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sábado, 25 de julho de 2026

Crónica de Maus Costumes 478

 

Um abraço terno

 A capacidade de nos enternecermos aquece-nos. Olhar exaustivamente para o mundo é desencorajador. A paz entre os homens é uma miragem, as notícias que nos chegam são todas más. O mal gera interesse e cria audiência. O mundo transformado em espetáculo de misérias. Talvez o ser humano precise de ver as cicatrizes expostas nos outros para suportar as suas próprias, para se tolerar e conseguir viver consigo, porque queira ou não será sempre a sua mais persistente companhia.

Assim, nesta realidade desoladora e triste, a capacidade de nos enternecermos prova que ainda vivemos, que ainda resiste um último pingo de humanidade em nós. Talvez ainda tenhamos salvação.

Esta semana, ao passar por casa dos meus pais, os vizinhos que tinham saído para uma breve caminhada, estavam à conversa ao portão. Há muito não nos cruzávamos e eles lamentaram isso mesmo. Ainda no carro, de cabeça baixa a separar uns papéis de que iria precisar, sinto um vulto parado, a olhar-me. Olhei para o vidro. A Senhora Glória aguardava pacientemente que a visse e decidisse falar-lhe, quem sabe sair. Arrumei as coisas, desapertei o cinto e abri a porta para a cumprimentar.

— Ó Sónia! Há tanto tempo que te não via!

Verdade. Há muito tempo. Cumprimentei-a. Assim que me baixo ligeiramente, para lhe dar dois beijinhos, ela dá-me um forte abraço. Daqueles que demoram com um sorriso rasgado, enquanto garantia ter gostado de me ver. Segurei-lhe as mãos. Perguntei como tem passado.

Entretanto, veio o marido. O mesmo lamento. A ausência. Não me viam há muito. Cumprimentei-o também. Começou, imediatamente, a falar-me do quadro de demência da esposa, das dificuldades que tem para a amparar, por ter já oitenta e quatro anos.

 — Ela não quer ir para o lar de dia…

 A senhora Glória a acompanhar a conversa e a mexer a cabeça para ambos os lados.

— Não quero. Não conheço as pessoas. Não fui habituada a andar nesses ambientes. Fui criada aqui, assim…

— Foi criada em casa e no campo, não é? Vida de muito trabalho.

— Pois foi. Agora, que podíamos estar tão bem…

As reticências não falaram da vida de pobreza do casal com as suas seis filhas. Ela a trabalhar na lavoura com o pai, que fabricava uma quinta, de onde saía boa parte do alimento. O marido marceneiro. Uma vida de sacrifício, num casebre fraco. Perderam uma filha levada por um tumor cerebral aos catorze anos. Era cerca de dois anos mais velha do que eu. À medida que as raparigas foram trabalhar para contribuir para a casa, a vida deles foi melhorando. Arranjaram a casinha. Lá me fez ir a casa dela buscar uma cabaça e uns ovos caseiros e queria que trouxesse cebolas. Agradeci. Não as posso comer nem usar na comida. Agradeci. Veio a curgete em substituição.

Eu a lembrar-me do tempo de gaiata, em que passava as tardes com as filhas dela, a brincar. Às vezes, acompanhava-as para o campo. A senhora Glória, coitada, que sabia que eu gostava da broa de milho (ainda gosto), a oferecer-me uma fatia ao lanche, que eu preferia ao trigo ou à bolacha Maria. Lembro-me das batatas cozidas que comia na casa dela, regadas com azeite e uma pontinha de vinho tinto a servir de vinagre. Na verdade, servia, que aquele vinho tinto verde, carrascão, era amargo como trovisco. E eu, que obrigava a Glória, a minha prima, a andar com o prato dos leõezinhos na bouça em frente, no penedo grande, enquanto me enfiava goela abaixo a batata cozida esmagada com peixe ou carne, já fria, comia com gosto em casa da vizinha do pouco que tinham, do caldo e das batatas. A sorte deles é que era fraca comedora.

A minha mãe incrédula a perguntar-se como era possível semelhante façanha. E para compensar, sabendo das dificuldades, lá lhes levava uma mercearia para os compensar.

Ambos felizes por me darem a abóbora. A alegria vem-lhes de um lugar mais fundo, do simples gesto natural de os cumprimentar com dois beijos e um abraço.  São pessoas que cultivam alguma reverência perante aqueles que consideram, de alguma forma, estar num patamar superior, devido às condições económicas. Sentem-se neste modo de os cumprimentar tratados como iguais. Cumprimento-os como cumprimentaria uma pessoa da família ou uma amiga. Este gesto, para mim tão trivial e sinal de educação, para eles, um afago, um sentir que importam. Enterneci-me e uma alegria singela invadiu-me. Senti alguma culpa por nunca me ter lembrado de os visitar.

— Esta mulher consome-me — dizia-me o senhor José. No outro dia cismou que eu estava com outra mulher na cama!

Soltei uma risada. Achei delicioso! Ela, meio envergonhada, acrescenta:

— As figuras que uma pessoa se sujeita a fazer nesta idade… Eu estava a dormir-

— E sonhou que estava por aí outra mulher, não foi? De repente, acordou e estremunhada pareceu-lhe ver alguém.

— Foi, respondeu aliviada.

— Olhe, deixe lá, senhora Glória, uma pessoa também não tem culpa dos sonhos! Não os escolhemos. Importa que depois acordou e a única mulher da casa era a senhora.

— Pois era. Ó Zé, então, não vamos à Pedreira?

— Ela ainda não andou, hoje. Ia levá-la a caminhar, mas já é tarde e ela anda tão devagar que não chego antes das sete e meia (19h30).

— Leve-a só até à oficina dos irmãos Ferreira e volte para trás.

— É, Zé. Vamos só até à oficina e voltamos.

Soube que já não consegue cozinhar. Não quer. Passa o dia entre o deitar-se na cama e levantar-se. Fala com o pai que já morreu há muito tempo. Fala com os mortos que vê.

— Fala com os mortos todos — diz o marido — mas não se lembra da filha.

— Ai não, não lembra! Lembro, lembro – apressou-se a dizer.

A demência, nesse dia, foi menos traiçoeira. Conheceu-me bem e deu-me um abraço apertado como quem sabe que tem dias em que a memória lhe rouba o ser.

 

Nina M.

 

 

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