E nos contornos da tua
Imaginação
Vês a minha alma despida
Junto ao corpo
Que delineias com o olhar
E só por hipótese o tomas
Como teu
Habitáculo do teu próprio ser
Fiel depositário dos teus segredos
Templo sagrado de desejos
Santo sepulcro do amor
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Conheçam esta narrativa infantil, talvez capaz de contagiar crescidos!
A imbecilidade do século
Hoje, num documentário sobre a
Ucrânia filmado em Odessa, dizia um dos homens que dava o seu testemunho que,
depois do que os russos faziam ao seu povo, ele considerava-os inimigos.
O
sujeito era bilingue. Falava russo e tinha familiares na Rússia. Afirmava que
tinha ligado para os seus primos e tios a alertá-los de que se entrassem em
solo ucraniano, não duvidaria um segundo e matá-los-ia para defender a Ucrânia,
se fosse necessário. A mãe, que se encontrava noutra cidade, era russa.
Mantinha o contacto com as irmãs, que lhe garantiam lamentar a situação,
afirmando que a sua dor era também a dor delas. O homem colocou-a em segurança para poder combater tranquilamente.
Um
escritor ucraniano bastante publicado e que se exprime em russo dedica-se ao
que sabe fazer melhor: escrever. Tem como missão fazer chegar a informação das
ações desenvolvidas pela Rússia no seu território. Todas as investidas do
agressor aparecem subvertidas pela comunicação social russa. Segundo esta,
transformada em aparelho da propaganda do Estado, os russos não atacam alvos
civis. A mensagem de que a Rússia liberta os irmãos do nazismo é veiculada
diariamente e quando o cidadão russo comum é questionado sobre a ofensiva,
apoia convictamente, esclarecendo que esses ucranianos têm de ser eliminados. A
jornalista questiona se teriam de os matar a todos, já que seria muita gente.
Responde que não. Poderiam ser deportados e enviados para campos de trabalho,
mas que naquele país, só deveriam poder ficar os “ucranianos normais”. Entendi
que se referiria àqueles que aceitam a Rússia como país invasor e superior.
Segundo o escritor, como para Putin a Rússia se estende até onde a língua russa
é falada, não sobrará alternativa senão a de deixarem de se exprimir completamente
em Russo, reforçando o que designa de identidade ucraniana. Sente-se-lhe o
desencanto, tal como a muitos outros, pois sempre se considerou ucraniano, mas
também russo. No entanto, após a ofensiva invasora de 24 de janeiro, essa
ligação afetiva à pátria vizinha terminou. Não é o único. Ouvi uma criança de
nove anos, que já tinha fugido do Donbass e que também era bilingue, mas que
desde esse dia se recusa a pronunciar uma palavra em russo. São apenas dois
testemunhos que refletem o sentimento de muitos outros, alguns deles, antigos
admiradores da pátria vizinha, mas que agora se desiludem. Outro homem afirmava
sentir orgulho de ter feito parte do exército russo em tempos, mas não agora,
porque um país que se diz irmão não ataca a família numa luta fratricida.
As
palavras de Putin, que marcam os seus discursos em que fala da união dos povos
eslavos (Rússia, Bielorússia e Ucrânia), ainda que subliminarmente, denunciam o
sonho imperialista e a vontade de anexar esses territórios, como já fez com a
Crimeia. Os ucranianos, por sua vez, querem um percurso individual, a sua autodeterminação
e a sua soberania. Querem aproximar-se dos europeus, reconhecem-se nos valores
ocidentais, afastando-se da “terra mãe”. E isto Putin não lhes perdoa. Contudo,
a Rússia vai ficando cada vez mais isolada e a guerra contra a Ucrânia será a
destruição do País, tal como afirma um casal de jornalistas russos que viram o
seu canal de televisão fechado e que para manterem a sua independência
jornalística e a sua vida, tiveram de abandonar a capital e refugiar-se. Vivem
num apartamento que pertencia aos avós de um deles, na Geórgia. De lá,
denunciam os crimes de guerra perpetrados pelo exército russo e os desmandos do
Putin, na esperança de que a sua voz se faça ouvir.
Pelo
meio, uma Igreja Ortodoxa que funciona por quintais e onde cada um escolhe o
patriarca que ouve. Como não há coincidências, o patriarca de Moscovo é um
antigo agente KGB. Instiga ao ódio, afirmando que a Ucrânia se afasta dos
verdadeiros valores, acusa-a de se querer ligar ao mundo ocidental, de
pretender aderir à ideologia das amplas liberdades, da exploração e da
decadência. Um discurso cheio de ranço e de falácias, legitimando as ações de
Putin, como se de uma guerra entre o bem e o mal se tratasse. Também ele
acredita e deseja a unificação territorial. O imperialismo do tempo do Czar
nunca lhes saiu das veias.
