Seguidores

segunda-feira, 12 de setembro de 2022

Transição

 O outono adentra-se e 

Veste já as folhas de amarelos

Castanhos e vermelhos...

As cores outonais das árvores 

Antes de se porem a nu ante

O frio do inverno

Ainda ontem foi literalmente verão 

Hoje é outono e cinza 

A embaciar os vidros de melancolia

E o sol faz falta e deveria habitar em todos

Para que no outono e no inverno fosse verão 

E ninguém visse os ramos despidos dos outros 

Antes folhas flores e frutos sob o sol

E o céu perfeito de azul 


domingo, 11 de setembro de 2022

O Segredo

 


                                                           Nina M.

Juntava-se uma multidão à sua volta. Sons indistintos. Uma cegueira forçada pelos olhos cerrados que não conseguia abrir. Porque lhos teriam fechado? Imóvel. Ainda que se esforçasse, o corpo não lhe obedecia. As pálpebras, portas de ferro sem comando, por mais que lhes gritasse para se abrirem, ignoravam o seu pedido. Tal como as pernas, as mãos… Questionava se não lhas teriam amputado. Não sentia nada. Nem dor! Quase lhe sentia a falta. Sabia existir pela dor incrustada no corpo. Obrigada a permanecer de pé, imóvel, estátua, sentindo cada vergastada a cada movimento involuntário que fizesse, até ser vencida pelo cansaço e, já no chão, por faltarem as forças, a mesma recusa do corpo à voz autoritária e sarcástica que a mandava erguer-se. As pernas que já não sabiam existir, acusavam-se sob a violência do pau que as fustigavam. Depois, vinha a ausência, a leveza da inconsciência até ao acordar dois dias após, noutra cela qualquer, enjoada, a tremer, com o estômago colado às costas. Novo esforço hercúleo para se soerguer perante os carrascos pedantes, insolentes, que sem escrutínio da parca inteligência com que haviam sido dotados, lhe gritavam novamente que se levantasse. Perscrutavam-na sadicamente. Tentavam violar-lhe a alma, o espaço de recolhimento da sua dignidade. Inspirava profundamente e, num reunir de forças, selava os lábios finos, magoados, num novo pacto de segredo e repetia, no silêncio de si, o alento passado de boca em boca, de prisioneira em prisioneira até que chegasse o dia de povoar a atmosfera: “coragem hoje, abraços amanhã; coragem hoje, abraços amanhã”.

Queriam quebrá-la pela dor, porque a sua dignidade era inviolável. Mesmo despida, perante os olhares grotescos, nas primeiras horas da detenção, suportou-os de rosto levantado, com um olhar glacial e digno. Deteve-se nos olhos de cada um, de mãos atrás das costas e peito puxado à frente, como quem não teme a desonra da nudez, mas antes a da alma. O corpo desnudo não tem do que se envergonhar, mesmo se o enxovalham e o envolvem na sua concupiscência, rodeando-o, soprando-lhe um hálito quente e pestilento, enquanto a protuberância máscula e inadvertida se torna óbvia. A ira cresce e acompanha a turgidez adivinhada e, como um espasmo vingativo do desejo que impuro se impõe, a mão desfere o primeiro golpe sobre o rosto. De seguida, o escarro. Desfaz-se o cabelo e solta-se a interjeição sem dono, espantada da agressão aflita.

- Sua puta! Sei o que merecias! Tu e todas as meretrizes que te acompanham… Tudo tem o seu tempo!

Apagou-se o fogo que o abrasava com o desferir do golpe e com uma ejaculação precoce.

