 de outubro de 2019
Não sei se são mentira ou verdade
Não sei se são mentira ou verdade
As narrativas que me invento
Mas sei serem um bom placebo
Para adoçar o pensamento
Viajo para além de mim
Crio mundos, uma nova dimensão!
Que fazer quem nasce assim
Pródigo de imaginação?!
Tão real este sentir
Da personagem que pari
Sorrio ligeiramente ao vê-la
A ser idêntica a si
Cavalgo na fantasia
No universo do impossível
Deliciosa essa harmonia
Inversa ao real tangível...
Viver dentro e fora de mim
Com toda a consternação
Não é meio nem um fim
Apenas intrínseca condição!
Formulo novas existências e fascínios
Etéreas emoções reinvento
Diálogos improváveis mas tão reais
Fruto só do pensamento.
Perco-me dentro de mim!
No labirinto que me adentra
Nele me vou procurar
Se é ilusão não me assusta
E lá desejo morar
Que é na casa do meu ser
Onde sempre me vou encontrar.
sábado, 28 de setembro de 2019
Centelha
Trago uma centelha abrigada
Reside no meu coração
Cintila assim quando quer
Não quando lhe dou a mão
Há momentos em que brilha tanto
Tudo em mim se faz luar
Outros faz-se pequenina
Como quem não se quer dar
Onde estás porque te escondes?
Pergunta o vento que passou
Num murmúrio ela responde
Se não vejo quem ma ofertou!
Sobra a angústia de existir
Que no peito se faz cara
Ocupa um imenso espaço
Quase torna a luz bem rara...
Mas tem vida a ténue chama
E alimento que lhe é dado
Cresce tanto e cintila
A iluminar quem por lá passa
É grito de pura alegria
Excede-se em sua graça!
Reside no meu coração
Cintila assim quando quer
Não quando lhe dou a mão
Há momentos em que brilha tanto
Tudo em mim se faz luar
Outros faz-se pequenina
Como quem não se quer dar
Onde estás porque te escondes?
Pergunta o vento que passou
Num murmúrio ela responde
Se não vejo quem ma ofertou!
Sobra a angústia de existir
Que no peito se faz cara
Ocupa um imenso espaço
Quase torna a luz bem rara...
Mas tem vida a ténue chama
E alimento que lhe é dado
Cresce tanto e cintila
A iluminar quem por lá passa
É grito de pura alegria
Excede-se em sua graça!
Crónica de Maus Costumes 149
“Gretinices…”
Já não me deveria surpreender com
determinadas atuações de gente da política e, na verdade, não é surpresa,
apenas constatação do óbvio e do que já há muito sei, mas que digiro com
dificuldade e sempre me causa mal-estar e desejo extremo de me manter afastada
desse tipo de meio. Faço-o, obviamente, mas já dizia Sophia, “vemos, ouvimos e
lemos/Não podemos ignorar”…
Ora esta semana o destilar de muito
fel nas redes sociais (outro comportamento que me causa náuseas e uma certa
angústia) foi endereçado a uma jovem de apenas dezasseis anos que por
idiossincrasias do seu caráter obstinado decidiu lutar e endereçar todas as
suas energias na difícil e tenebrosa missão de salvar o planeta e, para isso, tem
forçosamente de conseguir despertar consciências amorfas, apáticas e
adormecidas. Vi e li de tudo. Um texto onde se comparava a atitude felina e até
de ódio de Greta à bonomia e simpatia de Malala! Uma cresceu sem que nada lhe
faltasse, num sistema capitalista e explorador e mesmo assim é uma
mal-agradecida que não sabe dar o devido valor ao que tem enquanto a segunda e,
com toda a justiça, apenas uma vítima de uma sociedade fechada e medieval, onde
se considera que às mulheres estão vedados uma série de direitos, incluindo o
da educação. A jovem quase morreu, mas ei-la simpática, piedosa para com o
inimigo e querendo mudar mentalidades com a sua perseverança e amor. Assim,
Malala é o símbolo da tolerância e da esperança na humanidade, com a respetiva
foto a condizer: expressão suave e olhar cândido. Já a outra é a arrogantezinha,
a menina da mamã que não tem mais o que fazer e que está a ser manipulada por
certos grupos de pressão ligados à indústria das energias renováveis. Aliás,
foi um meio encontrado pelos pais para passarem a viver bem melhor e com mais
mordomias capitalistas, porque a mãe já escreveu um livro que vendeu
tremendamente. Segundo consta, o lucro das vendas nem seria para a família, mas
para algumas instituições, mas isso também não interessa para nada, porque
destruiria a imagem da petulante defensora do meio-ambiente. Ainda vi outra
fotografia em que aparecia a Greta a tomar um belo pequeno-almoço europeu,
confortavelmente sentada, enquanto viajava, produto do capitalismo e ao lado
outra imagem em que uma série de jovens pobres, oriundos de regimes
totalitários de esquerda esgravatam o lixo para encontrarem o que comer.
