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segunda-feira, 29 de agosto de 2022

Depuração

Persigo o silêncio 

A angústia insone

A ausência de mundo

O interior de mim

Depuração 

Paz cavada 

Suor

Cansaço 

Vida




sábado, 30 de julho de 2022

Crónica de Maus Costumes 288

 

Consultas e rotinas

A crónica de hoje será mais feminina. Durante a semana, fiz a visita anual ao ginecologista. Tenho saído sempre feliz do consultório, porque até hoje é o único professor que, invariavelmente, me tem avaliado com vinte valores, após observação da ecografia mamária e mamografia e respetivo exame anual, tal como é necessário, na “sala das torturas”, como ele próprio designa. Obviamente, não é uma consulta que adoremos fazer, mas é imprescindível. Já estive para lhe dizer que tortura maior é o dentista. Na maca ginecológica, não se sente nada… Noutras circunstâncias, seria estranho e até indesejável, mas ali é o que se espera, não sentir absolutamente nada.

Tudo impecável aqui com a jovem senhora, como normalmente me trata, pelo que me diz categoricamente: “vinte valores, menina. Está tudo muito bem, o que é uma grande chatice, veja lá… Não tenho nenhum tratamento a fazer” - diz a sorrir, enquanto me dá uma palmadinha no rosto, antes de se dirigir novamente ao consultório, na sala contígua, aonde estamos ainda apresentáveis. Foi a primeira vez que o meu médico de sempre, que me acompanhou nas duas gravidezes, que preveniu e evitou que pudesse eventualmente passar por um aborto espontâneo, que me defendeu a Matilde, teve um gesto de carinho, um gesto absolutamente paternal. Ele, médico reputadíssimo, um dos melhores do país, com provas dadas e clínica para tratamento de infertilidade, sempre muito profissional e competente, mas também homem de poucas falas, reservado e distante. Às vezes, notava-lhe até uma certa irascibilidade para com as suas auxiliares e, neste momento, nada disso é visível.

Nota-se-lhe um cansaço e o desgosto pela sua perda. Os retratos da filha e do pai (também ele ginecologista) enfeitam-lhe a parede do consultório. Acompanham-no sempre, como faz questão de dizer. A morte da filha, há cerca de quatro anos, ainda uma mulher jovem, de 32 anos e que deixou duas crianças pequenas, uma delas, bebé que amamentava, matou parte do professor (assim o trato, porque é professor catedrático). Um cancro da mama fulminante, descoberto durante a amamentação, sem que houvesse nada a fazer. A vida pode ser muito cínica. O pai que trata, acompanha e zela pela saúde de tantas mulheres, nada pôde fazer pela própria filha. O luto e a tristeza acompanham-no e não gosto de o ver assim… Pesam-lhe os anos, envelheceu imenso e nota-se que precisa de recorrer muito mais à ficha de cada paciente, quando outrora, sabia todo o historial de cor. Sabia se já íamos com a mamografia que pede a cada dois anos, depois dos quarenta. Agora, precisa de consultar a ficha para saber se está na altura do exame… Lá me disse que para mim ia abrir uma nova, uma terceira ficha, que sobrepõe umas às outras, como páginas de livros escritos à mão. Respondi-lhe: "pudera, senhor professor, já são tantos anos!"

- Pois são! – diz-me a sorrir…

Antes do seu grande desgosto, raramente sorria. Era sempre muito profissional, mas mais austero e pouco paciente. Agora, noto-o mais humano, mais próximo e mais terno. Sou mais velha do que seria a sua filha, se fosse viva, mas não tenho dúvida de que cada “jovem senhora” que acompanha é, de certa forma, a filha que não perde. A palmadinha inusitada no rosto, de visível satisfação por poder dizer que estava tudo bem e que me dava vinte valores é disso prova. O professor já é capaz de sorrir. Desejo que lhe sobre a saudade boa, sob a forma de amor, que a dor que possa ainda sentir esteja mais mitigada e que os netos lhe possibilitem encontrar ainda razões para cá estar. É que já o ouvi dizer que estava só à espera do momento do encontro com a filha e com o pai. Espero que os outros filhos e todos os netos lhe permitam ter vontade de cá permanecer…