Altiva, a conter severamente o lago que lhe inundava os olhos, endureceu o rosto e contraiu cada músculo. Não falaria. Não falaria. Não falaria, repetia para si. Para proteger-se contava com a sua lucidez e a sua inteligência. Não escaparia aos maus tratos. Sabia-o, mas não queria quebrar. Estava resoluta a não deixar que lhe roubassem a dignidade e a alma. Recitava silenciosamente: “Dentro da noite que me rodeia/ Negra como um poço profundo e escura/ Agradeço aos deuses – se algum acaso existe/ Pela minha alma inconquistável”. Tinha-o decorado propositadamente pela força que transmite, pelo título Invictus a lembrar-lhe as origens, pela salvação que a poesia é. Muitos anos mais tarde, a humanidade conheceria a força do poema pela boca de Nelson Mandela. Ela nunca o chegaria a saber…

Dizia-lhe o seu espírito que o único caminho face à opressão seria a luta pela liberdade. Só os anódinos poderiam resignar-se, poderiam abdicar de si em troca de uma falsa segurança. A esperança seria possível enquanto houvesse um homem revoltado. Escolheu conscientemente o seu lado: o da razão, o da liberdade e o da tolerância. Para vencer a crueldade, apenas a inteligência e o conhecimento profundo do que é um homem, a consciência de que não há felicidade na escravidão, na ausência do poder das grandes escolhas. Queria o direito à decisão e sonhava a liberdade.

- Abra! Abra, já! – Gritavam os carrascos da PIDE que lhe foram bater à porta naquela madrugada fria de dezembro.

Não abriu. Por precaução, antes de se deitar, encostava o velho louceiro da avó à porta de entrada. Não tinha pressa de receber as visitas. Célere, agarrou nos papéis comprometedores e queimou-os. Obrigava-se a um ritual diário de juntar todos os documentos, de fazer pequenas trouxas a que pudesse facilmente atear fogo em caso de emergência. A porta cedeu ao pé de cabra e o louceiro aos ombros dos dois polícias. Permitiram que se vestisse e foi detida para interrogatório, depois de lhe virarem a casa do avesso. Vivia clandestinamente, num casebre arranjado, afastada da família que desconhecia a sua atividade. Não seriam aqueles os seus torturadores. Apenas lhes suportou os risinhos escarninhos e os comentários de quem, de repente, se sente insultado pelo feminino. Uma mulher deveria dar-se ao respeito e não se meter em coisas de política. Viver assim… Sozinha… Desconfiaram. Nas suas muitas detenções, costumavam, não raras vezes, apanhar também os seus companheiros, mas desta vez não havia registo de que outra vivalma ali tivesse guarida. Ainda assim, conforme era de usança, esperaram o amanhecer e como não viesse homem com o romper da aurora, agarraram bruscamente na fêmea, algemaram-na, mais por gozo do que por medo de uma possível fuga, e dirigiram-se ao Aljube. Durante o caminho, afavelmente lhe contavam as sortes de outras mulheres que também se julgavam valentes e juravam nada lhe acontecer caso ela colaborasse. Mais tarde, viria a saber da Olga, a camarada que lhes vomitara o seu nome. Nunca lhe ganhou rancor, porque as circunstâncias abriram-lhe o caminho largo da compreensão.

Os médicos cercavam-na. Monitorizavam-lhe o sono do qual parecia não despertar. Pensavam que talvez tivesse encontrado a ansiada liberdade…

Ela regressava ao primeiro interrogatório, aquele em que sobreviveu à exposição vexatória da sua nudez e à bofetada que a deixara surda. Apenas confirmou a sua identidade. Não a fizeram falar. Arrastaram-na para uma cela. Quando chamou o guarda para alívio do corpo, ordenaram que o fizesse ali mesmo e usasse os trapos que vestia caso quisesse limpar-se. Não se retirou de imediato, a impor a sua presença ao momento que exigia recolhimento. Perante o espanto da mulher, sabia que a crueldade era imaginativa, mas não lhe antecipara a dimensão, e a sua incredulidade, o carcereiro soltou uma gargalhada ríspida, seca como a pancada de um ferro. Ela esperou. Como se não fosse embora, escolheu o melhor canto, o que se lhe assemelhava mais protegido ao olhar indiscreto e pôs-se de cócoras. Então, o guarda retirou-se e na sua solidão escura, ela pôde chorar sem que ninguém visse. Compreendeu-lhes a sanha e o método. Recebeu o medo e enfrentou-o.