Sendo que não sou nem de direita nem
de esquerda, por já não saber o que isso significa na verdade, fico pasma com a
mensagem que nem é subliminar! Em primeiro lugar, compara-se a Greta a Malala
porquê? Acaso a menina só pode ter opinião se tiver sido uma desgraçada,
abusada e espezinhada pela sociedade para se poder fazer ouvir? Quer dizer que
não pode mostrar a sua frustração quando se apercebe de que os líderes mundiais
se preocupam mais com o lucro do que com o estado de conservação da nossa casa
e, portanto, deveria aparecer com ar tranquilo e não de cenho franzido e lábios
crispados? E o que pensar da foto em que se opõe o fausto repasto à fome? Olha,
Greta, toma lá o pequeno-almoço que o capitalismo te oferece e não sejas nem
lamechas e muito menos inconveniente. Com a sorte que tiveste em nascer do lado
certo do mundo, deverias era estar caladinha, porque perdeste toda a
legitimidade para falar. Se te queres opor verdadeiramente vai fazer um estágio
à Venezuela, primeiro! Falas de barriga cheia contra o sistema que te alimentou
durante anos. Se estivesses na posição dos que catam o lixo não terias tanta
força na língua!
Parece-me este (ainda
que exagerado) o brilhante raciocínio dos que se lembraram de postar tal imagem
e de a comentar! Só lamento que não se lembrem também que o mesmo capitalismo
que nos alimenta (felizmente também nasci do lado certo do mundo!) quando feroz
e selvagem deixa outros à míngua sem compadecimentos. Se num lado se passa
fome, noutro deita-se comida fora! Só lamento que não vejam que se há grupos de
pressão das renováveis a colarem-se à Greta, também haverá os do petróleo a não
querem perder um monopólio e a defender que o buraco do ozono e as alterações
climáticas são uma invenção!
Caramba! Não haverá o bom senso de
não achincalhar uma miúda que acreditará seriamente no ideal que defende? Será
que aos dezasseis anos já tem a maturidade esperada para saber se está ou não a
ser manipulada ou acreditará apenas nas boas intenções de quem a quer ajudar
nos seus intentos? Como também já referi, estou-me nas tintas para o facto de
haver ou não manipulação e se houver os grupos de pressão das renováveis, que
seja pelo bem da casa comum! Tomara que os veículos elétricos com uma maior
autonomia cheguem ao mercado em maior número e bem mais baratos! Havendo ou não
manipulação, será que não se consegue despir a camisola da clubite partidária e
ideológica (já sem qualquer ideologia no momento) e compreender que há de facto
urgência em mudarmos determinados comportamentos? A indústria tem de ser menos
poluente, mesmo que isso signifique menos lucro e todos nós devemos alterar uma
série de hábitos e deixarmos de desperdiçar recursos?
