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sábado, 19 de setembro de 2026

Crónica de Maus Costumes 481

 

Lista de desejos

            Sei que não é Ano Novo e que em setembro ninguém come doze passas ao bater das doze badaladas, enquanto formula desejos com o pensamento e os atira ao universo. Pode ser que este os acolha e os expanda. Todavia, é setembro e para quem trabalha por anos letivos começa um novo ano. Basta, por isso, chegar às escolas para que os colegas se desejem mutuamente um bom ano, nesta fase. Assim se justifica a lista de desejos.

            Poderia fazer como o meu sobrinho que, no seu aniversário, ao apagar as velas, automaticamente lhe saiu uma série de desejos, todos eles muito semelhantes: quero que o FCP seja campeão, que ganhe a Champions e a taça! Logo na altura, afirmei a sageza de tais desejos e que os considerava muito bem escolhidos.

Ora… Como esse voto está feito, passemos a outros. Desejo que este ano possa ser uma época de serenidade para todos. Hesitei entre serenidade ou tranquilidade. São usadas como sinónimos e, em certa medida, podem sê-lo, mas há uma ligeira nuance entre elas. É por causa destes pormenores que a língua portuguesa é bela. A tranquilidade vem do étimo latino tranquillus, remetendo para algo físico que é calmo ou pacífico. É a ausência de ruído ou de agitação. Serenidade vem do latim, também, de serenus, inicialmente usado como termo meteorológico. O céu sereno significava céu limpo, sem nuvens e luminoso. Metaforicamente, passou a simbolizar a clareza mental e a paz de espírito, mesmo no meio da adversidade. Assim, a tranquilidade é referente a algo externo ou físico, um ambiente tranquilo, sem ruído ou sem agitação e a serenidade aponta para a paz interior, para a capacidade de se aceitar a si e a vida como ela é, de forma positiva. A serenidade remete para um certo estoicismo e autocontrolo, essenciais para que o homem seja livre. Confluímos para Kant. O homem só é livre se for capaz de dominar o seu ímpeto e as suas pulsões. Deste modo, escolhi serenidade. A tranquilidade pode depender de fatores externos e que não controlamos, já na serenidade temos um papel a cumprir. Se houver uma tempestade, não há tranquilidade e nada podemos fazer, mas no meio do caos, posso e devo manter a serenidade para poder agir com sabedoria, em conformidade. Assim, não formulo o desejo de afastamento das vicissitudes. Seria inútil e infantil fazê-lo, mas peço a serenidade para saber fazer-lhes frente. Creio que o mundo está bastante necessitado de serenidade.

Depois, pedir que cada um seja capaz de dar o seu melhor e se nada de bom houver a ofertar, então, nada dê. A omissão nem sempre é má. Se não formos capazes de acrescer, não diminuamos. O silêncio e a quietude também salvam.

Peço que não nos falte a voz nem a coragem para denunciar atropelos e injustiças; peço um coração de carne e que sangre, como dizia o Nobel português, com o hábito de se compadecer pela dor e pela fragilidade alheias; peço a singeleza de nos encantarmos com as coisas mais simples da vida. O dom poético do encantamento nunca sai de moda.

Peço o imaterial ao alcance de todos: a capacidade de sorrir ao ouvir a avó que fala ao telemóvel, em público, com a neta e lhe diz que tem de estar com ela porque já juntou quatrocentos euros para lhe dar e, imediatamente a seguir, se lamenta que já deixou passar a senha por quatro vezes, pelo que terá de retirar outra; peço a paciência da senhora que a atendeu com cordialidade, respeito e simpatia.

Peço humanidade; peço o mínimo de decência; peço o que está nas mãos de cada um conseguir dar.

Não são grandes milagres. Pequenas ações que nos salvam da própria miséria.

Nina M.

 

 

 

 

 

 

 

 

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