Quanto às “jovens senhoras” que me vão acompanhando, não descuidem a vossa saúde. A visita anual ao ginecologista, o exame citológico (vulgo papanicolau), a ecografia e mamografia são obrigatórios! Pela vosso bem-estar! Afinal, custa mais o dentista…

Esta será a última crónica antes do almejado descanso. O mês de agosto, por força das circunstâncias exige que se reponham energias, pelo que nos próximos tempos estarei a usufruir do merecido sossego, sem atender a compromissos laborais nem lúdicos, que apesar de me serem prazenteiros, não deixam de ser uma espécie de trabalho não remunerado. Já dizia o outro: faz o que gostas e não terás de trabalhar um único dia. E eu gosto efetivamente da rubrica criada há muito, mas preciso de uma desintoxicação, tal como aqueles que me vão acompanhando, suponho…

 Assim sendo, por motivo de férias, a “Crónica de Maus Costumes” ficará em pousio durante o mês de agosto. Dizem que o pousio torna o terreno mais fértil. Veremos... Boas férias!

 

Nina M.

 

quinta-feira, 28 de julho de 2022

Eros

Mias-me pela manhã 

Durante a noite...

Procuras saciar a tua fome 

A tua sede

Todas as  fomes e todas as sedes

De carinho  

E marras-me as pernas nuas

Deixas que sinta o teu nariz húmido 

Esfregas-te esquivo à moda dos gatos

E desnudas-te, deixas-te cair sobre o tapete

À espera de recompensa

Olhas-me sério e vejo outro olhar

Há um céu e um mar que denuncia

E se não vens fazes-me falta...

sábado, 23 de julho de 2022

Crónica de Maus Costumes 287

 

Memórias

Um destes dias relembrei vivências de outros tempos, em conversa com os amigos que ficam. Tempos felizes, porque a inocência não havia sido quebrada, tempos felizes porque o mundo parecia mais belo do que sinistro. Ele é belo, mas a humanidade estraga-o. Felizmente, existem seres humanos que conseguem equilibrar as coisas e fazer-nos sentir que, apesar dos pesares, apesar do pessimismo, há esperança e luta e a crença de que é possível contribuir para um mundo melhor…

Não era preciso pensar sobre isto, naquele tempo… Nem a maturidade, ou melhor, a falta dela o permitia nem a “nossa tribo” via a feiura. O nosso mundo era dionisíaco, inocente e belo. Não cabia a maldade. É sobretudo por esta inocência que guardo memórias tão preciosas.

Obviamente, que havia coisas menos bonitas, mas não no grupo restrito dos elementos de sempre. Havia cuidado, carinho, brincadeira, muita ternura recíproca e fui tão feliz! Não me canso de o repetir e surge-me o verso do Álvaro de Campos “Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!”… Estranhamente, não desejo propriamente um recuo temporal, voltar a ter vinte anos. Não quereria, se me fosse oferecido. Há mais Sónia hoje do que antes… Mais mulher, mais consciência, mais conhecimento, mais ser, mas não negaria a possibilidade do eterno retorno… Uma cápsula do tempo e poder voltar a viver certos momentos. Ser repetidamente eu, há vinte e muitos anos, nas mesmas circunstâncias, com as mesmas pessoas…

Depois de muito riso, motivado pela conversa e pelas recordações, surgiu a sombra, o abalo, a pedra no charco. Vieste ter comigo, Nuno. Não me aparecias há muito e surgiste-me a sorrir, puerilmente, como era hábito. Veio tudo à memória. Subíamos a rua das traseiras de minha casa (eu e a Bela). Vínhamos de lá, em direção ao cu (Café universidade) … Felizes… Ríamos… Quando fomos interpeladas pelo Missas, de semblante carregado e atónito pela nossa alegria. “Estais-vos a rir? Não sabeis o que aconteceu?! O Nuno morreu. O Nuno matou-se”.

