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sábado, 30 de março de 2024

Crónica de Maus Costumes 367

 

Viajar de autocarro

            Amanhã, repetirei a insanidade que cometi em 2009 com um grupo de amigas, noutra escola: ir a Paris de autocarro com muitos alunos a reboque.

            Nessa altura, apenas existia o Rodrigo. Era um bebé de vinte meses e eu era mãe de primeira viagem, que o deixava pela primeira vez, durante uma semana, e de coração contrito. Ele sempre teve o seu génio e teimosia, mesmo pequenino. Aos vinte meses, o Rodrigo já falava bem, mas os cinco dias que por lá andei, ele recusou-se a falar comigo por telefone. Tinha um bebé de vinte meses, que dia após dia, zangado com a mãe ausente, recusava falar-lhe! Eu dizia incrédula às colegas: “o meu filho não me quer falar”! Felizmente, numa atividade destas a ocupação é sempre muita, mas a cada anoitecer interrogava-me se ele falaria comigo, nesse dia… Eu… Mortinha de saudades… Nada. Zero. Irredutível.

Quando cheguei, só queria pegar nele ao colo, encostá-lo a mim e enchê-lo de beijos. Fi-lo com dificuldade… Não me queria! O meu filho castigava-me pela minha ausência! Pacientemente, tive de comprá-lo com o carro de bombeiros que lhe tinha trazido de uma loja da Disney, depois de muito o namorar…

Desta vez, o castigo não se repetirá. Já são dois filhos e ambos mais crescidinhos e, como tal, já não se apoquentam tanto com as ausências maternas. Também não vai uma Lurdes Martins, a mulher que dorme “super bem” (palavras suas) em autocarros e que levou panados para uma semana inteira, pelo que insistia em oferecê-los a cada refeição, para ver se os arrumava de uma vez, mas já ninguém os podia ver à frente!... Como vês, Lurdes, a viagem ainda nem começou e já me lembro de ti… Desgraçadamente, apesar da idade, ainda não aprendi a dormir bem em bancos de transportes coletivos pouco ou nada reclináveis… Se pensar muito nisso, fico a achar que sou pouco ajuizada…

Porém, Paris é sempre Paris! A cada regresso é um maravilhamento! Uma cidade que nos deixa arrebatados pela sua beleza, pela sua sumptuosidade, pela sua cultura. A cidade para onde rumavam os intelectuais do princípios e meados do século XX. Não havia quem não passasse por Paris! Nem tudo era fácil, no entanto. Muitos deles viviam numa certa indigência, passavam fome, vivam em pequenos quartos, em bairros miseráveis e levavam uma vida boémia e bastante promíscua. Oscar Wilde, Gertrude Stein, Ernest Hemingway, Guilherme S. Burroughs, Henry Miller, Anaïs Nin, James Joyce, Samuel Beckett, Julio Cortázar, Vladimir Nabokov, Edith Wharton e Eugène Ionesco, Picasso, Ducham, Klein, Chagall, Modigliani, são alguns dos grandes que por lá passaram. Referir também o nosso Eça de Queirós, que lá morou, enquanto cônsul português.

Voltar à bela Paris é ficar imbuído deste espírito, desta efervescência e deste pasmo, ainda que um pouco tomada pelos vendedores ambulantes (o preço da modernidade) não desiludirá, certamente. Diz-se que não há duas sem três, cá vai a minha terceira vez, mas Paris é sempre lugar onde se deseja voltar.

 

Nina M.

 

quarta-feira, 27 de março de 2024

São tão difíceis as despedidas

São tão difíceis as despedidas
Algumas tão indesejadas
Que por pequenas que pareçam
São pequenas mortes anunciadas

Será então necessário
Acreditar na ressurreição
É somente pela vida
Que se dá na alma a redenção

Nunca tanto é necessária
A fé num bem maior
Acreditar que voltar à vida
É possível com amor

segunda-feira, 25 de março de 2024

Não se é o que se pensa

Não se é o que se pensa
Sempre aquém, nunca além
Quem pensa nem tudo vive
Quem pensa nem tudo tem

Se por pensar matar
Não faz o matador
Sentir só o que se sente
É saber-se um ator

Sente no palco da vida
Sujeito às humanas sensações
Se a condição da alma é ser volátil
Passeia-se nas emoções

Há de haver contudo
Algo que seja a raiz
Algo imutável se sente
O ser não o contradiz

Assim se fixa a essência
Na alma em busca de si 

sábado, 23 de março de 2024

Crónica de Maus Costumes 366

O populismo da nova direita radical

               Deparei-me, hoje, com um artigo jornalístico sobre o CHEGA e os deputados que elegeu. O partido é considerado um partido populista da nova direita radical, à luz do que se vai vendo por essa europa fora, desde logo a começar pelo VOX, da vizinha Espanha.

