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quinta-feira, 29 de abril de 2021

Super lua

 Super lua!

Entre lábios de algodão 

Oferece-se  num beijo


Vela toda a alma nua

A brilhar na escuridão 

A sua ânsia e o seu ensejo


Pensa no seu silêncio

Lê nas suas crateras

O indizível pensamento


Sabe de todas as quimeras

Ocultas na intimidade

Em secretas primaveras


Legítimas e sem idade

Escondidas no seu brilho

Dão à noite claridade


Se o dia amanhecer 

Com o halo dessa prata

É a vida a acontecer


É o sonho que não mata



 













segunda-feira, 26 de abril de 2021

Estranho o perfume

Estranho o perfume

Do meu casaco emprestado

A outrem - bom por sinal -

Porém ausente de mim

Tão estranho como se a essência

Que me habita fugisse deste

Corpo literal feito de carne e de sangue

E então assim não seria eu

Que seria de mim sem o meu corpo?

Ser seria, certamente, mas não eu. 

Talvez só a possibilidade de mim

Ou um eu mutilado de mim

E sorvo o cheiro a golos pequeninos

Por ser bom mas estranho-me 

E percebo a possibilidade de ser

Apenas neste limite corporal que é o meu

E pergunto-me sobre o que será a morte

A finitude plena ou ensejo de alma que voa

E vejo Eça, Pessoa e Torga e Sophia e Saramago 

E reconheço-lhes as palavras encerradas no rosto

Dos retratos que nos mostram os livros

Eles são as palavras e o corpo que não possuem

Mas são corpo e alma. Assim os vejo e os ouço.

sábado, 24 de abril de 2021

Um só momento

Um só momento

E todo o tempo se suspende

Como quem inspira todo o ar

necessário a um novo respirar

Todo o ser se acomoda

Ao seu lar tão natural

Nem sombra de nuvem

Alegria virginal

Um só momento

E é a eternidade

Que se adentra


Crónica de Maus Costumes 229

 

O poder da literatura e a importância da leitura

                Assisti, com primordial interesse, a uma tertúlia digital promovida pelo Partido socialista, orientada pela Dra. Edite Estrela. Lembro-me do seu programa televisivo “Falar Português”, baseado em pequenos apontamentos sobre como escrever e falar corretamente, quando era ainda uma jovem liceal, a quem, desde já agradeço as lições e o facto de nos ter poupado uma aula aborrecidíssima de Português, por incompetência de quem a lecionava. Aprendemos, certamente, bem mais com o programa do que com a aula que teríamos. Infelizmente, sempre houve maus profissionais em todos os setores e a educação não escapa ao martírio.

            O debate orientado pela Dra. Edite Estrela teve como intervenientes a escritora Lídia Jorge e o Professor, ensaísta, crítico literário e também poeta, António Carlos Cortez. O tema tratado era sobre o papel da leitura nos dias de hoje, “A leitura hoje: para além do feitiço dos ecrãs”. Abordou-se, entre outros assuntos a falta de interesse dos jovens, os nativos digitais, pela leitura e as consequências nefastas que tal comportamento traz à sociedade, com a participação dos internautas que iam manifestando as suas opiniões nas caixas dos comentários. Naturalmente, quem assistiu seria um público leitor e, como tal, defensor do livro e dos tremendos benefícios da leitura. Genericamente, concordo com as posições dos intervenientes e compartilho a mesma preocupação evidenciada por ambos, relativamente ao facto de os nossos jovens não lerem. Na verdade, o povo português não é leitor. Nunca foi e o professor Carlos Cortez identificou razões históricas sobejamente conhecidas, capazes de explicar parte do problema: O facto de vermos instaurado O Tribunal do Santo Ofício, vulgo Inquisição, durante 285 anos (1536-1821). Todos nós sabemos o que foi Índex e a perseguição a vários intelectuais, portadores de novas ideias que pudessem fazer perigar o poder clerical, assim como o controlo das livrarias. O livro era, assim, o inimigo herege que era preciso combater. Mais tarde, já no século XX, o país viveria a ditadura salazarista, a mais longa da Europa, também ela inimiga do livro e das novas ideias, que o lápis azul da censura cerceava. Desta forma, se compreende a pouca afeição do português pelo livro. Paradoxalmente, quer nos regimes fascistas quer nos regimes totalitários comunistas, o livro e a palavra assumem uma importância vital para a sociedade. Da lista negra de autores portugueses faziam parte Urbano Tavares Rodrigues, Miguel Torga, Alves Redol, Natália Correia, Herberto Hélder, Aquilino Ribeiro, Vergílio Ferreira, entre outros. Nos estrangeiros apareciam Jorge Amado, Jean-Paul Sartre e todos os que defendessem a ideologia marxista. Porém, a imaginação e a palavra vão mais longe e surgem as músicas e a literatura de intervenção, a mensagem que apela ao vento de mudança, por mais que este atrase a sua vinda. Nestas circunstâncias, nunca a literatura foi tão necessária. Lembro a poetisa russa Akhmatova, que caída em desgraça perante Estaline, por ter travado conhecimento com Isaiah Berlin, de origem russa, mas criado em Inglaterra e tido como um espião inimigo do país, se viu denegrida pelo aparelho estatal e remetida ao esquecimento, aquela que no auge havia sido apelidada de “A Safo russa”. Akhmatova não esmoreceu e o seu poema “Requiem”, que tanto perturbou Berlin, seria decorado e dito a um grupo restrito de amigas para não ser esquecido e mais tarde, impresso clandestinamente, num sistema de autopublicação (samizdat) e, posteriormente, no estrangeiro (tamizdat). É numa publicação Samizdat que a russa lê Soljenítsin, “Um Dia na Vida de Ivan Deníssovitch”, mais tarde agraciado com o prémio Nobel. Se a poetisa denunciava no seu “Requiem” o desespero da espera no exterior de uma prisão, sem esperança, na época da purga estalinista, Soljetsín narra cruamente um dia passado no “gulag”, que por experiência própria conheceu. Primo Levi fez o mesmo sobre os horrores do Holocausto, num relato vivenciado em primeira pessoa, numa descrição seca da crueldade. Tome o leitor para si a sua indignação. A literatura a interessar-se pela vida e pelo homem comum, a tornar-se o testemunho e a denúncia dos horrores.

