Antever-lhe o sorriso
E nele mergulhar
Ver além da cor
Dos raios e da córnea
Adivinhar o Amor
No brilho que brota
Sentir o ardor
No corpo a derrota
A rendição benigna
Suave e inteira
De uma alma digna
Livre e verdadeira
Feminilidades
A mulher é um ser extraordinário e só
ela poderia albergar o verbo que se fez carne. A grande maioria vem com a
capacidade e a vontade de albergar novos seres dentro de si, que expelem no
momento certo, não sem dor nem sacrifício.
É, assim, ao sexo fraco que cabe a
função de gestante e de parideira, olhada como missão menor pelas sociedades
patriarcais. Irrito-me com comportamentos retrógrados, infundados e reveladores
de inseguranças masculinas que temem a força e a determinação femininas.
Na cultura ocidental, há já muito
ficou para trás a ideia de que a mulher se deveria cumprir no lar e na criação
dos filhos. Aquelas que o decidem fazer, estão no seu pleno direito, desde que
se sintam realizadas e que essa seja a sua escolha, mas querer impingir esse modo
de vida a quem não o deseja seria inaceitável. Hoje, felizmente, há já respeito
e maior cooperação e equilíbrio na distribuição das tarefas domésticas. Os
homens começaram a compreender a injustiça que as primeiras mulheres
trabalhadoras tiveram de suportar. Na ânsia de emancipação, essas primeiras
guerreiras tiveram que se bater para conseguirem a independência financeira em
relação aos seus pais ou aos seus cônjuges e ganharam inúmeras horas de
trabalho, pois para além da profissão, ainda cumpriam com as tarefas domésticas,
que se entendia ser trabalho de mulheres. As mudanças foram lentas e as
mulheres da minha geração, apesar da maior abertura com que foram criadas,
ainda estiveram sujeitas a uma cultura demasiado patriarcal, principalmente,
nos meios rurais. A minha tia dizia sempre que o mundo era dos homens, mas para
ela a mulher exemplar era a que o acompanhava e o auxiliava nas conquistas,
partilhando os seus desejos, enquanto dirigia tudo na casa, com os seus oito
tentáculos e onde tudo funcionava a tempo e a horas. Por muito apreço e
admiração que sempre tive por ela, neste ponto em particular, não podia estar
de acordo. O desejo de companheirismo e de parceria é compreensível, mas a
anulação de si para que o outro brilhe, não é admissível nem desejável. E
faltava muito equilíbrio…
Essa
geração de mulheres, onde a minha mãe se inclui, era a que se levantava cedíssimo,
mesmo de inverno e, antes de ir para o ofício, deixava uma bacia de roupa
lavada à mão, no tanque, e estendida no arame. Foram as que criaram os filhos
com as fraldas de pano que tinham de ser lavadas em água bem quente, com sabão-rosa,
e postas a corar para que o branco permanecesse imaculado, apesar das urinas e
dos dejetos mal cheirosos. Não me lembro de as ver descansar, entre o fogão, a
roupa, o ferro, o arrumar da cozinha… Dia após dia… Depois, o mundo era dos
homens! Não. O mundo nunca foi deles, porque elas contribuíram bem mais, apesar
de sempre ficarem na sombra e encararem essas tarefas como parte da sua
natureza.
Ouvia,
em criança, as histórias contadas pelos homens, a do passeio que foram dar ao
Porto para mostrar a ponte D. Luís à Eva, uma camponesa com muitos filhos, que
nunca a tinha visto e que levou o farnel, numa ceira, à cabeça. Enquanto ela
transportava de costas muito direitas, habituada à carga e ao jugo, tão forte
quanto a junta de bois que lhe carregava as espigas do milho, o marido, o
Claudino e os que o acompanhavam, seguiam à frente, como chefes de família,
libertos de pesos desnecessários e prontos a satisfazer-se com as iguarias pela
Eva preparadas. Como se fosse tudo muito natural. Lembro-me de ouvir estas
conversas de adultos e de eles rirem à gargalhada com o medo dela, que soltava
impropérios por temer pela vida, ao atravessar a ponte, enquanto os seus olhos
alcançavam as funduras do Douro, que serpenteava pelo meio do casario e
implorava pelo regresso e pelos seus bois que não tornaria a ver… A Eva,
certamente, mulher bem terrena não saberia que o voo e as alturas causam
vertigens.
