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sábado, 26 de setembro de 2026

Crónica de Maus Costumes 482

 

O país real

               Durante esta semana, a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, salientou a importância de partilhar boleias e de reduzir a velocidade para que os portugueses consigam poupar em época de crise energética. Os conselhos são pertinentes. Efetivamente, para poupar no combustível e poupar o planeta à poluição, essas sugestões são úteis agora e sempre.

               O problema não está, portanto, no que a senhora ministra disse, mas quando o fez. Proferir estas afirmações numa época de preços controlados não seria somente sensato, seria uma forma de sensibilizar os portugueses para a adoção de comportamentos responsáveis. Poder-se-iam acrescentar outras sugestões: preferir andar a pé ou preferir as bicicletas quando o tempo e as distâncias o permitem, usar mais transportes públicos, principalmente, nas médias e grandes cidades. As pequenas cidades, vilas e aldeias não têm, normalmente, essa oferta, pelo que a adoção de tal medida não seria possível para toda a gente. Entendo ser pertinente sensibilizar os portugueses para estas preferências. Nas grandes cidades europeias não faltam executivos de fato, empoleirados na sua bicicleta, para se dirigirem ao seu local de trabalho. A mentalidade portuguesa ainda não alcançou esse patamar de evolução, porque o veículo continua a ser símbolo de status quo para a maioria, para mim, aqueles que pensam desse modo, apenas símbolo de imbecilidade. Não discordo da senhora ministra no conteúdo, mas não posso aplaudir o momento escolhido. Nesta altura, ter uma declaração destas é afrontoso para a população portuguesa. Desde logo, há inúmeros trabalhos em que não é possível haver poupança de combustível: Um taxista, um condutor de Uber ou de TVDE, um distribuidor de produtos, entre outros tantos ofícios não podem dispensar o veículo nem partilhar boleias para poupar no gasóleo, pelo que tais afirmações soam a falta de sensibilidade, a incapacidade de compreender as dificuldades do cidadão comum e a um afastamento da realidade que se torna confrangedor. Todos notamos os efeitos desta crise energética quando passamos no supermercado e compramos meia-dúzia de bens alimentares. O preço que aparece no ecrã das máquinas registadoras faz-nos apanhar pequenos sustos, mesmo que já tenhamos aprendido técnicas de poupança, como comprar um determinado produto numa determinada loja ou usar os cupões de desconto ou dar preferência às marcas brancas que não são sinónimo de qualidade inferior. O custo de vida aumentou substancialmente e os portugueses ganham mal, porque temos uma economia débil e deficitária. Ponto. Seria bom que os políticos o admitissem sem rodeios. Desde a decadência do império, o país sofre. Esta é a realidade. Apesar disto, a vida melhorou infinitamente em relação ao tempo da outra senhora. Não há comparação possível. Antes que alguém venha falar nas reservas de ouro, nas metalurgias, indústria naval e na balança comercial equilibrada, convém dizer que barras de ouro num país onde um povo morre à fome e onde não há estado social, pouco interessam. É como a fortuna do defunto: a ele, não lhe resolve nada.

               Numa crise semelhante, é inadmissível esta falta de tato. Lamento pela ministra porque se tinha mostrado uma das mais competentes deste Governo. Provou-o aquando da tempestade que assolou o país no último inverno. Ouvi-la significava aprender com alguém que sabia o que dizia. Nesta semana, ou foi muito infeliz ou foi tonta ou foi insensível. Nenhuma das hipóteses é boa.

               Dou comigo a pensar que esta gente precisa de uma imersão no Portugal profundo. Não iria gostar da experiência. Sentiria uma irritação e, quem sabe, vergonha de viver num país onde ainda há um nível de ignorância e, em simultâneo, uma genuinidade desarmante. Esta gente de gabinete precisa urgentemente do contacto com os mais desfavorecidos, com a miséria económica e, sobretudo com a miséria moral e de espírito. Só na maturidade compreendi cristalinamente as palavras da avó Matilde, que sempre dizia que os pobres de espírito eram os que mais compaixão necessitavam. “Um pobre com cabeça sabe governar-se — dizia — mas um pobre que acumula a pobreza de espírito, nem que tenha algum, depressa se faz pouco”. Em criança (a minha avó faleceu quando eu tinha 10 anos) entendia ser um disparate. Então, se tinham meios mínimos de sustento e não sabiam gerir, não eram dignos de lamento. Esquecia-me das crianças que não tinham qualquer responsabilidade nisso, apenas o azar de ter nascido ali. Até para nascer é preciso sorte. Esquecia-me e nem podia saber que a miséria era tanta e a vida tão sofrida, que o meio bagaço ou o kentucky ou digestivo não eram luxo, mas uma necessidade premente da alma. Não se pode pedir a quem vive com dois salários mínimos ou pouco mais, que paga renda de casa ou prestação ao banco, que tem filhos a seu cargo, que nada ou quase nada lhe sobra ao fim de mês, para poupar. Quando o consegue fazer, o pobre reza para que o filho não precise de ir a um oftalmologista ou para que nada avarie em casa. Esta gente de gabinete, se sabe disto, parece cega e surda.

               Por estes dias, precisei de ir ao hospital público. De cada vez que lá vou, venho com histórias hilariantes para contar. De um homem que deu guarida à filha e ao neto porque o companheiro quase a desfazia à pancada e, apesar dos alertas do pai que não o deixava entrar na sua propriedade, ele teimou. Ia munido de faca. O homem tinha uma maceta à mão e atingiu-o na cabeça. Por sorte não o matou (ainda bem) abriu-lhe um lanho que precisou de vários pontos (abençoado pai). “E se me tem tocado na irmã mais pequenina, na outra filha que tenho em casa, conforme ameaçou, matava-o à pancada.” As mulheres que ouviam a história convenciam-no de que nada tinha a temer, porque agiu em legítima defesa. O homem tinha a faca que conseguiu retirar ao meliante. O desaforado ainda foi para tribunal. Outra que ouvia jurava a pés juntos que dizia muitas vezes ao marido que se alguma vez lhe pusesse as mãos, só o faria uma vez. Ela não diria nada, na altura, mas ele não viveria para contar a história e ai daquele que ousasse fazer mal a um filho seu, porque por um filho, matava! “Matava! Não tenho pejo em dizê-lo.” Foi um desfiar do rosário do que tinha feito a sicrano e beltrano que se tinham atrevido a fazer bullying com a sua dócil criatura. As veias do pescoço encarniçavam-se, enquanto a voz subia de tom, pouco adequado ao lugar. As narrativas eram pavorosas e eu, ali, no meio daquele bulício, tomada de riso pelo relato entusiasmado, mas que não ousei soltar, dada a seriedade do assunto. Gente simples. Gente humilde. Gente de carne imperfeita com virtudes e defeitos. Gente de trabalho e de vida massacrada que ainda tem de ouvir que deve partilhar boleia para poupar. A outra partilhou a vida com um canalha e quase ficava sem ela.

               Haja respeito.

 

Nina M.

 

 

 

 

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