Pelo
meio, fica um país destruído, arrasado, que precisará de anos para se reerguer
e que deverá enfrentar dificuldades económicas agrestes. Se a Ucrânia já era um
país com uma economia débil, após esta insanidade, a recuperação adivinha-se
difícil. Por seu turno, a Rússia sairá derrotada. O apoio massivo dos países
europeus e dos Estados-Unidos da América à Ucrânia deixam-na praticamente só,
como deve ser, com um exército e meios obsoletos. Houvesse maior discernimento
e os russos já teriam compreendido que não há forma de sair disto com lisura. O
mal já foi perpetrado, houvesse agora honradez para o reconhecer.
Anseio
pela capitulação russa. Aguardo o suicídio da besta, se entretanto a conjuntura
política e económica não fizer com que os seus atuais parceiros lhe puxem o
tapete.
O
futuro é uma incógnita. Depois da guerra, o restabelecimento da confiança entre
a Rússia e os países europeus levará tempo e tudo dependerá do líder daquele
país, que terá de ser outro. É minha convicção de que esta tomada de posição
por parte da europa já deveria ter acontecido em 2014, após a anexação da Crimeia.
Espero que a União Europeia compreenda que é preciso determinar linhas vermelhas
e fixar o intolerável para que a tolerância e o respeito pelos outros seja possível.
Já agora, valerá a pena acompanhar atentamente os movimentos fascistas na Europa.
A situação italiana deve preocupar, assim como a Hungria. Urge que os políticos
europeus saibam estimar e preservar a democracia, o que só é possível com boa governação
em prol das populações. A corrupção e o capitalismo selvagem, onde não se vislumbra
a honradez, mas a defesa de um feudo, são o passaporte para o populismo fascista
que tanto custou a extirpar.
Nina
M.
Venho
de uma experiência imersiva de luz e de som. Fui aos Clérigos, à Igreja,
entenda-se, não às Galerias, para assistir ao espetáculo “Spiritus”, que decorre desde abril e terminará a dezasseis de
outubro.
Venho
desapontada. Responsabilidade minha, que criei expetativa. A publicidade foi
boa e falava-se de uma aliança entre arte multimédia e Fernando Pessoa,
concretamente, o heterónimo Álvaro de Campos. Acontece que imaginei um
espetáculo mais interativo com jogos de luz, de cor e de voz à mistura, que nos
traria Pessoa. Dececionei-me. Houve luz e cor, mas pouco Pessoa. Um segmento a
abrir, para nos dizer que “a melhor forma de viajar é sentir/sentir tudo de
todas as maneiras/sentir excessivamente”… Poucos portugueses desconhecerão os
versos (quero acreditar nisto) e um segmento para fechar o espetáculo e foi
tudo quanto houve de Pessoa… Tive pena, porque não senti tudo de todas as
maneiras, o que significa que aquilo que nos marca se incrusta na alma pela
emoção sentida. Houve alguma beleza, admito, mas não capaz de me agarrar a
alma.
E
este facto leva-me à pergunta e constatações que me são feitas por pessoas que
me são próximas relativamente ao facto de escrever e de continuar semanalmente
com esta rubrica. “Não sei como tens pachorra”, dizem-me. Penso que estará
relacionado com a explicação que ouvi de uma psiquiatra, nuns vídeos que vou
assistindo, por ser curiosa. As ciências sociais, basicamente, a condição
humana e tudo o que lhe diga respeito interessa-me. A Literatura explora, tenta
compreender, analisa, ilustra e reflete sobre aspetos da condição humana. Por
isso é perene e se perpetuará enquanto houver humanidade, porque as mesmas
dúvidas com que o Homem se depara repetem-se em épocas diferentes. Ando a ler o
Guerra e Paz (já estou no final do primeiro volume). Uma obra-prima do século
XIX que reúne as grandes questões: o mistério da vida e da morte; a fé; a
descoberta do sentido para a vida; o amor; a hipocrisia e a desigualdade
social… Enfim, sempre questões às quais voltamos sem cessar e para as quais não
há uma resposta exata ou que sirva a todos, por conseguinte, esta obra foi tão
válida no seu tempo quanto é agora, porque permanece atual, pois trata da
natureza do ser humano. Porém, dizia eu, que a Dra. Ana Beatriz Barbosa explicava
que à medida que o Homem foi evoluindo, o seu cérebro aumentou. O homem ficou
mais inteligente, no entanto, esse “upgrade” trouxe como consequência não saber
que uso lhe dar, porque se antes, recuando aos primórdios, a única preocupação
seria a sobrevivência, neste momento, isso não se coloca. Então, há uma falta
de orientação cerebral. O órgão pensante precisa de descobrir o que lhe é vital
ou, dito de outra forma, cada um de nós, aparentemente com a sobrevivência
garantida, precisa de saber o que fazer com a sua existência e isso passa pela
descoberta dos sentidos e do propósito. O sentido remete-nos para os nossos
talentos e paixões e o propósito para a forma como os usamos e partilhamos com
os outros. A ausência da descoberta de sentido será o “mal du siècle” e o que
justificará muitos dos quadros depressivos. Ora que a minha escrita seja
talento não estou certa, mas será paixão, certamente. De alguma forma, a
escrita traz-me também um sentido à existência. Não o único, mas um sentido.
