Tarde ou cedo virá a morte
E os olhos fechar-se-ão na escuridão
Mas alva permanecerá a minha alma
Sob o luar e as estrelas
Sob a carcaça fria, nua e imóvel
Guardarei todos os sonhos e os segredos
Não por perfídia ou ciúme inconfessável
Só por mera intimidade
E a mortalha que envolver o meu corpo
Guardará a imaginação viva
Cheia de mundos e vidas vividas
Que não me pertenceram
Pode a terra comer-me a carne e os ossos
Desfigurar-me o rosto e os membros
Até sobrar o esqueleto nu e pobre
E não descobrirá os meus mundos pensados
Não haverá emoções devassadas
Engolirá a substância terrena
Mas não o legado intangível
E no amanhã que há de vir
Sempre haverá quem descubra novos sonhos
O longínquo e o devir
A aura dourada na brisa
E novamente a alma alva se renovará em triunfo
Então, rosas brancas irão caiar o túmulo silencioso do meu ser.
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quarta-feira, 23 de janeiro de 2019
domingo, 20 de janeiro de 2019
O poema que te escreveria
O poema que te escreveria
Se soubesse as palavras
Exatas e perfeitas
Em mim não caberia
Nem no luar onde te deitas
Desenharia os teus abismos
Em papel e a carvão
Assim, quando te perdesses
Apagava-os com a mão
Com palavras te encantaria
Doce Circe e meu veneno
A mim te prenderia
Acabava o teu inverno
Beijaria o teu sorriso
Pétala de sol doirado
Trá-lo-ia sempre comigo
Ao meu peito agarrado
Guardo duas esmeraldas
Que emolduram o teu olhar
Oferecia-te grinaldas
As estrelas, o rio e o mar...
Mas sou rei de um reino perdido
Só a mim me posso dar
Sem restrições e amarras
De tudo me podes despojar
A ti lanço minhas garras
Não me leves o sorriso
Não me leves o olhar...
Se soubesse as palavras
Exatas e perfeitas
Em mim não caberia
Nem no luar onde te deitas
Desenharia os teus abismos
Em papel e a carvão
Assim, quando te perdesses
Apagava-os com a mão
Com palavras te encantaria
Doce Circe e meu veneno
A mim te prenderia
Acabava o teu inverno
Beijaria o teu sorriso
Pétala de sol doirado
Trá-lo-ia sempre comigo
Ao meu peito agarrado
Guardo duas esmeraldas
Que emolduram o teu olhar
Oferecia-te grinaldas
As estrelas, o rio e o mar...
Mas sou rei de um reino perdido
Só a mim me posso dar
Sem restrições e amarras
De tudo me podes despojar
A ti lanço minhas garras
Não me leves o sorriso
Não me leves o olhar...
sábado, 19 de janeiro de 2019
Crónica de Maus Costumes 115
Soror Mariana
A
notícia que li a propósito das cartas de Soror Mariana Alcoforado (obrigada, Teresinha,
pela partilha) não me deixou indiferente e despertam algumas reflexões.
Evidentemente,
tive que reler as cinco cartas escritas pela freira ao seu grande amor, o
Marquês de Chamilly, oficial francês, que lutou em solo português, durante a
guerra da Restauração.
Tê-lo-á
avistado do terraço do Convento de Nossa senhora da Conceição, em Beja, onde
ingressou com a tenra idade de doze anos e onde acabaria por morrer.
Desta
forma, ainda criança, a vida de Soror Mariana fora determinada pelos pais, como
era hábito então. Decidiram os progenitores que a donzela dedicaria a vida a
Deus. Se havia ou não vocação religiosa, pouco importava, pois na época,
decidiam os progenitores e aos filhos competia-lhes a obediência cega e livre
de espírito crítico.
Talvez
assim tivesse sido com Mariana, não fosse o acaso da vida pregar-lhe uma
partida e permitir que os seus olhos se cruzassem com o francês, despertando
uma paixão desenfreada e emoções que a freirinha ignorava e começava a
descobrir.