Era visível a sua consternação. Petrificamos. Ainda perguntamos se falava a sério… Atirou-nos zangado que não iria brincar com tal assunto. Calámo-nos. Apressámos o passo na esperança de que nos desfizessem o engano assim que nos sentássemos na mesa habitual… Silêncio. Tristeza. Incredulidade. Foste de fim de semana e não regressaste.

Porquê, Nuno? Era a pergunta que os teus pais nos colocavam, a suplicar pela verdade, mesmo que fosse dolorosa. Queriam uma explicação. Precisavam dela. Perguntavam-nos se andarias na droga… Afirmávamos que não. Nunca nenhum de nós te viu ou te soube metido nessas coisas. Pesou não ter resposta. Pesou ver-lhes o desespero. Nenhum de nós sabia o motivo. Nenhum de nós era capaz de o explicar. Nenhum de nós te soube mal… Ou fomos nós pouco perspicazes e pouco observadores ou foste tu muito bom ator… Sempre me pareceste bem-disposto e alegre como todos os outros… A pergunta ficará sempre por responder. Não deixaste qualquer explicação e foste embora. Sei que não quis que mais alguém próximo de mim partisse dessa forma. Mágoa é constatar que nenhum de nós foi suficiente para ti. A nenhum confiaste a tua angústia e a tua dor. Talvez fôssemos demasiado leves para o peso que transportavas contigo. Foram dias difíceis…

A viagem para a Guarda, para as tuas exéquias… Trajados, solenes e contritos. Choro e desespero. Tudo quanto guardo desse dia.

Prefiro as outras memórias, as dos risos partilhados, das caminhadas até à cantina e à Metrópolis. Pergunto-me quantas vezes estarias em dor sem que o soubéssemos, sem que o pudéssemos adivinhar… Não sei porque tardei a prestar-te homenagem se tantas vezes me lembrei de ti. Decidiste partir sem explicação. Sem olhar para trás, num voo sem retorno. Não viste nada que a vida te pudesse oferecer, apesar da tua juventude. No entanto, nunca te sentimos deprimido. Nem triste, sequer…

Porquê, Nuno?!

 

Nina M.

sexta-feira, 22 de julho de 2022

Felicidade

 Felicidade é

Um sol poente de mão dada
Uma poesia sussurrada
E, no final, uma cabeça sobre
Um ombro
Olhos fechados
Com um livro sobre o peito
Pensamentos dispersos que voam
Sobre um leito
Um copo de vinho em frente à lareira
Num inverno escuro e só
Uma cerveja que se tira da geleira
Para partilhar
Com quem gosta de nós
O sossego imperturbável
De quem se sente em casa
Uma mão entrelaçada
Num golpe de asa
Uma vida falhada que ergue o seu canto
Na fantasia de quem recusa o quebranto
A música que dói e eriça a pele
A tela, um mundo desenhado a pincel
É ter tudo em instantes
É ter nada como dantes
É suprimento da falha
Em todo o esplendor
Não é não ter dor
É sobretudo ter amor

sábado, 16 de julho de 2022

Cansaços

 Cansaços


O canto dos pássaros é outro
O cuco soa distinto
E o chilreado matinal
Que acorda cedo a vida
Pede outro ouvido

Tempo de cansaços
De apagamento do ser
Que em letargia
Busca a ausência
De todas as coisas

É fuga de verão
Necessidade de evasão
De outros lugares
No final, a dolorosa
Consciência:

Ninguém se despoja
Das suas misérias
Se são nossas
Não causam estranheza
As de outros... Que fazem cá?

