Um abraço terno
Assim, nesta realidade desoladora e
triste, a capacidade de nos enternecermos prova que ainda vivemos, que ainda
resiste um último pingo de humanidade em nós. Talvez ainda tenhamos salvação.
Esta semana, ao passar por casa dos
meus pais, os vizinhos que tinham saído para uma breve caminhada, estavam à
conversa ao portão. Há muito não nos cruzávamos e eles lamentaram isso mesmo.
Ainda no carro, de cabeça baixa a separar uns papéis de que iria precisar,
sinto um vulto parado, a olhar-me. Olhei para o vidro. A Senhora Glória
aguardava pacientemente que a visse e decidisse falar-lhe, quem sabe sair.
Arrumei as coisas, desapertei o cinto e abri a porta para a cumprimentar.
— Ó Sónia! Há tanto tempo que te não
via!
Verdade. Há muito tempo.
Cumprimentei-a. Assim que me baixo ligeiramente, para lhe dar dois beijinhos,
ela dá-me um forte abraço. Daqueles que demoram com um sorriso rasgado,
enquanto garantia ter gostado de me ver. Segurei-lhe as mãos. Perguntei como
tem passado.
Entretanto, veio o marido. O mesmo
lamento. A ausência. Não me viam há muito. Cumprimentei-o também. Começou,
imediatamente, a falar-me do quadro de demência da esposa, das dificuldades que
tem para a amparar, por ter já oitenta e quatro anos.
— Ela não quer ir para o lar de dia…
A senhora Glória a acompanhar a conversa e a
mexer a cabeça para ambos os lados.
— Não quero. Não conheço as pessoas.
Não fui habituada a andar nesses ambientes. Fui criada aqui, assim…
— Foi criada em casa e no campo, não
é? Vida de muito trabalho.
— Pois foi. Agora, que podíamos estar
tão bem…
As reticências não falaram da vida de
pobreza do casal com as suas seis filhas. Ela a trabalhar na lavoura com o pai,
que fabricava uma quinta, de onde saía boa parte do alimento. O marido
marceneiro. Uma vida de sacrifício, num casebre fraco. Perderam uma filha
levada por um tumor cerebral aos catorze anos. Era cerca de dois anos mais
velha do que eu. À medida que as raparigas foram trabalhar para contribuir para
a casa, a vida deles foi melhorando. Arranjaram a casinha. Lá me fez ir a casa
dela buscar uma cabaça e uns ovos caseiros e queria que trouxesse cebolas.
Agradeci. Não as posso comer nem usar na comida. Agradeci. Veio a curgete em
substituição.
Eu a lembrar-me do tempo de gaiata,
em que passava as tardes com as filhas dela, a brincar. Às vezes,
acompanhava-as para o campo. A senhora Glória, coitada, que sabia que eu
gostava da broa de milho (ainda gosto), a oferecer-me uma fatia ao lanche, que
eu preferia ao trigo ou à bolacha Maria. Lembro-me das batatas cozidas que
comia na casa dela, regadas com azeite e uma pontinha de vinho tinto a servir
de vinagre. Na verdade, servia, que aquele vinho tinto verde, carrascão, era
amargo como trovisco. E eu, que obrigava a Glória, a minha prima, a andar com o
prato dos leõezinhos na bouça em frente, no penedo grande, enquanto me enfiava
goela abaixo a batata cozida esmagada com peixe ou carne, já fria, comia com
gosto em casa da vizinha do pouco que tinham, do caldo e das batatas. A sorte
deles é que era fraca comedora.
A minha mãe incrédula a perguntar-se
como era possível semelhante façanha. E para compensar, sabendo das
dificuldades, lá lhes levava uma mercearia para os compensar.
Ambos felizes por me darem a abóbora.
A alegria vem-lhes de um lugar mais fundo, do simples gesto natural de os
cumprimentar com dois beijos e um abraço.
São pessoas que cultivam alguma reverência perante aqueles que
consideram, de alguma forma, estar num patamar superior, devido às condições
económicas. Sentem-se neste modo de os cumprimentar tratados como iguais. Cumprimento-os
como cumprimentaria uma pessoa da família ou uma amiga. Este gesto, para mim
tão trivial e sinal de educação, para eles, um afago, um sentir que importam. Enterneci-me
e uma alegria singela invadiu-me. Senti alguma culpa por nunca me ter lembrado
de os visitar.
— Esta mulher consome-me — dizia-me o
senhor José. No outro dia cismou que eu estava com outra mulher na cama!
Soltei uma risada. Achei delicioso! Ela,
meio envergonhada, acrescenta:
— As figuras que uma pessoa se sujeita
a fazer nesta idade… Eu estava a dormir-
— E sonhou que estava por aí outra
mulher, não foi? De repente, acordou e estremunhada pareceu-lhe ver alguém.
— Foi, respondeu aliviada.
— Olhe, deixe lá, senhora Glória, uma
pessoa também não tem culpa dos sonhos! Não os escolhemos. Importa que depois
acordou e a única mulher da casa era a senhora.
— Pois era. Ó Zé, então, não vamos à
Pedreira?
— Ela ainda não andou, hoje. Ia
levá-la a caminhar, mas já é tarde e ela anda tão devagar que não chego antes
das sete e meia (19h30).
— Leve-a só até à oficina dos irmãos
Ferreira e volte para trás.
— É, Zé. Vamos só até à oficina e voltamos.
Soube que já não consegue cozinhar.
Não quer. Passa o dia entre o deitar-se na cama e levantar-se. Fala com o pai
que já morreu há muito tempo. Fala com os mortos que vê.
— Fala com os mortos todos — diz o
marido — mas não se lembra da filha.
— Ai não, não lembra! Lembro, lembro –
apressou-se a dizer.
A demência, nesse dia, foi menos
traiçoeira. Conheceu-me bem e deu-me um abraço apertado como quem sabe que tem
dias em que a memória lhe rouba o ser.
Nina M.
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