            Afirma-se como um partido liberal-conservador, ainda que os termos nos pareçam antitéticos. É um partido liberal no que à economia diz respeito, o que significa que pretende um Estado mínimo, na sociedade portuguesa. Para estas eleições, o partido deixou cair o aniquilamento da Escola Pública e a extinção do Ministério da Educação, assim como do SNS, no entanto, entre os seus deputados e apoiantes há quem continue a defender estas bandeiras. Questiono-me se quem votou neste partido tem esta consciência, se sabe que um dos objetivos passa por acabar com a educação gratuita e pública. Quem quiser que os filhos aprendam, pois que pague pelo serviço e se não o puder fazer, paciência, voltar às taxas imensas de analfabetismo deve ser algo positivo, na perspetiva destes senhores. Isto e ter de pagar por todo e qualquer serviço médico. Para ele são funções soberanas do estado, apenas isto: “defesa, segurança, justiça, finanças públicas, política externa e arbitragem/regulação”. O CHEGA implantou-se através da retórica do seu líder e da flexibilidade ideológica do mesmo. Quem esteve atento aos debates das últimas eleições, viu um Ventura bem mais comedido nas suas posições. Quando lhe interessa capitalizar votos junto dos abstencionistas, dos ressabiados com a democracia e dos salazaristas rançosos que ainda existem, radicaliza o seu discurso, enquanto continua a hastear a bandeira do combate à corrupção, através de um discurso disruptivo e segregador entre um povo moralista e virtuoso e uma elite corrupta e vergonhosa. Obviamente, todos os casos políticos mais escusos que vão surgindo, o partido tenta capitalizar e aumentar a desconfiança do cidadão comum nas instituições democráticas.

Para além desta bandeira, o partido hasteia outras: pode ler-se no seu programa o “primado da moral”. A expressão causa-me arrepios, porque me lembra de imediato a polícia da moral e dos bons costumes. Dentro deste ponto, surge a criminalização do aborto e da eutanásia, que não aparece assim escrito no programa, mas é claro como a água, quando se lê que defende “a inviolabilidade da vida humana em todas as suas fases e dimensões, com todas as consequências jurídicas daí decorrentes”. Só por aqui se sente o cheiro a ranço e à hipocrisia de que acusa os outros. O aborto sempre existiu e a sua proibição e criminalização não os impediu. Só o faz quem quer, sendo também dada aos médicos a possibilidade de serem objetores de consciência, mediante o posicionamento filosófico que tenham sobre a questão, que vai para além da consideração de haver vida, mas antes se há pessoa e só existe pessoa havendo consciência de si, o que é impossível existir até à data-limite estipulada para poder interromper voluntariamente a gravidez. Peter Singer explica-o melhor do que eu. Pessoalmente, julgo que seria incapaz dessa decisão, mas o facto de pensar assim, apenas me vincula a mim e não tenho o direito de impor a minha visão aos outros. Diz-se também defensor da família tradicional portuguesa. Ora, não sei se as pessoas estão lembradas do que isso significa exatamente. Implica que apenas sejam reconhecidas famílias tradicionais aquelas em que há um casamento religioso, filhos, um chefe de família que garante o provimento do lar e uma mãe doméstica e esposa que se anula, porque o máximo da realização pessoal a que pode aspirar é o cumprimento desses três papéis. Entretanto, se a mulher quer ser dona de si, ter a sua profissão e até poder nem ser mãe ou nem se casar, não interessa para nada. Deve ter sido para isso que a mulher nasceu. Resta esperar que não seja contemplada com uma madre seca, porque isso seria, em última análise, a anulação de toda a sua feminilidade, porque se não pode procriar, não serve para o mundo, quando muito servirá de objeto sexual para a satisfação do homem. Também não tenho nada contra a mulher que escolhe por gosto esta forma de vida, caso sinta esse apelo. Somente a ela diz respeito, dentro da sua liberdade individual. Só não quero que me imponham nem a mim nem às mulheres futuras uma vida que não desejam.

            Depois, evidentemente, vem a oposição ao que designam de “marxismo cultural”, vulgo cultura “woke”, que incorre, devo dizer, em muito excesso e parvoíce também, quando tentam impor a sua visão de mundo a uma maioria. O que é para uns é para outros. Se querem sentir-se cães, gatos, periquitos, não binários ou o diabo é lá com eles, mas não me queiram obrigar a olhar para uma pessoa e concordar que é um cão nem usar a parvoíce da linguagem inclusiva que é só a destruição do nosso maior património cultural: a nossa língua! Nem o “senhoras e senhores” (que não passa de uma redundância estúpida, sem qualquer fim literário) me apanham quanto mais o “todes”, “amigues” e outras sandices! No entanto, não haverá questões de maior relevo a serem tratadas?! Tanta polémica com as casas de banho e balneários… Não se arranjam simplesmente umas casas de banho e balneários só para essas pessoas, mantendo-se as masculinas e femininas? Pronto. Caso resolvido. A verdade é que prefiro também uma casa de banho só para mulheres, mas não me oponho a que haja uma casa de banho específica para quem se sente diferente. E sim, já estive em países em que são mistas.