No segundo interrogatório, estendiam-lhe uma confissão. Não assinou. Veio a tortura da estátua e o desmaio. A dor insuportável, mas não falou. Os malvados não podiam deixar de lhe admirar a resistência. Escutavam-lhe os versos quase impercetíveis: “Dentro da noite que me rodeia/ Negra como um poço profundo e escura…” e consideravam-nos insultuosos. Não tinham à sua frente a mera companheira de um preso político, mas antes um guerreiro no feminino, que fazia o mesmo trabalho que um homem. Vivia na clandestinidade, era acusada de organizar reuniões, de distribuir panfletos, de desenvolver atividades criminosas à segurança do Estado. A coragem e a rebelião femininas eram insuportáveis num país cinzento, retrógrado e misógino. Redobrava-se o castigo para acompanhar a dupla desfaçatez da mulher. Olhavam-na e não viam fragilidade, mas uma ameaça latente que quer desempenhar o seu papel na sociedade. Esta ousadia não era perdoável.

Arrastavam-na novamente febril à cela fétida e dela se esqueciam por dias. Exaurida, não conseguia mover-se. Deitou-se no catre e dormiu. Acordou com umas batidas ritmadas na parede, entrecortadas por silêncios. Vindas ora da sua direita ora da sua esquerda. Era código morse que teria de desvendar com astúcia. Não estava só e isso dava-lhe alento. Aprendeu-o. Quem és? Falaste? Eram as perguntas habituais… Aprendeu que o silêncio era a única arma de arremesso contra os torturadores, mas que lhes custava a saúde física e mental. As investidas não paravam. Veio a tortura do sono e os famigerados curros de isolamento. Estoica e admiravelmente, ela não capitulava. No retângulo escuro e estreito, de gatas para encontrar a latrina, inventava versos, declamava os que a sua memória decorara e gritava-os para que os guardas soubessem que não a venciam.

É para ti que colho a flor da liberdade/Da laranjeira plantada no meu jardim… E a mesma poesia que a salvara haveria de a condenar…

Dias mais tarde, saberia da sua transferência para Caxias e da prisão de Alfredo Laranjeira. Não capitulara, mas entregara-o num verso, por incúria. O remorso trouxe-lhe a febre e a inconsciência.

- Não falaste – diziam-lhe – suportaste todas as dores. Somos testemunhas, mas as lágrimas escorriam-lhe e a vitória tinha sabor a derrota. Perdoou Olga, com a consciência de que o único que pode julgar o que capitulou é aquele que foi torturado sem falar.

Não chegou a Caxias. Os médicos vigiam-lhe a vida. Ela sente-se no segredo. Assim eram designados os curros. Nunca ouvirá Mandela declamar o seu poema.

Nina M. 

 

 

sábado, 10 de setembro de 2022

Crónica de Maus Costumes 290

 Valter e a infância

            Eu gosto muito de Valter Hugo Mãe. Já gostava antes de ter sabido que partilhámos os mesmos cheiros, as mesmas ruas, o mesmo espaço e tempo. Talvez nos tenhamos cruzado sem que o soubéssemos. O Valter viveu em Paços até aos dez anos de idade. Ele é da idade do meu irmão mais velho, o que significa que coincidiram no quinto ano, pois era a única “escola preparatória” do conselho, como então se designava. Eu sou quatro anos mais nova, mas invariavelmente, aos domingos, o meu pai deixava o carro estacionado na rua, muitas vezes, mesmo em frente da casa onde ele morava.

