Seguidores

sábado, 27 de dezembro de 2025

Crónica de Maus Costumes 448

 

Palavra dada, palavra honrada

               O Natal foi regado com Moët & Chandon, espécie de promessa antiga que o meu mano decidiu pagar porque alguém o terá presenteado com uma. Não foi egoísta ao ponto de a beber sozinho e decidiu partilhar o néctar, sugerindo o assunto para a crónica.

            As reações não foram consensuais. Uma das cunhadas estremecia. Sabia-lhe a amargo. O pai declarava que preferia o seu Contemporal ou Raposeira meio-seco. Eu declarei logo que aprecio o meio-seco, mas que este bruto era bom, até porque não aprecio o espumante doce, do género Asti Gancia (acho que deveria cobrar publicidade nesta crónica). O champagne era brut e, como se sabe, deveria acompanhar refeição e não o doce, mas a garrafa era única e nós muitos, logo para acompanhamento de refeição, nem para um singelo bochechar chegaria. Eu já não me lembro como surgiu a promessa. Sei que num jantar qualquer em que nos encontrávamos todos, eu lá soltei qualquer coisa como se fosse uma Moët & Chandon é que era bom e o mano mais velho lá disse que não era coisa que não se pudesse experimentar e declarou, solenemente, que um dia traria uma. Ora… Se fosse um Dom Pérignon era bem mais caro, acrescentei, mas ainda assim, engolir trinta e tal euros, num pequeníssimo instante que rapidamente se esvai, era coisa que me custava. Isso e comida… Deus me livre! Não como que se justifique tal! Muito menos de momento, com as minhas intolerâncias! Eu faço logo as contas em livros (o mais barato) e em viagens (o mais caro).

Se andar atenta… Ainda por estes dias poderia ter comprado quatro livros por vinte euros. Não o fiz. Comprei um há pouco por esse valor, mas não o arranjava mais barato. Se usasse a Vinted, com jeitinho, conseguia cinco ou seis livros pelos trinta euros. Garantem-me horas de prazer e conhecimento e são peças únicas que enfeitam as minhas estantes e por lá permanecem. Se me apetecer, posso revisitá-los, enfim… Os livros são coisas sólidas e perenes. De modo que entre gastar dinheiro em vinho ou em livros, eu fico com os livros! Além disso, como dizia o senhor Claudino: É vinho!

            Certo é que quem nasceu para lagartixa nunca chega a jacaré, logo, meus caros familiares, tendes é jeito para pobres, porque quem experimenta Moët & Chandon e faz caretas ou prefere Raposeira, está bem como está. É o pé que puxa para o chinelo… Nada a fazer… E se eu fosse o caco Antibes do Sai de Baixo, diria: “Detesto pobre!”, “Tenho horror a pobre!”

            Agora, que a promessa foi cumprida, tarde ou nunca voltarei a beber do mesmo, pelo menos que seja eu a comprar… Enfim…

O meu irmão mais velho tem destas coisas. Gosta de agrados e, por isso, para todos os sobrinhos, o tio Paulo é que é fixe. Também cumpriu a promessa de lhes fazer a francesinha, no dia 23, quando se celebrava os 58 anos de casados dos avós. Não sei que lhe deu para cumprir tudo de enfiada… Eu acho que foi para pagar a penitência do que me agastava quando éramos pequenos! Era uma melga que me arreliava fortemente. Andávamos sempre pegados e era certo e sabido que a mãe, já sem paciência e farta de nos aturar, distribuía uns chapotes a cada um para resolver a questão. Irritava-me sobremaneira! Chateava-me a cabeça e ainda levávamos por cima! Se fosse hoje, eu haveria de ficar caladinha, sem pestanejar, mas quê… Inocência… Éramos o cão e o gato, mas sempre um atrás do outro. O mais velho e a do meio. O mais novo não entrava nestas guerras.