Eu,
criança, ouvia atentamente. Sempre houve coisas que me captavam total atenção e
outras que juraria nunca me terem sido ditas… Sempre gostei de histórias e elas
sempre se resguardaram na minha memória… Lembro-me de pensar que não queria ser
uma Eva. Eles a rirem-se do medo dela e eu só a imaginá-la vermelha e grotesca
do esforço despendido, a arfar e o suor a escorrer-lhe por baixo da rodilha que
amparava a ceira. A Eva… redonda como um tonel, de pernas másculas, dois
pilares, de tronco varonil e de avental à cinta, sempre nos trabalhos árduos do
campo, na criação dos filhos e dos afazeres da casa…
A
minha infância está povoada de mulheres assim, de uma valentia admirável e, no
entanto, submissas e devotas aos seus maridos, provedoras do seu bem-estar… E
lá as ouvia desabafar que se soubessem, não teriam casado (exceto a minha tia,
que perdeu o marido cedo e lhe sentia a falta. Nunca a ouvi lamentar-se do seu.
Só da sua ausência).
Qual Inês Pereira que procura a emancipação e
encontra a prisão! Pudera… Por mais amigos que os maridos fossem, a verdade é
que o trabalho as sobrecarregava e atendiam as solicitações do esposo e da
pequenada (que naquele tempo recebia a atenção só depois do patriarca) e não
sobrava tempo para si mesma. Anulada à não existência. Um sopro que servia todos
e se extinguia.
Um
infortúnio! E sei que jurava baixinho nunca ser uma Eva e que talvez um marido
não fosse lá coisa que prestasse para muito…
Nina
M.
Desorganização crónica
Ontem, não fui nada surpreendida pela ciência oculta dos signos que me
acusa de ser absolutamente desorganizada e de não ter método. Não contesto e
não o nego. No meio de tanta generalização, nalguma coisa há de acertar. Por
natureza, não sou nem disciplinada nem metódica e não gosto de planificar.
Detesto ter listinhas para cumprir e ementas programadas e coisas assim.
Aborrece-me
profundamente essa planificação sem espaço para o improviso e a criatividade.
Lembro-me de um episódio na faculdade com a professora Assunção Monteiro, em Literatura
Portuguesa II, disciplina que era a minha preferida e na qual era
suficientemente capaz. Acontecia-me amiúde faltar às aulas teóricas e chegar às
práticas com o livro errado. Aquilo irritava-me. A professora era mais rápida
que sei lá o quê; Levo Camilo, já estávamos em Garrett; levo o Almeida, deveria
ser o Prosas Bárbaras, do nosso Eça.
Irra! A professora saberia, com certeza, que eu não ia às teóricas. Estudava os
preceitos teóricos pela História da Literatura do António José Saraiva e pelos
apontamentos fidedignos das aulas, dos quais fazia novos apontamentos, mais
concentrados e concertados com o que dizia o Saraiva. Bem, numa certa aula, a
professora lembrou-se de enviar alguém, de supetão, para analisar e sintetizar um
longo excerto (várias páginas) já não sei se das Prosas Bárbaras, se da
Correspondência de Fradique Mendes… Talvez deste último. Sei que levei, como
habitualmente, o livro errado. A técnica para selecionar alunos, na falta de
voluntários (que nunca havia, porque a ironia da professora Assunção assustava)
era espantosa: “Diga lá um número de quatro dígitos. Se fosse eu diria 1524 ou
25 só para impressionar. (Data provável do nascimento de Camões) ou 1825 (data
de publicação do poema de Garrett aquando o seu exílio, intitulado Camões, e
que marca o início do Romantismo, em Portugal). Quem foi selecionado não disse
nada disto e escolheu aleatoriamente. A professora somou os quatro dígitos, o
que resultou num número só, começou a contar as cabeças e bingo! Calhou-me a
fava! Não teria sido grande mal, se tivesse estado na aula teórica anterior,
mas não fazia a mínima ideia do que tinham falado. Estremeci interiormente e só
tinha duas soluções: ou admitia a ausência ou teria de ir e de me safar. Foi o
que fiz. Solicitei um livro emprestado à colega do lado, que tinha uns
apontamentos nas margens. A professora deverá ter-me dado dois minutos para me
organizar. Li na diagonal, vi as anotações da colega e lá fui para a frente da
sala, incrédula… Com tanta gente que tinha estado na aula, calha-me a fava?!