Quanto ao propósito… Não sei propriamente que contributo ou utilidade terá… Vou
partilhando convosco, na secreta esperança de não ser abusiva. Porém, o
problema também seria de fácil resolução… Basta que não percais tempo com a
leitura do que vos possa maçar.
Assim,
hoje, aconselhava ao adolescente da casa tentar descobrir-se e descobrir o
sentido da sua existência (tarefa demasiado árdua, para já, mas sobre a qual
deve ir pensando) para não andar à deriva.
Infalivelmente,
a ausência de sentido atira-nos ou para a indiferença dos dias ou para uma
leveza alegre que tudo abarca, mas nada agarra, daquelas que não se inscreve na
alma, tal como a experiência imersiva que vivi. O que não se funde escoa-se pelas
frinchas do ser.
Nina
M.
Mordo o chocolate preto.
Com volúpia.
Fecho os olhos e
Deixo que os pedaços se derretam
Lentamente...
Se fundam na minha boca...
E a impregnar de sabor,
A língua ergue-se. Descola
Os que se agarram ao palato
E as papilas gustativas,
Essas Salomés gulosas,
Deliciam-se no prazer prolongado.
Doce mas nem tanto.
Amargo quanto baste.
Um pequeno travo só
A quebrar a monotonia do açúcar
Dark chocolat, 70% cacau diz o rótulo,
Deveria antes anunciar:
Cuidado! 70% de pecado divinal!
Má análise e desonestidade intelectual
Há comportamentos que me aborrecem
por serem falaciosos e não abonarem, por isso mesmo, a favor de quem os pratica
e porque quem os difunde tem um objetivo definido e considera o público-alvo
manipulável, para ser simpática.
Por estes dias, faleceu uma colega
de cinquenta anos (aproveito para dirigir os meus sentidos pêsames aos
familiares), doente oncológica já há cerca de uma dezena de anos e que no
presente ano letivo, com a mudança das regras de colocação por mobilidade por
doença, teria ficado longe de casa. Sabemos que os cinquenta quilómetros em
linha reta estabelecidos para colocação são uma idiotice e só quem não conhece
a realidade escolar e geográfica do país ou então quem age por má-fé poderia
descortinar uma solução deste género. Na análise que faço, o intuito do
Ministério da Educação, ao contrário do que muitos professores pensam, não foi
uma caça às supostas baixas fraudulentas que muitos alegam existir. Para
combater verdadeiramente esse crime, o Ministério teria e deveria começar por
investigar a veracidade do atestado e a idoneidade de quem o passou e, depois
de aferida a responsabilidade, penalizar o docente desonesto, se for esse o
caso. O único objetivo do senhor ministro foi colocar o maior número possível
de professores nas escolas, para que o presente ano letivo arrancasse com
normalidade e, desta forma, não haver grande reclamação por parte dos pais. A
falta de professores é um problema sério que os futuros Governos terão para
resolver a curto prazo e o senhor ministro tentou uma solução rápida para o
problema. No entanto, as decisões tomadas nesse sentido não têm sido as mais
avisadas nem resolverão a situação a longo prazo. É apenas um placebo. Assim,
as várias medidas têm constituído constantes atropelos ao bom senso e, como
medidas avulsas que são, têm prejudicado outros que pertencem à mesma classe
profissional. O facto de permitirem a renovação de horários incompletos a
professores colocados a partir de certa data, mas não o permitirem a outros que
ficaram colocados mais cedo, é disso exemplo… A situação da mobilidade por
doença é escandalosa, uma vez que há casos de doença grave que não foram
devidamente analisados nem acautelados, no cumprimento zeloso, mas estúpido, da
reta dos cinquenta quilómetros. Deixo claro que em termos de justiça nos
concursos, considero que a atuação governativa tem sido vergonhosa.
