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quinta-feira, 16 de maio de 2019

Quando ela vier

Quando ela vier...
Quando ela me levar...
De mansinho
Quem sabe repentinamente
Tanto faz!
Sabei que levo comigo tudo quanto amei
Quanto amei! Como amei!...
Com a fúria de ventos e águas
Marés cheias e vazas
Ao sabor dos caprichos da lua!
Não me enclausureis 
Não quero masmorras nem mausoléus
Dai-me a liberdade verdejante
Sob um pasto farto e fecundo
A servir-me de túmulo.
Prescindo do epitáfio
E de meus ossos desfeitos
Transformados em pó
Surgirá húmus fértil
Semente profícua a céu aberto
A teimar que não foi em vão.

sábado, 11 de maio de 2019

Crónica de Maus Costumes 131


Diversão não deveria ser indignidade

                À luz do que vem sendo habitual, nos últimos anos, esta semana, a Internet ficou pejada de imagens de jovens universitários, que supostamente se divertem numa Queima. Resistirei à tentação de cair num discurso moralista e puritano e até mesmo paternal. Também já tive as minhas queimas. Frequentei todas e diverti-me muito! Também nesse tempo havia excessos cometidos por uma juventude que fervilha de vida e que o corpo, demasiado pequeno, não consegue suster. É a lei da vida. É natural que assim seja.
                No entanto, a natureza da diversão divulgada impressiona qualquer um. Jovens mulheres seminuas, em plena posse das suas faculdades, que se deitam deliberadamente em cima de um qualquer balcão, com paparazzis de serviço que divulgam in loco o acontecimento nas redes sociais, parece-me tudo menos diversão. São imagens e pequenos filmes de cariz sexual feitos sem o mínimo de privacidade e de respeito pela própria intimidade. Desde shots estrategicamente colocados entre os seios e que jovens rapazes e raparigas vão buscar com a boca, numa espécie de jogo, para ver quem consegue beber sem pegar no copinho com as mãos, a beijos ostensivos entre belas meninas, quais Safos de quem se desconhece a poesia, até imagens mais degradantes em que, à frente de um grande público, se vê um jovem a beber da púbis da menina, que jaz deitada e sorridente, mesmo sabendo-se filmada ou outra que, de seios a descoberto, permite que a acariciem e escrevam sobre a pele, enquanto se veem umas mãos que passeiam freneticamente entre pernas… Tudo isto se pode encontrar…
Ora, a mim, para me parecer diversão, teria de ficar na esfera privada de duas pessoas, que partilham a sua intimidade.
                Ao ver as imagens lembrei-me dos cínicos da antiguidade, dos filósofos tão naturalistas que caíam no engano de viver como animais, também eles satisfazendo as suas necessidades eróticas em praça pública!
                Questiono-me o que leva as jovens a tal comportamento. Jovens mulheres que se deixavam acariciar e filmar com satisfação perante olhares indiscretos, como se fosse um comportamento natural! Um arrepio percorre-me a alma. Em primeiro lugar, porque sou mulher e, depois, porque sou mãe! Talvez um dia, queira mostrar este texto à minha filha, para que ela não confunda diversão com indignidade. Tal comportamento não é rebeldia, não é ser ousada e muito menos moderna! Revela apenas uma enorme falta de respeito por si mesma, objetificando-se, transformando-se numa coisa em que qualquer um pode tocar!
 Se algum dia te quiser mostrar estas linhas, filha, sabe que a mãe não é nem moralista nem puritana e nem feminista. Apenas considera a mulher um ser divino, a obra mais perfeita de Deus, se Ele existir. A mulher é elegância, beleza e sensualidade, não é um pedaço de carne que qualquer um pode pegar. No entanto, os outros só te poderão ver assim, se tu te vires assim primeiro e, para isso, a preservação da tua intimidade é crucial. É muito bom entregarmo-nos a alguém e todos os jogos, desde que desejados por ambos, poderão ser admissíveis, mas no recolhimento e na privacidade de quem se quer muito bem. Este comportamento não dignifica a mulher e põe em causa o respeito que ela almeja conquistar.
                Não deixa de ser curioso o facto de que todas as imagens perturbadoras que vi serem de meninas. Não vi rapazes nus em poses provocatórias e a ostentar o que quer que fosse! Serve para provar o quê?! Que a mulher é dona do seu corpo e pode fazer com ele o que bem entender?! Que a mulher tem o mesmo direito à liberdade sexual que o homem?! Ou apenas parvoíce de uma idade em que não se medem as consequências e em que não se lembra que uma vez na Internet, na Internet para sempre?!
                Quanto aos voyeurs que não resistem a colocar tudo quanto veem no mundo digital, mesmo que se trate da vida alheia, talvez fosse melhor arranjar algo de útil e de produtivo para fazerem…
                O que vi não foi um excesso de juventude, foi uma obscenidade feita de forma consciente e com alegria pateta que apenas expõe ao ridículo quem se prestou a tal papel e, por mais compreensivos que possamos querer ser, não é comum ver-se mulheres a levantarem camisolas, enquanto afagam os seios nus em troca de uma bebida gratuita!
                A sério, meninas?! As prostitutas são mais caras e mais dignas!