Incendiada
pelo amor, acalentava a esperança de o poder viver em toda a sua plenitude, em
terras gaulesas. O amor sentido foi o combustível necessário à coragem de
romper com todos os convencionalismos. Escritas pelo seu punho, no conjunto das
cinco cartas, Mariana confessa a febril paixão que a abraça e a dor do abandono
que a dilacera. Sem pudor, confessa ter recebido o seu amor no seu quarto, onde
se entregava feliz a quem lhe jurava paixão idêntica. Numa das cartas diz mesmo
que doravante seria ele (Chamilly) a sua religião.
Por
amor, Mariana afrontava a família e a sociedade, em pleno século XVII,
ignorando os efeitos da coragem ao assumir a sua individualidade, as suas escolhas,
a sua autenticidade. Não lhe trouxe grandes alegrias. O coração do francês não
lhe era tão devoto quanto o dela e, aproveitando uma carta do irmão como subterfúgio,
regressou ao seu país, como forma de evitar confrontos com a família de Mariana,
socialmente influente. Ter-lhe-á prometido que a viria buscar, mas, neste caso,
a palavra dada não foi honrada.
É
durante este afastamento que Mariana lhe faz chegar as suas missivas, que
despertam compaixão e simpatia por um coração esfarrapado e pisado, mas que se
abre, sem vergonha ao amor que o devora, perdida entre a autocomiseração,
raiva, queixume e sofrimento, por pressentir que não há uma correspondência nem
perfeita nem exata na dimensão do seu sentimento. A quinta e última carta é a
derradeira despedida, o sinal de quem já percebeu a indiferença a que fora
votada, mas que ainda assim lhe causa transtorno e sofrimento.
Numa
época em que a liberdade da mulher era uma utopia, longe de ser alcançada, o
amor romântico surge como a alavanca da revolta e da afirmação feminina.
Perdido o amor, Soror Mariana resignou-se ao destino que lhe traçaram e haveria
de confinar-se às paredes do Convento, no qual viria a falecer. Não morreu sem
conhecer o amor, mas morreu derrotada por ele.
Preferia
que tivesse servido de motivação para recusar a vida monástica, para a qual não
estaria talhada, em vez de sucumbir ao desgosto. Não resolveu tudo, mas enquanto
o amor se fez presente, Mariana foi mais autêntica, logo mais feliz, apesar da
rebeldia e da ousadia em quebrar as regras, o que lhe granjeou dissabores.
Sentiu o sabor acre da desilusão, mas viveu e viver é sempre um risco.
Nina
M.
terça-feira, 15 de janeiro de 2019
Hei de te amar
Hei de te amar
Nem a ti nem o outro
Mas o amor perene
Que cristaliza num verso
E no choro trinado da guitarra
Hei de te amar
De um amor-alma
Sem corpo e etéreo
Em vida e espírito
Somente
Hei de te amar
Amor absoluto, impoluto
E com ele findar
O resto dos meus dias
E preencher o meu estro
Hei de te amar
Quando já não houver
Corpo
E os olhos se fecharem
E toda eu for só alma
Nem a ti nem o outro
Mas o amor perene
Que cristaliza num verso
E no choro trinado da guitarra
Hei de te amar
De um amor-alma
Sem corpo e etéreo
Em vida e espírito
Somente
Hei de te amar
Amor absoluto, impoluto
E com ele findar
O resto dos meus dias
E preencher o meu estro
Hei de te amar
Quando já não houver
Corpo
E os olhos se fecharem
E toda eu for só alma
sábado, 12 de janeiro de 2019
Crónica de Maus Costumes 114
Ser ou não ser feliz
eis a questão!
-
O meu pai diz que tenho de ser médico ou engenheiro e o teu?
- O meu diz
que tenho de ser feliz.
Fui surpreendida por este breve
diálogo, acompanhado de uma imagem bastante sugestiva e contemplada,
naturalmente, com imensos “likes” na rede social mais usada pelos mais
velhotes, a confiar nos meus filhos…
Estagnei perante a mensagem. Naturalmente,
todos os progenitores que se prezem querem que os seus filhos sejam felizes. Eu
também, obviamente. Depois de refletir um pouco, chego à conclusão de que nem
uma nem outra premissa serão corretas, mesmo tendo em conta que tais desabafos
serão tidos a pensar no que será melhor para os filhos.