Quanto à imigração… Pois bem, precisamos de gente nova, porque somos, juntamente com a Itália, o país mais envelhecido da Europa, para além de que somos nós mesmos um país de emigrantes. Há uma espécie de obrigação moral para com o acolhimento de outros. Concordo que deve haver uma maior regulação e acompanhamento, até para evitar as máfias que se criam e a escravização de pessoas em torno da imigração ilegal. Defender isto não é o mesmo que fazer dos imigrantes o inimigo ou o alvo a abater.

Estas são as bandeiras defendidas pelo partido que elegeu cinquenta deputados, cinquenta anos depois de abril. Nos seus quadros, tem inúmeros dissidentes do PSD, gente de uma ala mais liberal, no que à economia diz respeito, mas preferir o Ventura à Iniciativa Liberal é o que não consigo entender, em gente que é oriunda de um partido que, na sua génese, tal como está escrito defende “o direito à diferença” e que é “estruturalmente avesso a qualquer tipo de xenofobia”. Também há dissidentes socialistas e democratas-cristãos. Para mim, é um fenómeno incompreensível. Não se pense que os acólitos do Ventura são gente sem formação. Encontram-se jornalistas, advogados, professores… Mais incompreensível se torna aos meus olhos. Fico fulminada ao ver tantas mulheres dentro deste partido estruturalmente patriarcal e machista! Aliás, nem sei o que lá andam a fazer! De acordo com o modelo da família tradicional, deveriam estar em casa a cerzir meias ou a tricotar… É uma pena que não leiam programas eleitorais ou que não os saibam interpretar. Em alternativa, será estupidez natural incorrigível. O pior é que terá vindo para ficar, basta olhar para o panorama europeu. Esperemos que não cresça e que alguns dos seus votantes ganhem juízo.

Nina M.

 

 

segunda-feira, 18 de março de 2024

E se no vazio da noite escura e eterna

E Se no vazio da noite escura e eterna
Não me lembrar mais dos rostos
Da minha vida
Nem das encruzilhadas dos caminhos e
De todas as interseções
Que me fizeram a vida
Que me fez mais do que eu quis
E depois de vivida e percorrida
Tendo-a como minha
Sentir que a perdi...
Se esse escuro de noite
Sem estrelas nem luar
Apagar a memória dos passos
Dos gestos do modo de andar
Às vezes de coxear na vida
Roubar-me de mim e dos outros
Há outros que importam
Outros significativos e outros essenciais
Assim, sem permissão
Num apagão vil
Num aviltamento de alma
Se no vazio da noite escura e eterna
Já não souber de mim e a angústia
Ocupar o espaço imenso do ser
Sem saber sequer que é angústia
Ou outra coisa qualquer
O fim

domingo, 17 de março de 2024

Desconhecimento

Quem seria
Sem o olhar doce
A cobrir-me a face
De ternuras?

Sem os olhos rasos
D'água
Se me falas de amor
E das suas amarguras?

O toque de desejo
Num abraço apertado
Um anseio uma urgência
Que se afaga com um beijo

Quem seria na ausência
No vazio e no escuro
A viver na emergência
De um sonho sem futuro

Não sei de que matéria
Se fazem as sensações
Talvez poeiras cósmicas
As que invadem corações

sábado, 16 de março de 2024

Crónica de Maus Costumes 365

 