Nina M.









quinta-feira, 9 de maio de 2019

Quero que a tristeza me embale

Quero que a tristeza me embale
Tome conta de minha alma nua
Acaricie as minhas entranhas amargas
Me console do medo da solidão
Nesta noite fria e demorada
Vou sentir o fio da lâmina fina e afiada
Numa valsa válida e sensual
Roubar-me só da imperfeição amargurada
Não me leve a angústia amiga
De que é feita a vida sem ilusões
Não me leve a poesia do olhar
Nem a harmonia de minha voz...
Quero uma tristeza crua para me embalar
Devolver-me ao sopro perdido
À minha ténue liberdade, à minha vida desmedida


sábado, 4 de maio de 2019

Crónica de Maus Costumes 130


Perda de tempo

            Tentei resistir ao assunto da ordem da semana : recuperação integral do tempo de serviço de professores, o número mais conhecido de Portugal 942! Naturalmente, se efetivamente se verificar, nada mais justo. Ver-se-ia cumprida uma promessa que o governo se apressou a fazer, mas tardou em cumprir.
            Aborrece-me o assunto por ler e ouvir sempre o mesmo teor de comentários e as birrinhas de politiqueiros há muito desprovidos de ideal, que se dizem muito defensores das liberdades de abril, mas que na primeira oportunidade, perante uma democracia que os contraria, ameaçam bater com a porta e acenam com a suposta terrível situação de termos um país à deriva, sem governação!
A sério, senhor primeiro-ministro?! Acha mesmo que os portugueses se preocupam com esse facto, se o país, nos últimos anos, mais parece um manicómio em autogestão?! Por favor, tenha um pingo de decência! É que já teve melhores oportunidades para apresentar demissão por imperativo de consciência, sabe?! Quer que lhe lembre a tragédia de Pedrógão?! Sim, com certeza, foi uma fatalidade terrível, mas também Édipo a sofreu e não deixou de se sentir responsável.
A todos os outros que embarcam na fantasia de que os professores levarão o país à ruína, tenham juízo e indignem-se com o que deve ser fator de indignação: políticos corruptos, promiscuidade entre política e o setor financeiro, injeções de somas incomportáveis numa banca que financia e favorece meia-dúzia, etc., etc… Se os professores poderão abrir precedentes para outras lutas corporativas do setor público? Pois com certeza e com toda a legitimidade! Empenho e perseverança é o que se aconselha a enfermeiros, forças de segurança, entre outros… Não precisam é de usar o pseudoargumento de que os professores estão a ser beneficiados. Não estão! Apenas recuperarão o que é seu por direito. Insistam no vosso propósito sem invejar o alheio…
Quanto ao senhor primeiro-ministro, que tanto quis ocupar o poder, com a legitimidade que a constituição prevê, é um facto, mas com toda a imoralidade de quem não ganhou as eleições, esta fita é com que propósito? Fazer dos professores o bode expiatório usando da falácia para contaminar a opinião pública? Tratar-se-á de um plano ainda mais maquiavélico, no sentido de deteriorar a educação a tal ponto que não se eduque nada, já que uma população ignorante é facilmente manipulável? Não me diga que anda a ler Maquiavel…
Lembro só os recentes casos de eleições ganhas por populistas ignorantes e o crescendo da extrema-direita, na Europa. Estes movimentos radicais nunca surgem por acaso. A classe política tem uma grande responsabilidade no surgimento destes fenómenos, porém, enquanto país de brandos costumes e de politiqueiros profissionais, continua-se a assobiar para o lado… Depois, se no desespero e na desesperança a população vota atabalhoadamente ou nem vota, é o descalabro e o valha-me Deus!
De modo que por mim, se quiser pedir demissão, sinta-se à vontade. De qualquer forma, tenho a certeza de que surgirá novo messias no horizonte com vontade de governar este país ingovernável, com palavras esperançosas e vontade de se tornar uma glória nacional! Vira o disco e toca o mesmo! Nós, por cá, simples mortais trabalhadores, continuaremos a assistir a este estado de coisas impávidos e serenos, porque uma revolução com cravos é coisa difícil de se fazer e muito trabalhosa. Era até necessário que nos incomodássemos seriamente com as grandes questões nacionais e até quem sabe começar a valorizar a ética na política. Vejam só tal disparate!
Nina M.
           

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Como me amas? - Perguntas

Como me amas? - Perguntas
Com a alma toda!
Com o sol do meu olhar
E o mar aberto do meu sorriso
Amo-te com vontade déspota
E o desespero de um condenado
Com as minhas ambivalências e contradições
Com mais alma na alma...
Amo-te com a renúncia de um rei
E a subserviência de um escravo
Amo-te mesmo quando não gosto de ti
E quando foi isso se não sei dizer?!
Amo-te com o peso do mundo
E com a leveza do ar
Amo-te assim, originalmente,
Num espanto maravilhado da existência
E neste encantamento sou livre.

Entristeço, amor, ao saber tua tristeza

Entristeço, amor, ao saber tua tristeza
Ver a tua angústia, aperta-me o peito
Não temas. Nada receies. É de minha vontade
Contigo partilhar o leito
Dá-me o riso do teu canto
A serenidade de um beijo leve e doce
Abandona a agonia de uma hora má
Junta-te a mim e à minha alma sã
De mãos dadas partiríamos
Para onde quer que fosse

Leveza

Se um amor dedicado pesar
E uma leveza surgir no horizonte
Que seja para da terra me levar
Em ascese absoluta seja fonte
Cavalo alado erigido ao céu
Nas suas asas me eleve e inspire
Assim nasce o verso belo, puro e cristalino
Seja água da cascata de um monte
E se essa leveza também pesar
Que me trespasse aérea e letal
O corpo quente de um simples mortal
Exalte o espírito e o transcenda
Em celeste e excelsa companhia
A leveza de tão leve que se renda
À serenidade e ao som da harmonia