O
primeiro, mais facilmente se percebe o desacordo. Ao desejar que um filho seja
isto ou aquilo mais não se está a fazer do que a projetar as nossas ambições goradas
nos descendentes. Os filhos são pedaços da nossa alma, mas não são a nossa
extensão, portanto, eu quero que os meus sejam aquilo que quiserem ser e que se
sintam realizados profissionalmente, apenas. Preferencialmente, que lhes
permita também algum desafogo económico, no sentido de poderem ter uma vida
digna com o mínimo de conforto. Quanto ao ser feliz, a história é outra.
Obviamente que os quero felizes, porém, será de uma inconsciência atroz pensar
que os filhos que nós tanto amamos e protegemos com todas as nossas forças
serão sempre felizes. Isso não existe, basta olhar para as nossas vidas.
Poder-se-á ter uma vida maioritariamente tranquila, sem grandes sobressaltos,
mas a dor e a perda fazem parte dela. Inevitavelmente. Certamente, os meus
filhos, como todos os humanos, terão momentos, segundos, de verdadeira e pura
felicidade que poderão cristalizar para que os acompanhem ao longo da vida. Por
isso uma mãe se lembra tão bem da primeira vez que olhou os rebentos e os
segurou nos braços, ainda na refrega do parto. Esquece a dor, se a houve, e dá
primazia à emoção do momento mais feliz de toda a sua existência, porque nada
lhe é comparável. Absolutamente nada. No entanto, esses instantes de êxtase só podem
ser eternos meramente na memória. A vida também é feita de perdas e de derrotas
que temos de saber suportar e superar. Ninguém é feliz o tempo todo e
dizer-lhes: quero que sejas feliz é incutir-lhes a ideia errada de que esse
estado emocional de extremo bem-estar é possível a todo o momento. Prefiro
dizer que quero que os meus filhos sejam resilientes. A probabilidade de serem
felizes mais tempo será maior. Esta qualidade implica saber lidar com o
fracasso, levantar-se do chão as vezes necessárias, ter dois dias de depressão
e de autocomiseração, mas reerguer-se ao terceiro, não se dando por vencidos. Implica
pensamento, racionalização e inteligência emocional. É não virar a cara à luta,
mas saber também quando é hora de desistir, de largar, porque há circunstâncias
em que uma perda pode ser ganho!
Depois,
obrigatoriamente, deveríamos questionar o conceito de felicidade. Aconselho
vivamente Zygmunt Bauman, que a propósito da felicidade, diz que “para cada ser
humano há um mundo perfeito feito para ele ou para ela”. Significa que a
felicidade deve ser construída por cada sujeito e que a receita é individual e
só pode ser encontrada por cada um de nós. A mesma receita não serve para
todos. Poderei também lembrar Mário Sérgio Cortella que indica a máxima
filosófica para definir felicidade: realidade menos expetativa ou como “instantes
em que se sente que a vida nos está a levar ao máximo”. “A felicidade não é euforia,
não é consumo, é simples e se não for simples não é felicidade, é inchaço.”
Também
quero que os meus filhos sejam felizes, mas antes devem compreender que esse
caminho é construído por eles, na sua individualidade. Devem saber que uma vida
feliz não elimina a dor e que, portanto, é preciso que tenham a resiliência
para a superarem e persistirem na busca.
Finalmente,
é importante que compreendam o que é essencial. O essencial é distinto do
fundamental. O essencial será o amor, a amizade, a lealdade, a sexualidade,
entre outras coisas e nunca o dinheiro, porquanto este possa comprar a ternura,
mas não o amor; poderá comprar a reciprocidade, mas não a amizade, poderá
comprar o sexo, mas não a sexualidade. Então, o dinheiro poderá ser fundamental,
mas não essencial e a felicidade advém do essencial, pelo que não pode ser
comprada, ofertada como algo que está sempre à mão de semear, tem de ser
construída por cada um, com as ferramentas que este conseguir reunir ao longo
do seu trajeto existencial.