Panorama nacional
No rescaldo das eleições, o país preocupou-se e o comentário político diário não ajuda a serenar os ânimos. De certa forma, estranho o espanto. A votação espartilhada já era esperada. Não previa que o CHEGA alcançasse os 19,4 de votação, mas conseguiu-os, talvez junto dos ressentidos e de uma parte da anterior abstenção. Representam cerca de um milhão de eleitores e estes não serão todos, com certeza, racistas, xenófobos e fascistas.
Certo é que eles têm cerca de cinquenta deputados no hemiciclo e é certo também que que Luís Montenegro terá de dialogar e negociar com Ventura, medida a medida. O acordo parlamentar está fora de questão: Não é não. Esta situação que parece de quase ingovernabilidade, na realidade, se fosse num país de democracia verdadeiramente solidificada, que olha mais ao bem comum do que à partidarite crónica e aguda, seria resolvida com boa vontade. A AD e o PS juntos apresentam 63,81% dos votos. Para mim, a mensagem passa cristalina: os portugueses querem partidos e gente moderada à frente do destino do país (o que me deixa satisfeita). Significa que os cidadãos eleitores estão a dizer a ambos que deveriam deixar as partidarites e olhar aos reais interesses do país. Para isso, o novo governo e o maior partido da oposição deveriam conseguir entender-se e chegar a um pacto de regime relativamente a três áreas fundamentais: saúde, educação e justiça, para ver se não andamos constantemente em experiências que não chegam a ser avaliadas. Se os partidos não conseguirem dialogar e chegar a consensos, isso dirá muito sobre a faceta democrata e a (ir)responsabilidade de cada um. Este cenário é comum na Europa. Por exemplo, o sistema eleitoral alemão faz com que seja difícil que um só partido forme governo. Têm de, obrigatoriamente, formar coligações. Para que a composição de maiorias não seja comprometida pela presença de partidos pequenos e até minúsculos, existe a cláusula de exclusão, a barreira de 5%. Neste momento, o governo alemão é formado por três partidos: os partidos Social-Democrata (SPD), Os Verdes e Liberal Democrático (FDP). Atualmente, o governo do Luxemburgo é uma coligação do Partido Socialista dos Trabalhadores de Luxemburgo (LSAP), Partido Democrata (DP) e o Partido Verde. A Bélgica é governada por uma coligação de sete partidos, de várias orientações, incluindo liberais, socialistas, verdes e democratas-cristãos, dirigida por De Croo, que pertence ao partido liberal-democrata flamengo. A Dinamarca é governada pelos sociais-democratas, pelos liberais e (o partido centrista) Os Moderados, numa coligação dirigida pela social-democrata Mette Frederiksen. Poderia continuar com os exemplos. Uma pesquisa rápida mostra-nos que a Bulgária, a Chéquia, a Estónia, a Irlanda, a croácia, a Grécia, entre outros, são também governos de coligação. Se os partidos rivais de outros países conseguem pôr-se de acordo, por que razão Portugal não há de fazer o mesmo? A pluralidade é o melhor para um estado democrático saudável, desde que se tenha o verdadeiro sentido da política: o serviço público em prol do bem comum e isso implica deixar de lado egos partidários que não cabem mais num parlamento que se quer desempoeirado e moderno. Ficou claro que grande parte dos portugueses quer uma viragem e quer responsabilidade no hemiciclo. O partido que deixa o Governo tinha uma maioria e foram os seus desmandos que atirou o país para a crise política e a necessidade de eleições. Creio que é preciso que os partidos se mentalizem para a nova realidade: os portugueses, finalmente, perceberam que as maiorias são prejudiciais. Criam vícios e governos surdos, demasiadamente afastados do país real. É preciso que os parlamentares saiam das suas bolhas e vejam com olhos de ver o país em que vivem. Quando os ouço falar das opções políticas tomadas e da situação do país, parece-me que vivem num lugar que eu desconheço e que não é a mesma nação que a minha!
As eleições não foram inventadas para satisfazer partidos, mas para que o povo soberano expresse a sua vontade. O dever do hemiciclo é cumpri-la. Assim se vive em democracia e os partidos serão julgados, futuramente, pelo seu comportamento. Parece-me ainda que se o Partido Socialista quiser realmente evitar uma ação preponderante e decisiva do CHEGA nas decisões para o país, só pode tomar um caminho e esse será o do entendimento, caso contrário, poderá ser responsabilizado por ter contribuído e fomentado a instabilidade governativa, por um lado e, por outro, promover um papel de relevo do partido que tanto criticam, para que as medidas preconizadas por quem agora chegou possam ser implementadas.
Acompanharemos os desenvolvimentos.
Resta-me deixar uma palavra de apreço aos jornalistas que fizeram greve, algo que não é usual na classe. Vivem tempos complicados e um país precisa de bom jornalismo de investigação, que contribua para o bom funcionamento das instituições democráticas. Seria uma perda irreparável o desaparecimento de certos órgãos de comunicação social. O ideal seria encontrar uma solução que não implicasse a injeção de dinheiros públicos, pois, por um lado, ficaria sempre a pairar a nuvem negra da tentativa do controlo dos meios de comunicação e, por outro, a injeção de capital público em empresas privadas tem a sua bizarria. No entanto, a existência de uma imprensa capaz e livre é absolutamente indispensável. Não sei o que a sociedade poderá fazer como coletivo, mas sei que tem o dever de agradecer aos que, mesmo sem salários, têm continuado a trabalhar com o profissionalismo de sempre. Bem-haja!
Nina M.