            Curiosamente, foi através do seu livro “Contra mim”, a sua autobiografia dos tempos infantis, que saciei a minha curiosidade relativa à casa onde o Valter morava. O casarão pertencia a uma velhinha conhecida por Dona Alicinha Baptista. Era uma casa grande, pintada de um rosa velho forte. Ela morava no andar debaixo e o Valter e a sua família no piso de cima. Era rodeada por um muro imenso (ou pelo menos parecia-me imenso, na altura) que impedia a visão para dentro. Além desta barreira física, havia a barreira natural das árvores, havia japoneiras, também elas cor-de-rosa e, por entre a verdura frondosa e fresca, espreitava a habitação. Sempre me despertou curiosidade, porque aquele jardim verde, fresco, de onde os pássaros chilreavam, mas em simultâneo algo escuro, carregava uma espécie de melancolia que transtornava a alma da minha criança. Lembro-me de, sempre que ali passava, me questionar sobre como seria aquele espaço, mas a minha curiosidade nunca foi saciada. Nunca vi ninguém sair ou entrar de lá e mais misteriosa e incrível me parecia a casa! Quando o Valter lança o seu livro, desvendou-se o mistério, porque ele descreve a habitação e o espaço que a rodeia, o jardim grande onde enterrava as bolachas que a senhoria lhe dava, quando ia a sua casa pagar-lhe a renda, a mando dos pais. Ele ficava um pouco assustado, porque a sala da senhora poderia servir de igreja, dada a quantidade de santos que por ali habitavam. Entretanto, após a saída do escritor e a morte da velhinha, a bela casa foi vendida e deu lugar a um prédio alto, moderno, com inúmeras habitações e uma praça de condomínio, mas perdeu-se a casa cor-de-rosa, que me levava a imaginar mil aventuras que poderiam acontecer naquele jardim belo, mas algo sorumbático, apesar do canto das aves. Se fosse hoje, aquela casa, com aquele espaço, em pleno centro da cidade, quanto não valeria! E como continuaria a ser belo aquele jardim… O Valter lastima a sua ausência, tal como a ausência dos peixinhos vermelhos no lago do jardim, em frente à igreja matriz. Dizia ele que tinha ido ver a ponte, que hoje é parolinha, mas que faz parte das suas memórias. Não acho a ponte parola e até gosto bem dela, porque depois do café, ao domingo, subir ao jardim e ir ver os peixinhos que vinham comer as migalhas que a criançada lhes dava, era obrigatório. Por isso, concordo com o

Valter. Senhor vereador, é preciso pôr peixinhos vermelhos no lago!

Eu, o Valter e muitos outros pacenses temos memórias semelhantes da terra, que na altura era uma pequeníssima vila, a trinta quilómetros do Porto, mas ainda assim, demasiado distante, naquele tempo, onde só se ia ao Porto por motivo de força maior, principalmente, os que não tinham carro próprio. Transporte público não havia e ainda hoje não existe. Se Paços, hoje, está perto de tudo, porque quase todos possuem veículo próprio, há quarenta anos estava longe de tudo, estávamos condenados a que o mundo chegasse até nós pela televisão. Houve quem discordasse, mas essa é também a minha perceção, ainda que mais tarde fôssemos, a cada quinze dias ao Porto, a casa do meu tio, a Ramalde. Interrogo-me por que razão os adultos não nos levavam a Serralves, por exemplo, ali tão perto… Lá íamos passear até ao Inatel, a pé, se o tempo o permitisse, e regressávamos a casa do meu tio, para ouvir os gritos do senhor Diamantino, que morava no segundo esquerdo, em caso de derrota do Benfica. Uma vez, com a frustração, atirou com a televisão abaixo da janela! Antes isso do que bater na mulher! E quando uma vez fomos, na passagem de ano, para a ponte móvel, isso é que foi uma alegria e um espanto! Ver a ponte partir-se ao meio! Por isso, Valter, sim, éramos uns pasmados e quiséramos nós ser capazes de preservar o espanto da inocência pelas coisas simples!