Nina
M.
sábado, 5 de janeiro de 2019
Trago uma alma cansada
Trago uma alma cansada
A viver fora do peito
Anda exausta amargurada
Escolheu-me para seu leito
Em constante sobressalto
Alaga à sua passagem
Tudo o que vê do alto
Guerreira faz-se coragem
Que encontra entre iguais
À angústia presta vassalagem
Faz das alegrias ais
Irreverente nostálgica louca
saudosa do sonho que não viveu
Divaga gruta cavernosa
Cisma persistente e vagarosa
Rasga o ventre de onde nasceu
Invejosa da paz alheia
Quer sorver o mesmo remédio
Engana-se, pobre Circe
Está presa ao seu mistério
Crónica de Maus Costumes 113
Procrastinação Emocional
Primeira
crónica de 2019! Falhou a última de 2018, pelo que peço desculpa aos leitores
habituais, mas a alma às vezes entra em procrastinação emocional e também tem
direito aos seus retiros! Na verdade, foi mais por falta de oportunidade,
vivenciou-se muito e escreveu-se menos.
Tem
sido uma época especial, como é sempre a época natalícia. Este ano, serviu para
brindar a amizade longa e forte, que se propaga pelos anos fora e que, apesar da
distância não se extingue. É engraçado verificar e olhar para trás e recordar o
passado com algum saudosismo, porque é trazido com felicidade. Não somos as
mesmas, já. Nem eu nem ela, mas o essencial permanece. Um laço criado há mais
de vinte anos sem o menor soluço ou tropeço que a pusesse em causa. Já uma
altura referi que a amizade é uma forma sublime de amor, porque se for
verdadeira é livre de interesse e zela-se sempre pelo bem-estar de quem se quer
bem. Ficou encontro marcado para o verão. Desta vez longo, para matar saudades
que são sempre imortais, bem diferente da frágil condição humana. A consciência
de que não nos teremos eternamente deveria fazer com que arrepiássemos caminho
na pressa quotidiana, porém, é sempre mais fácil falar do que haver um
comprometimento sério para encontrar as soluções necessárias que travem o ritmo
louco e alucinado em que vivemos e que não nos deixa tempo para o que é
essencial, a começar pelo encontro com a nossa interioridade, quanto mais com
amizades que não desaparecem.
Segundo Pascal, o Homem precisa do
divertimento para escamotear as suas misérias. Se o Homem for confrontado
consigo mesmo de forma séria e imparcial é capaz de descobrir algumas coisas
sobre si de que não gostará, como a infelicidade. O divertimento, o tumulto e o
ruído são, por isso, uma forma de alienação. Compreenda-se a palavra na aceção
filosófica do termo: afastamento de si mesmo. Não gostando do que vê, o homem
aliena-se de si, refugiando-se na diversão. Confesso que uso pontualmente esta
estratégia, quando a procrastinação e o cansaço emocionais se tornam mais
difíceis de suportar. Devo, porém, deixar a ressalva de que pouco adianta,
apenas concebe uma folga e alarga a malha que nos estrangula momentaneamente,
porque mais tarde ou mais cedo o confronto com o “eu” terá de ser feito, a
menos que se consiga fazer a proeza de transformar a vida numa festa constante.
Não é o caso. Preciso do recolhimento, da solidão escolhida e do silêncio onde
me reconheço e onde me encontro. É aí que sempre vejo a minha interioridade com
mais rigor e nitidez, nem sempre com facilidade e muito menos com entusiasmo. Gosto
de fazer este exercício e de ter esta exigência constante.
Li
algures que não devemos ter a vaidade de nos considerarmos bons, mas antes
tendencialmente bons. Concordo. Sempre que damos algo por adquirido está-se a
um passo da derrota. Temos de ser polícias de nós mesmos para que o bem surja
cristalino e fresco. Ninguém admite o ciúme, a pontinha de inveja, a
mesquinhez, mas ninguém está imune a emoções menos nobres que devem ser
monitorizadas para as podermos banir. Desta forma, quem se considerar uma
pessoa de bem está a um passo de relaxar e fazer menos do que o que deve, uma
vez que se considera que o objetivo já foi alcançado.
Esta
semana ouvi um elogio muito bonito que guardei cuidadosamente, porque alguém me
elegeria como irmã se pudesse escolher uma. Não se fica indiferente a estas
palavras e uma pontinha de vaidade surge, mas que deve ser eliminada de
imediato, para cumprir com a ideia de que todos seremos apenas tendencialmente
pessoas de bem, mas que é preciso fazer mais e melhor, para que a bondade possa
ser uma realidade efetiva e não apenas uma potencialidade.
É
deste comprometimento de que a amizade e o amor necessitam para que possam
subsistir. Brindemos a ambos para que se imponham no ano que agora desponta.
Nina
M.
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