Porém, o livro pode ser outra coisa para além de intervenção e veículo de comunicação: pode ser o refúgio de uma realidade insuportável. A criação de um novo mundo, uma nova vida paralela para quem escreve e para quem lê. O antidepressivo que os tempos modernos exigem, a suspensão e o congelamento do tempo, o alheamento lúcido tão necessário. Portanto, quando me dizem que não compreendem como se gosta de ler, contraponho que não entendo, como é possível não gostar de o fazer! E quanto mais lemos, mais exigentes nos tornamos nas escolhas. Para se ter um país de leitores é necessário educar para a leitura. É necessário recentrar o livro na sala de aula. Investir no texto literário (no currículos regulares). Quem interpreta um texto literário, mais facilmente lê uma reportagem, uma notícia ou qualquer outro texto de imprensa! É necessário apostar na formação literária e contínua dos professores. Considero absolutamente ridículo querer fazer ações de formação na área da literatura e não haver ofertas nos centros de formação! Um professor de Português precisa bem mais do livro do que da capacitação digital! A aula de Português deve ser a ágora, onde se aprende a interpretar, a analisar, a explorar ideias e a escrever. Os sucessivos governos vêm delapidando o ensino e os resultados estão à vista. Por último, relembrar a necessidade de criar maior equidade na sociedade portuguesa. Sem isso, a valorização do papel da escola e da cultura não será possível nem o livro será entendido como um bem de primeira necessidade. Por muito que nos esforcemos por passar a ideia, se a uma família lhe sobrar apenas quinze euros no final do mês, o investimento não será feito em livros. Não é feito por quem pode quanto mais por quem passa necessidade! Esta é a realidade portuguesa que observo no meu contexto laboral. Os alunos não leem autonomamente. Nem sequer têm livros em casa, mas gostam da leitura em sala de aula e aí querem ler! Os meus alunos lastimaram o término do estudo de Gil Vicente. Alguma coisa deverá ter ficado. Não sei se Camões será bem-sucedido. Veremos. O que não pode acontecer é, perante o meu entusiasmo camoniano, enquanto lhes explico a genialidade de construir 1102 estâncias que obedecem criteriosamente a uma apertada estrutura formal, enquanto narra a viagem à Índia e a restante História de Portugal e ainda as mistura com planos mitológicos e considerações do poeta, obter como resposta: “Isso é de quem não trabalha e de quem não tem mais nada para fazer”! A desvalorização da arte e do trabalho poético (que não é entendido como tal) cabe nesta observação que tratei de demonstrar ser errada.

           

Não mais, Musa, não mais, que a Lira tenho

Destemperada e a voz enrouquecida,

E não do canto, mas de ver que venho

Cantar a gente surda e endurecida.

O favor com que mais se acende o engenho

Não no dá a pátria, não, que está metida

No gosto da cobiça e na rudeza

Düa austera, apagada e vil tristeza.

Camões, in Lusíadas, Canto X

Nina M.

 

sábado, 17 de abril de 2021

Crónica de Maus Costumes 228

 

Infância

            É sempre tão bom recuperar pedaços da nossa infância! O tempo da inocência em que não se percebia nada de política nem se sabia da maldade do mundo…

            Lembro-me de certo dia, uma senhora parar à minha porta, num mini, e perguntar sobre a localização da casa da minha tia. Eu teria por volta dos sete ou oito anitos e tentava explicar o trajeto. Não deveria estar a ser bem-sucedida, pois a condutora sugeriu que lho fosse indicar, que depois me voltaria a trazer ao destino, o que fiz prontamente. Escusado será dizer que tal comportamento me custou uma descompostura da minha mãe, que eu não compreendia, porque afinal estava apenas a ajudar alguém. Era essa a justificação que apresentava à pergunta furiosa da minha mãe “Então não sabes que não se vai a lado algum com desconhecidos? Se a senhora fosse má poderia ter-te levado. Há adultos maus!”