A sala encheu-se para ouvir o Valter. O espaço escolhido era bonito e digno, mas muito pequeno. Normalmente, este tipo de atividades não convence muita gente, mas o pacense emprestado tinha a casa cheia e ficou gente de pé. Eu fiquei felicíssima com a sua vinda, não tanto pelo facto de o autor ter vivido cá e haver memórias semelhantes, o que lhe confere maior simpatia por parte dos habitantes (alguns ainda são seus amigos), mas também porque ele conserva a simplicidade e a humildade dos que foram tocados pelo pasmo, conseguindo criar uma ligação emocional com a plateia. Quem lê Valter, adivinha-lhe a sensibilidade e o humanismo. A sua obra é atravessada pela angústia do amor, tratado nas mais variadas vertentes: o amor romântico heterossexual, homossexual, o amor maternal e paternal, o amor filial, fraternal e o amor e respeito pelo outro, tão necessário na nossa sociedade. O Valter põe a nu a fragilidade do Homem sedento de amor, mas que simultaneamente, não sabe como lidar com ele. Baltasar espanca violentamente a mulher, Ermesinda, não por falta de amor, mas por obsessão e ciúme doentio e talvez porque seguisse o exemplo paterno. A mãe de Halla maltratava-a como se ela tivesse culpa de não ter morrido juntamente com a irmã. Como se a sua existência fosse uma afronta à gémea morta, de quem todos gostavam. Vemos esta criança ligar-se a Einar, um homem feito, uma relação de pedofilia, na verdade, mas o único que a sabe amar… Há o homem que procura desesperadamente um filho que nunca teve, uma mãe que queria ser capaz de desprezar o filho homossexual, mas não deixa de sentir amor e não o consegue matar, como lhe sugeriram as vizinhas, um pai consciente, autónomo e capaz, enviado para um asilo, após a morte da esposa… 

As suas narrativas são socos que nos são atirados e que aparamos como podemos. Têm a capacidade de nos retirar do nosso conforto, de nos fazer pensar na maldade e na bondade humana e na busca pelo amor, que é, segundo o próprio autor, tal como me confirmou na questão que lhe coloquei, uma busca pelo sentido, que não existe fora dele. Uma tentativa de humanização num mundo desumanizado. Valter é, por isso, um escritor engajado com o seu tempo que procura espicaçar consciências. Pertence à estirpe dos maiores e assim será recordado um dia mais tarde. Sobre isso, não me restam dúvidas. Quiseram os deuses que tivesse vivido uma fase importantíssima da sua vida em Paços de Ferreira e é desta terra, como o próprio afirma, a partir do jardim, em frente à igreja, que traça todas as distâncias para outros destinos!

Bem-haja, Valter! Volte sempre.

 

Nina M.

 

 

 

 

 

 

 

 

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Humano

 Quem me pudera ver neste mundo desorientado

Senão eu, com estes meus olhos?

 Ver sem ser de olhar distraído ou embriagado

 Olhar seco, rude, num desconforto inconfesso

A apontar as arestas mesmo a contragosto

Da felicidade

Olhar de ver. De quem sabe que quem vê repara

Na miséria humana de imperfeição divina

Sem divindade. 

Só os deuses podem ostentar a crueldade!

(Praticam-na ufanos do seu poder)

Sobre os pobres mortais terrenos

Pedaços de carne perecível e gasta

Que lhes copiaram os defeitos!

Imbecis ingénuos!

Os vícios, mesmo os  amaldiçoados,

São perdoáveis aos deuses 

E à sua vaidade

Não aos homens. Não à sua fragilidade.


domingo, 4 de setembro de 2022

Procura

Quem somos?

Substância etérea 

Em movimento

Evolução constante

Em guerra com as circunstâncias 

Contradições de ser em construção 

Amontoado de Átomos 

Pó de estrelas

O mesmo rio sempre diferente

Tudo ou nada?



sábado, 3 de setembro de 2022

Crónica de Maus Costumes 289

 La rentrée

            Setembro. Tempo de regresso ao trabalho e, como o prometido é devido, à habitual rubrica.