Fui. Iniciei a análise com a ajuda das anotações e com o auxílio da
hermenêutica possível naquelas condições. A professora ia acrescentando
informação e eu lia por avanço, em silêncio, a preparar rapidamente o que se
seguiria… Lá passei a provação até ao final, até me ser dada ordem para me
sentar, que cumpri, muito dignamente, sem manchar a reputação junto da
professora (penso eu).
Certo
é que depois disso, o improviso não poderia ser assim tão mau… Por isso não
faço ementas certas. Ficaria louca, se soubesse que todas as segundas iria
comer salada russa e, às terças, bife de frango e por aí vai… Nem pensar!
Quando chego a casa, abro o frigorífico. Espreito. Se houver comida será
reinventada, caso contrário, penso em alguma coisa… A menos que sobre comida,
nunca sei de véspera o que vou comer no almoço seguinte e o que irei preparar.
Só se houver convidados em casa. Nesse caso, tenho de planear; também não
seleciono a indumentária de véspera, nem planifico atividades, a menos que seja
imperioso fazê-lo, por ter de fazer marcações. Na verdade, gosto bem de fazer o
que me apetece de momento, segundo a vontade do instante; não tenho dossiês
impecáveis (a não ser os do estágio) e que sofrimento foi organizá-los! Valeu-me
a Sandra (a minha eterna amiga) e a minha memória. Não sei usar agendas, apesar
de as ter… E agora, que começo a esquecer-me das datas de consultas (o que antes
nunca acontecia), registo-as e colo-as no frigorífico, mas depois esqueço-me de
as consultar, ainda que abra inúmeras vezes o eletrodoméstico. Não elaboro planos
para as histórias que crio. Surge a ideia e as personagens crescem e fazem-se por
elas. Raramente sei, até me sentar, do que vos vou falar aos sábados à noite. Hoje
calhou isto… Paciência…
Para
quem nasceu assim, as palavras ordem e disciplina fazem estremecer. Nunca na
vida poderia ser militar (também só a ideia de me acordarem às seis da manhã,
com uma corneta estridente, dar-me-ia vontade de a partir na cabeça do
corneteiro). Não, obrigada! Porém, a vida não se compadece dos desorganizados e
obriga-nos a uma adaptação. Não sou organizada, mas não gosto da desorganização
excessiva. Tendo consciência das minhas limitações, lá me vou impondo alguma autodisciplina
para que as coisas caibam no meu dia. Aprendi a rotina certa com o nascimento dos
filhos. Agora, com eles maiores, já me desmazelo mais, novamente. Há quem diga que
gosto de viver no limite… Não sei se é isso. Talvez goste do inusitado e das surpresas
boas, apesar de me obrigar ao trilho, mas não deixo de cumprir com as minhas obrigações
e responsabilidades.
Quem
não descarrila de vez em quando para ter a certeza de que está vivo?!
Nina
M.
O meu pai
O meu pai tem oitenta e quatro anos,
feitos em fevereiro, quatro dias antes do aniversário de uma das suas netas (a
minha Matilde). A minha família é de homens. Os meus pais têm quatro netos
rapazes e apenas duas netas. Têm dois filhos e apenas uma filha, que sou eu. Os
primos com quem mais convivi são homens, no entanto, as mulheres da minha
família são extraordinárias! A começar pela minha avó materna, Matilde, de quem
a minha pequena herdou o nome. A tecedeira que também fazia de parteira e me
punha a dormir durante o dia, na alcofa pousada sobre o tear. Adormecia ao
deslizar da lançadeira e das teias que viriam a ser mantas. A sua primogénita,
a nossa Tia (sem nome, porque todos sabemos quem é) que enviuvou cedo (eu tinha
apenas dois anos quando o meu tio Agostinho morreu. Não me lembro dele. Só lhe
conheço as fotos) e ficou com quatro filhos para criar e fê-lo bem. Uma mulher
de trabalho, sempre de mangas arregaçadas e que aos oitenta julgava ter
quarenta, porque nunca se cansava. Adoeceu uma única vez, aos oitenta e três, e
deixou-nos.