Os vazios são
Silêncios polidos
Tralha deitada ao mar

Crónica de Maus Costumes 286

 

Despedida

O tema da crónica de hoje não é feliz. No domingo passado, partiu o senhor Domingos Barreiro, pai da minha irmã de coração, com quem partilhei um passado, com quem estudei, com quem estagiei, com quem cresci, por quem nasceu uma empatia e um carinho súbitos. Fomos o apoio uma da outra em diversas circunstâncias. Continuamos assim… Com uma amizade pura, desprovida de interesse a não ser o bem-estar da outra. O oceano que nos separa é o mesmo que nos une. Tem sido duas vezes por ano e este não será exceção. É um momento de tristeza e não te emociones agora, amiga, quando me leres…

Quero deixar umas palavras em memória do teu pai, um senhor com quem tive o privilégio de privar. Antes de mais, agradecer a cordialidade, a simpatia, a disponibilidade com que sempre me recebeu, primeiro a mim e depois à minha família. Agradecer o respeito que tinha pela nossa amizade. Agradecer-lhe a mulher que te tornou com a sua proteção e a sua ajuda, apesar de todas as dificuldades que foste forçada a superar (sabemos bem do que falo). Venceste. Melhor, tu e o teu pai venceram. Era muito bonito observar (para quem tem olhos sensíveis) quer o profundo amor e a atenção e cuidado que lhe dedicavas quer o orgulho que ele sentia e que lhe explodia no olhar, quando te tinha perto.

A imagem que guardo do senhor Domingos é a do homem alto, forte, com as suas cãs e bigode branco. O patriarca que zela por todos (cumpriu bem a sua missão) e que recebia como ninguém. O senhor que à chegada das visitas, diligentemente, se preocupava para que os estômagos não quedassem vazios. Lá vinha o presunto, o queijo e o bom vinho, enquanto solicitava à sua Alice o pão para acompanhar. Obviamente, não é pelo presunto ou pelo queijo (ainda que fossem bons e soubessem pela vida), mas pelo prazer que víamos que sentia em bem acolher os seus amigos ou os dos filhos. Herdaste-lhe o gosto…

Recordo com especial carinho uma conversa que tive com ele à beira-mar, na prainha do costume. Eram os nossos filhos bem pequenos. A Matilde ainda nem era nascida! Talvez tenha sido, penso que foi mesmo a última viagem do teu pai a tua casa.

Perguntei-lhe sobre os tempos de Angola, a descolonização atabalhoada, a dificuldade que foi recomeçar do zero, reconstruir tudo novamente com muito sacrifício, poupança e trabalho. Apesar de todas as provações que o teu pai teve de ultrapassar, apesar de todos os sacrifícios, não era um homem amargurado nem curvado perante as vicissitudes, pelo contrário. Era de sorriso fácil, de trato agradável, de quem sabe que a vida não existe para nos facilitar a tarefa de a viver, mas que parecia de bem com ela, como quem sabe que se cumpriu.

Impossível não recordar o encontro que não foi lá do seu agrado, mas manteve sempre a compostura. Só o soubemos no dia seguinte, quando confessou a inveja pela carne de porco à alentejana requentada… O que nos rimos! Ou então quando ainda nenhum de nós tinha visto uma nota de 500 euros e ele lança a mão à carteira, à boa moda dos comerciantes, sempre habituados a andar com muito dinheiro e puxa da nota ainda imaculada. Lembro-me de pensar que, naquela altura, o meu salário resumia-se a duas notas daquelas…

Sabes, via o teu pai e lembro-me do meu. Parecia adivinhar, o ano passado, pelo verão, quando quis visitar o teu… Dá-lhe para estas coisas, agora… E eu sei o que é, porque o farejo. Caminha como quem se prepara para a sua despedida do alto dos seus oitenta quatro anos. Nenhum de nós está imune à perda. É a lei da vida. Eles, os velhinhos que partem, aceitam com mais tranquilidade e mais naturalidade que nós. Teremos de aprender a viver com isso… Teremos de saber que a morte faz parte da vida e que enquanto não vem, ela não existe e, quando chega, dormimos o sono longo dos justos.

Um dia, depois de todo o choro e da dor que cobre estes instantes, sobrará a saudade boa, aquela que nos faz sorrir à lembrança das peripécias.

Até sempre, senhor Domingos!

 

Nina M.