            Começo por desejar um bom ano letivo a toda a comunidade educativa. Professor que é professor funciona por ano letivo e não civil. Para nós, o ano começa agora e não em janeiro! Começa mal, como já vem sendo apanágio desde alguns anos a esta parte! Ora as colocações se atrasam (voltou a acontecer para os contratados, que se veem com a casa às costas de um dia para o outro, sem saber o que fazer à vida… Muitos têm filhos pequenos e uma família para gerir e a falta de respeito para com eles é atroz! Sei do que falo, porque passei o mesmo durante vinte anos!) ora o ano letivo abre sem professores suficientes para suprir as necessidades das escolas ora há problemas com os concursos… Este ano, a cereja no topo do bolo e que foi sendo preparada ao longo de agosto, é a abertura da profissão docente a qualquer pessoa que tenha uma vaga noção sobre certa matéria. Voltamos aos anos oitenta, assistimos a um retrocesso civilizacional, comprometemos a aprendizagem de qualidade a que os cidadãos têm direito, para além de ser uma afronta a todos os professores. Ao tomar esta opção, o Governo mostra que apenas pretende resolver rapidamente o problema da falta de professores, sem atender à qualidade, pelo que se deduz que a educação é um problema menor para o país. Ninguém morre por falta de educação, mas pode-se morrer por falta de médicos e adivinhe-se lá, não há bons médicos sem bons professores! Depois, parte-se do princípio absurdo que basta o conhecimento sobre certas matérias para se ser professor. Significa que afinal as Ciências da Educação não servem para nada e que as cadeiras pedagógicas a que fomos submetidos na faculdade também não! Seria bom que todos compreendessem que o facto de alguém saber resolver uns exercícios de matemática, saber falar, ler e escrever em inglês, português ou outra língua, não habilita ninguém para a docência. Há uns anos queriam submeter os professores contratados, depois de terem passado pela universidade e pelo estágio pedagógico, a uma prova que comprovasse o seu conhecimento. Significa que havia uma desconfiança mesquinha relativamente às Instituições que preparam os alunos e que os deixariam sair sem as competências necessárias! Com a atualização dos cursos, no pós-bolonha, para se lecionar passou a ser necessário o mestrado em ensino, pelo facto de a licenciatura ter passado para três anos em vez dos cinco habituais, mas agora, como a carência de professores em certas zonas do país é muita, vale tudo!

            Os pais têm um papel importante e não vejo movimentação por parte da CONFAP, por exemplo! Será que compreendem que estas medidas comprometem a qualidade do ensino?!

            Quanto ao senhor João Costa, o verdadeiro ministro desde sempre, porque era o secretário no tempo do senhor Tiago Brandão e era ele quem já pensava e pensa a política educativa, com esta medida, envergonha os seus pares. Não se esqueça o senhor ministro de que é professor! De linguística! Acha verdadeiramente possível que alguém, ainda que fale e escreva corretamente Português, faça aprender a gramática da língua com competência? Faça analisar e faça saber explicar as obras de leitura obrigatória? Não brinquemos com coisas demasiado sérias, senhor ministro! O seu magistério ficará manchado pelo retrocesso civilizacional a que submete a educação deste país.

            Já o tinha adivinhado e já tinha escrito que seria esta a solução encontrada pelos futuros governos do país para resolver a falta de professores e como gostaria de me ter enganado! Como teria ficado feliz! Sinal de que ainda haveria uma réstia de esperança…

            Para resolver o problema da falta de professores, principalmente em Lisboa e Algarve, o que deveria ser feito era um apoio pecuniário para alojamento. Um professor contratado, mesmo com horário completo, não ganha para se manter nesses locais, principalmente, se tiver já família formada. Criem-se residências para professores, por exemplo; valorize-se a profissão através de uma real progressão na carreira, através do reconhecimento social do papel do professor e de salários condignos! Este seria o caminho para atrair jovens para o ensino, garantindo-lhes formação de qualidade e de exigência! Siga-se também o exemplo da Finlândia, no que diz respeito ao tratamento da sua classe docente e não apenas nos seus modelos educativos! O ensino é tão bom e tão confiável, tal como os seus profissionais, que não há colégios privados! Não há essa necessidade.

Haja essa coragem, senhor ministro!

Haja a coragem de levantarmos a voz contra este atentado, caros colegas! Haja nojo moral e sentido de honra e de decência!

 

Nina M.

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

Depuração

Persigo o silêncio 

A angústia insone

A ausência de mundo

O interior de mim

Depuração 

Paz cavada 

Suor

Cansaço 

Vida