A colega que faleceu foi uma vítima
dessa cegueira. Ao que parece, tinha reclamado, mas ainda não tinha obtido
qualquer resposta. Foi, portanto, uma das injustiçadas, porque quem padece de
doença oncológica e se encontra a fazer tratamentos deveria estar a trabalhar
na sua área de residência. Se uma doente oncológica não reúne requisitos para
isso, nenhum outro reunirá. Uma análise séria é reconhecer este facto. Neste
sentido, a colega, sim, foi vítima de uma lei absurda, que corta eito fora o
direito da colocação na Mobilidade por Doença sem olhar às circunstâncias nem à
natureza justa das coisas. Outra coisa diferente é responsabilizar diretamente
o ministro pela morte da senhora. Ora isto é de uma irracionalidade tremenda e
talvez de uma má-fé inadmissível. Não tenho qualquer admiração especial pelo
senhor João Costa, mas não lhe posso atribuir, em consciência, a culpa pela
morte da colega. Infelizmente, o falecimento terá acontecido devido à doença e
não à sua colocação! Provavelmente, a situação teria o mesmo desfecho se ela
estivesse colocada perto de casa. Foi uma colocação injusta? Terá sido,
obviamente, mas atribuir a responsabilidade da sua morte ao ministro, parece-me
má-fé e estupidez.
Acho que faz todo o sentido a união
de classe em prol do que é justo e correto, mas não se pode exigir justiça e
verdade do Ministério, para depois usar das mesmas armas políticas. Não pode
valer tudo nem de um lado nem do outro. Somos professores e temos o dever do
exemplo ético. Estes exageros e jogos políticos sujos enojam-me. E se não gosto
deles vindos do Ministério, também não os aprovo quando são oriundos de um
sindicato e de uma classe. Não é desta forma maliciosa que se defende os
interesses da classe, mas antes com factos, rigor, verdade e honradez. Não sejamos
iguais aos que constantemente nos aviltam.
Tem surgido também recentemente
forte indignação por parte de muitos pais, que consideram as férias de verão
demasiado longas, comparando com o que se passa noutros países. Algumas notícias
são absolutamente falaciosas e, quando surgem, não são inocentes. Há uns
tempos, a douta (ironia minha, obviamente) Maria de Lurdes Rodrigues escreveu
um artigo de opinião também nesse sentido. Não sei se me faço entender, mas
julgo estar orquestrada a campanha para o calendário escolar ser alterado.
Normalmente, a desonestidade intelectual procede desta forma, vai incendiando a
opinião pública para depois pôr em marcha os seus objetivos, sem oposição de
maior e com aplausos de muitos e sem discutir essas mudanças com quem está no
terreno. É preciso explicar a quem tem os neurónios funcionais, porque outros
há que será pura perda de tempo, que existem razões para que as coisas sejam
assim. Vejamos, antes de qualquer outra coisa, Portugal é dos países europeus
em que os alunos têm mais dias de aulas e maior carga letiva, como qualquer pesquisa
rápida na Internet comprovará; depois, as férias estão mais concentradas no
verão devido ao clima, o que significa que nos países europeus mais a Norte,
têm menos semanas de férias no verão, mas têm mais pausas letivas ao longo do
ano, por exemplo, param já em outubro uma semana, depois em dezembro, duas. Têm
férias de neve, também duas semanas; três dias no Carnaval e também quinze dias
pela Páscoa. Significa que o tempo de férias todo contabilizado é semelhante ao
nosso. Lamentam-se os pais que o calendário não se ajusta às suas necessidades
por não terem onde deixarem os filhos, questiono, então, como fariam nas
interrupções ao longo do ano… São mais curtas, mas o problema continuaria a
existir. Depois, não levam em conta toda a preparação do ano letivo seguinte
que é necessário fazer após o término das aulas, nem a existência de exames e
da respetiva correção, nem o facto de as crianças, com o surgimento do calor
não estarem tão disponíveis para a aprendizagem. Vivemos numa época em que os
pais querem que a escola seja lugar de depósito dos filhos, mas se as pausas
existem é porque as crianças, em primeira instância, necessitam delas e
descansar não significa continuar na escola! Esse problema organizacional da
sociedade não compete às escolas resolver, mas sim ao Estado e tanto o deveriam
resolver de junho a meados de setembro quanto nas várias interrupções que
existem ou que venham a existir. Em países mais quentes e com praia faz mais
sentido haver mais férias de verão do que de inverno ou querem ir todos esquiar
para a Serra da Estrela? Não somos propriamente um país de neve! Felizmente, digo
eu, que a dispenso bem e que detesto o frio!
Saibamos analisar as questões com lisura,
baseando-nos nos factos, sem os distorcer numa retórica embrulhada de sofista, apenas
porque nos dá mais jeito que seja assim. Nem a colega faleceu por motivo da colocação
nem os professores portugueses trabalham menos do que os outros, como sub-repticiamente
se pretende sugerir.
Haja decoro!
Nina M.