O meu pai veio jantar a minha casa,
porque nesta idade o melhor que se pode oferecer no dia do pai é a companhia.
Olho-o, de soslaio, enquanto come o bacalhau, o seu prato favorito e vejo o pai
que me contava invariavelmente a mesma história, ao domingo de manhã, na sua
cama, enquanto a minha mãe já andava na lida. A cama dos pais é sempre melhor e
qualquer filho que se preze sabe disso. Talvez seja por isso que gosto do
aconchego da cama pela manhã. Eras tão mais novo… Já tinhas as tuas cãs, a
marcarem-te a maturidade, mas as mãos, pai, eram infinitamente mais lisas e
mais ágeis… Agarravas-me pelos braços e fazias-me rodopiar, como uma pena (era
uma pena, de tão magrita!) enquanto entoavas o pirata da perna de pau/orelhas
de burro/ e cara de mau. Lengalenga repetida à exaustão, enquanto voava cada
vez mais alto! Vejo o pai que nos acordava às sete da manhã, na época balnear,
com as cantorias (que detestávamos e tu fingias não perceber), enquanto
tratavas da tua higiene pessoal. Já ficava doida nessa altura com o chinfrim
matinal. A idade não me melhorou… Invariavelmente, fazias-nos chegar às 08:30 a
Mindelo, montavas o estaminé para passarmos o dia e escapulias-te para o café.
Lias os jornais e falavas com o Eusébio, o pescador. Lá regressavas para o
almoço e a sesta da tarde, mas ninguém te apanhava na areia, muito menos no
mar! Deveria ser um suplício para quem não gosta de praia, mas que se convence
de que é o melhor para a saúde dos petizes e lá fazias o esforço… Nós não
compreendíamos! Como é que não se gosta de praia?! E corríamos como doidos, explorávamos
os penedos e saltávamos nas dunas, mas a nada assistias. Lá nos trazias as
pastilhas de mentol e compravas a melancia ou melão na dona Lurdes, para depois
do almoço. Ainda hoje te esqueces de que não gosto de melão e continuas a
oferecer-mo, de cada vez que o há às refeições. Digo sempre o mesmo:
- Ó papá, não gosto de
melão!
- Ai
não?! – Questionas sempre e intervém a mãe irritada, “francamente, ó homem, és
sempre a mesma coisa! Ainda não sabes que nem ela nem o Miguel gostam de
melão?!
Eu rio do teu ar de espanto, sempre
renovado… Para a próxima, a história repetir-se-á, mas não faz mal nenhum.
Hoje,
pai, quando soltaste que querias chegar aos oitenta e cinco e perguntei a
sorrir se agora o peditório era anual e dizes que sim… “Ai queres que diga de dez
em dez!” - Dizes, rendido ao tempo e às evidências, porém, acrescentas, ufano, que
cortaste a lenha para o fogão e para a lareira… Mas sabes, pai, os teus olhos verdes
perderam o fulgor de outrora. Há um brilho sem luz de quem já não espera muito.
Talvez sintas que já cumpriste a missão e vivas nessa tranquilidade de vida feita.
E, de repente, surge a evidência de que fui tanto a menina do papá!
Felizmente,
ainda tens qualidade de vida. Conduzes e quando perguntei se ainda vias bem ou se
era preciso levar-te (uma pequena provocação), perguntas-me se estou tolinha… Ainda
não perdes os jogos do nosso Porto (nem de nenhum outro, se puderes) e manténs a
cadeira na Mata Real, apesar de já não ires ao estádio…
Dou comigo a pensar que a pandemia veio interromper
certos hábitos que devemos retomar. Almoçamos e jantamos menos vezes juntos. Perdeu-se
a rotina e a vida corre, voa-nos pela janela, mas teremos de a segurar nestes pedaços
de eternidade, porque um dia será tudo o que restará.
Nina
M.