Estou francamente cansada de uma
clivagem oca entre esquerdas e direitas que cheiram a bafio! Não. Não defendo
regimes totalitários nem de esquerda nem de direita. Tanto abomino um Estaline
ou Maduro quanto um Franco ou Salazar. São opressores e sanguinários.
Interessar-me-ia bem mais que defendessem um partido HUMANISTA onde houvesse
uma gestão eficaz de recursos, onde não houvesse excedente na Europa e fome na
África, nalguns lugares da Ásia e também da América Central e do Sul! Gostaria
de um partido humanista em que a implementação do preço justo fosse viável,
onde a globalização dissesse não à exploração do trabalhador pelo patrão e pelo
Estado, através de uma carga fiscal incomportável, a fazer lembrar o sistema feudal,
apesar da democracia… Onde não houvesse corrupção que desgraça todas as nações,
onde nem tudo fosse público, porque a iniciativa privada é essencial, mas onde
houvesse séria regulamentação de mercado, onde a educação e saúde chegassem a
todos com qualidade e essas sim, absolutamente públicas! Onde o poder judicial funcionasse
de forma célere e isento, absolutamente distinto e longe do poder executivo! Onde
apesar da preocupação em fazer crescer a economia também se preservasse o ambiente,
onde todo o cidadão fosse efetivamente portador dos mesmos direitos e deveres! Onde
tudo fosse pensado em prol do bem comum e não do bolso de meia dúzia!
Em época de campanha, em vez de ver esquerdas,
direitas e centros preocupados com algumas questões de fundo, vejo-os impressionados
pelo ódio que destila o olhar de Greta e pela sua fausta refeição, enquanto é feita
refém de comunistas só de nome (quais Robles europeus!) que querem enriquecer com
as renováveis.
Enfim… “Gretinices”…
Nina M.
domingo, 22 de setembro de 2019
Dizem
Dizem...
Morre aos poucos o amor
A cada palavra não dita
A cada gesto que se evita
A cada fuga que se impõe
Morre aos poucos o amor
Se não se vislumbra no olhar
A palavra por falar
O carinho pronto para se soltar
A dor que se quer afastar
E no silêncio discreto e verdadeiro
Na ausência de perturbação
Surge o amor por inteiro
Estende a sua mão.
Morre aos poucos o amor
A cada palavra não dita
A cada gesto que se evita
A cada fuga que se impõe
Morre aos poucos o amor
Se não se vislumbra no olhar
A palavra por falar
O carinho pronto para se soltar
A dor que se quer afastar
E no silêncio discreto e verdadeiro
Na ausência de perturbação
Surge o amor por inteiro
Estende a sua mão.
sábado, 21 de setembro de 2019
Sob os pés, a cidade adormecida
Sob os pés, a cidade adormecida
Silêncio quase absoluto
Ao longe, latidos pungentes
Dormem os ciganos
Vagueia o ser
A luz pálida dos candeeiros
Ilumina os passos
Nada cerceia a liberdade de ser
Só. Como no nascimento e na morte
Extremos que se tocam na solidão
Espelhos de água imóvel
Marulhar suave e delicado
Eis que surge a alma alva e límpida
Na madrugada muda
Vê-se uma ou outra janela iluminada
Prenúncio da manhã que se avizinha
Trará consigo o enfermo ruído dos dias
Silêncio quase absoluto
Ao longe, latidos pungentes
Dormem os ciganos
Vagueia o ser
A luz pálida dos candeeiros
Ilumina os passos
Nada cerceia a liberdade de ser
Só. Como no nascimento e na morte
Extremos que se tocam na solidão
Espelhos de água imóvel
Marulhar suave e delicado
Eis que surge a alma alva e límpida
Na madrugada muda
Vê-se uma ou outra janela iluminada
Prenúncio da manhã que se avizinha
Trará consigo o enfermo ruído dos dias
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