Bem, penso que a partir desse dia, compreendi que não era exatamente verdade que deveríamos ajudar todos os que de nós precisassem e, apesar da minha mãe, muito zangada, me falar de raptos de crianças, eu pasmava e interrogava-me sobre o motivo de alguém me querer levar, pois não serviria para nada a não ser dar trabalho! Não fazia qualquer sentido e eu insistia que a senhora precisava de ajuda e que cumpriu direitinho com o prometido, porque me trouxe de regresso a casa. Pelo meio, tinha de ouvir o meu irmão mais velho a dizer à mãe que bem tentou dissuadir-me, mas sem qualquer efeito. Normal, claro. Se ele dizia que não, mais um motivo para eu ir, porque é sabido que os manos mais velhos não têm nada que mandar nos mais novos!

Fui, naturalmente, sob ameaça e coação, proibida de repetir a façanha! Compreendo, hoje, a aflição retardatária da minha mãe, ainda que naquele tempo os perigos fossem menores, também existiam. Se fosse a minha Matilde a fazer algo do género ficaria doida! A miúda desapareceu-me num sonho e eu acordei numa aflição e num sofrimento atroz!

Sei que esse episódio quebrou, de alguma forma, a minha ingenuidade e o meu encanto. O primeiro contacto com a hipotética maldade que nos mostra que afinal há adultos que não são confiáveis e que nos podem fazer mal… Por algum motivo o recordo.

A dor do crescimento está relacionada com a perda da inocência e com o desencanto do mundo. Não acontece de uma vez só, na maioria dos casos, mas à medida que vamos vivendo… Talvez por isso, a absoluta felicidade nos seja interdita a partir de certa altura. Quando o olhar virginal se esvai não mais se recupera…

 Sei que tenho momentos na memória de irremediável e de inequívoca felicidade, daquela de fazer inveja. Lembro-me bem de ser jovem universitária e de me sentir, em certos momentos, despudoradamente feliz. E sei olhar e ver ali muita inocência há muito perdida. Ou então recuar aos tempos de meninice e ver três gabirus absolutamente felizes por irem fazer um piquenique numa ilhota perdida no meio do Tâmega, no Marco de Canaveses, transportados em barco a remos até ela para passar o dia, com direito a banhos, ou das corridas loucas e dos saltos nas dunas de Mindelo, cuja água, hoje, me eriça a pele, mas que naquele tempo estava sempre boa, até ao momento em que o disco alaranjado decidisse repousar e adormecer no mar. E recordo os jogos no monte ao pé de casa, uma espécie de paintball sem armas e sem tintas, apenas com a senha: “tau! Estás morto! Vai para o penedo!” E íamos e de lá gritávamos com a força que os pulmões permitissem que estávamos mortos para a nossa equipa perceber a baixa. Nunca vi mortos tão satisfeitos! Ou a descoberta de minas de água e da apanha das amoras, dos agriões nas presas, enfim… Um bando de ganapada à solta com um mundo por descobrir.

Recordo tudo com saudade e com a consciência de que tive uma infância tão feliz! Muito mais feliz do que a de muita gente, sem o merecer mais ou menos… Até para se nascer é preciso ter sorte. E nada se prende com dinheiro, porque não havia em excesso. Porém, sobrava amor. Disso estou certa.

 

Nina M.

 

sexta-feira, 16 de abril de 2021

Abril

Se avistar o fim deste meu cansaço
E se sentir em mim o doce encanto
Renascer como o riso a compasso
Do amor que traz consigo o seu espanto  
 
Acreditar num possível futuro
Feito de fraternidade e justiça
Na coragem de derrubar o muro
E ver que o Homem rejeita a preguiça

Sai à rua pedindo aos seus iguais
Revolta que já foi também dos pais
E nessa ânsia e sede de uma vitória

Se fizer de novo um melhor abril
Soltam-se hinos à ação meritória
Festa do povo, delírio febril




Mil poesias me habitam

 Mil poesias me habitam

 Num excesso louco de ser

De mim se rasgam

E brotam em verso

Pingam as sílabas

Pensamento disperso

Sangue jorrado em  êxtase

Espanto por ser real

A palavra que não se silencia

Procura a denúncia do mal

Catarse de uma vida que angustia

Ao ver o crime de Caim repetido

É  humanidade em demasia

Que profana sem cessar

O Santo Graal

Que divindade porá fim à heresia

De ver um homem o seu semelhante

Ultrajar?