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sábado, 18 de julho de 2026

Crónica de Maus Costumes 477

 

       Entre o númeno e o caos

               Sei bem que vemos o mundo com a nossa lente, interpretamo-lo como somos e a nossa bagagem é imensa. Os filósofos já no-lo explicaram há muito. Devemos a esses pensadores tanta coisa que parece quase impossível descobrir algo que seja uma novidade. Talvez não haja mesmo essa possibilidade. O que vier será um acréscimo, uma nuance mais do que já foi deslindado.

               Kant mostrou que a nossa mente molda a nossa experiência do mundo. Separou o mundo em númeno e fenómeno. O númeno seria o mundo em si, a exata realidade e o fenómeno o mundo que conseguimos perceber e interpretar. Significa que o númeno nunca é alcançado plenamente pelo Homem, porque este apreende a realidade a partir do seu aparelho cognitivo. Depois de Kant, surge Fichte, da escola de Jena e que foi mais longe, ainda. Para este, o mundo exterior, o númeno de Kant, o não-ich ou não-eu para Fichte é uma espécie de espelho  criado pela consciência humana para que possamos lutar contra ele, superar obstáculos através da ação e do esforço e, assim, alcançar a liberdade. Estavam lançados os primeiros alicerces do Romantismo alemão.  

Não abordei Fichte na escola, mas ainda ouço a professora Celestina a explicar o númeno e o fenómeno, citando a Crítica da Razão Pura.

Mais tarde, Schopenhauer, partindo da base de Kant, afirma que o mundo exterior é uma criação da nossa representação mental, ou seja, tudo quanto o Homem conhece é uma imagem filtrada pela sua própria consciência.

Nietzsche irá mais longe, ainda, e afirma mesmo que “não há factos, apenas interpretações”.

Hans-Georg Gadamer, já no século XX, mostra que a nossa interpretação do mundo é um diálogo constante entre o nosso contexto cultural, os nossos preconceitos, não no sentido pejorativo, mas antes no sentido de “pré-compreensões”, a bagagem de que somos feitos, afinal, e as novas experiências, interpretação construída através da linguagem e da história.

Não admira, portanto, que as opiniões sejam sempre como as cerejas. Na verdade, sobre o mesmo facto é legítimo pensar-se que poderá haver tantas interpretações quanto os indivíduos que sobre ele reflitam. Assim se explica que haja tanta sensibilidade e perceções diversificadas em relação à situação aflitiva (já estou a interpretar) que se vive na educação.

Tentei não embarcar na indignação precoce, certamente motivada pela ansiedade legítima vivida pelos colegas professores classificadores, nestes últimos tempos. Num primeiro momento pensei com os meus botões que poderia estar a ocorrer algum excesso de zelo, chamemos-lhe assim por parte de colegas. Aqui em casa há sempre dois que querem tudo para ontem e qualquer coisa gera ansiedade e outros dois mais tranquilos (um deles até em demasia) e que não gostam muito de antecipar cenários dantescos. No entanto, à medida que o tempo ia passando, a situação ia-se degradando e as opiniões convergindo.

Eu acredito nas boas intenções do ministro Fernando Alexandre e no seu otimismo. Não me custa a crer que ele imaginou ser perfeitamente possível implementar a digitalização dos exames com celeridade e competência. Enganou-se. Os professores avisaram. Têm anos de experiência e souberam prever o que poderia acontecer num processo apressado e pouco acautelado. Tentaram avisar, mas não foram ouvidos. Talvez o senhor ministro parta sempre da sua interpretação com base nos seus preconceitos, levando-o a fazer afirmações que nem ao Diabo lembrariam.

É uma pena. Eu gostaria mesmo que a nossa classe política compreendesse que o povo português seria capaz de passar por cima de uma incompetência. Se formos honestos connosco, verificaremos que somos, por vezes, incompetentes. Faz parte da condição humana.

Já é mais difícil perdoar a mentira descarada e um discurso falacioso em que se percebe que nem o próprio ministro acredita na enxurrada de falácias que oferece continuamente à comunicação social.

 É uma pena. Quando se falha e se admite o erro, pedindo um pouco de paciência para que se possa reparar o problema, os cidadãos, mais ou menos contrafeitos, geralmente, concedem-na. Não obstante, quando se começam a arranjar bodes expiatórios e fazer dos professores os cordeiros pascais, quando toda a gente percebe a verdadeira origem das dificuldades sentidas, a empatia torna-se difícil.

Senhor ministro, não lhe fica bem responsabilizar as escolas, os professores e os encarregados de educação. Espero que tenha compreendido que não pode mandar digitalizar todos os exames no mesmo espaço. Independentemente de haver mais gastos, precisa de mais equipas a trabalhar na digitalização, de preferência sem enganos, e de uma plataforma que funcione de forma eficaz. Nada disto se verificou e para cúmulo ainda se afixaram pautas incompletas, apenas para o senhor ministro poder dizer que garantiu os prazos.

Vi duas alunas em lágrimas pelo facto de o seu resultado ter sido: suspenso. Não se faz. Ou todos têm acesso ou não tem nenhum! O senhor ministro conseguiu somente incrementar a ansiedade dos que ainda aguardam uma classificação.

Nem professores nem alunos mereciam semelhante salgalhada e falta de respeito. Mereciam aplausos pela paciência que têm revelado. Peça desculpa ao país e agradeça aos seus professores por terem sustentado a casa no meio de caos, ainda que lhes tivesse tentado imputar uma culpa que não lhes cabe.

Desilusão será a palavra a marcar este final de julho. Espero que tenha aprendido a lição.

 

Nina M.

 

 

 

 

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