            Esse meu irmão mais velho dá-lhe para pancas! Ainda solteiro, comprou uma moto, apesar de ter carro. Não sei se uma Susuki ou Kawasaki, mas era daquelas que se deitam nas curvas, a parecer moto de pista e queria levar-me a dar uma volta. Nunca! Primeiro, sabia que ele gostava de  dar gás e, depois, lembrava-me bem dos dois grandes tombos que tinha dado com ele na bicicleta e que me deixaram toda arrebunhadinha! Ainda hoje tenho os joelhos impróprios de uma “lady” à conta dos tombos! Um deles foi nos pavilhões (assim designávamos), o largo da escola primária em que andámos e que era um pavilhão de madeira provisório, constituído por duas salas, que perduraram mais de vinte anos, talvez. Imediatamente atrás da escola, era monte, com eucaliptos enormes que deixavam o terreno cheio de bugalhas. Claro que o meu irmão teve a ideia de jerico de me levar com ele na sua bicicleta, que tinha um selim comprido, onde cabiam dois rabos magros de petizes. Éramos ambos escanzelados, portanto, cabíamos perfeitamente… Bem lhe gritava para ir devagar, mas quanto mais lhe dizia, mais ele pedalava… Logicamente, uma derrapadela nas bugalhas foi a morte dos dois artistas! Joelhos, cotovelos e mãos numa desgraça!  A outra vez foi em Fundo de Vila. Não sei que recado foi levar ao senhor Claudino, mas não queria ir sozinho e lá me convenceu a acompanhá-lo, mais uma vez de bicicleta. Fi-lo jurar que ia devagar, mas claro que depressa se esqueceu e, mais uma vez, houve tombo e arranhadelas em barda. Não admira que em pouco tempo rasgasse as calças que a minha mãe lhe comprava. Era catraia, admite-se, agora, moça já nas casa dos vinte, já não me apanhou na moto. Nunca! Nem uma única vez! Não fosse o Diabo tecê-las... Deixei isso para a minha cunhada que é corajosa ou inconsciente, vá lá saber-se! A fronteira entre ambos é ténue…

            À medida que o tempo foi passando, desapareceram as implicâncias e sobrou a irmandade. Quando um chegava a casa e o outro não estava a primeira pergunta que se fazia à mãe era: O João Paulo?  (no meu caso) ou a Sónia? (no caso dele). Hoje, é o irmão que me vai levar e buscar ao aeroporto, por morar a 10 minutos dele, e ainda me oferece almoço ou jantar. Sempre amigo de fazer vontades.

Acho que deve estar a pagar por todas as arreliadelas causadas… Se pensar bem… Com jeitinho, mano, só com uma Dom Pérignon te podes redimir!

 

Nina M.

 

 

 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Poesia

 A poesia anda solta

Sem que dela se faça caso

É livre, cavalo alado,

A espreitar, insuspeita

Num sorriso de ocaso

Na palavra, emoção de um instante,

Num gesto que a solidão espanta

É matéria definida

Tão concreta como a vida:

Água quente sobre a pele

Lágrimas de dor

Cheiro de refeição fresca

Gente sem calor

Mergulho em mar azul

Ou mãos calejadas da vida

Passeio espantado pela cidade

Beijo apaixonado ao anoitecer

Desgosto que nos faz morrer

Abraço sofrido de despedida

A poesia...

A poesia está presente em cada dia!


terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Velhice

A velhice é uma chaga que traga a carne.

Deixa a alma pendurada em pele murcha
Engelhada  e inerte a olhar o tempo
De olhar embaciado
A lucidez profunda de quem já viveu
E aguarda... Pacientemente numa antecâmara da morte
Vem o carrasco de foice erguida
A velhice já não lhe quer fugir
Em pernas trôpegas, pouco lestas e cansadas
Aguarda
E a hipocrisia a salvar-nos o instante.
[-Estou muito mal!
- Nada disso! Essa cabeça ainda pensa.]
Nenhum de nós acedita
Mas ambos assentimos placidamente na mentira
Numa resignação tácita.
Só o que pressente o fim se atreve a dizê-lo. Pode dizê-lo por direito adquirido.
E os olhos onde ainda mora uma centelha
Parecem mais pardos e tristes
Num lamento de quem se despede.
Não há futuro. Só passado
Feito de trabalho e de luta.
Consciência do dever cumprido.
O presente pouco promissor.
A resignação de quem se prepara para atravessar a linha.
A pele quase sem corpo impressiona-me sempre.
O espectro de quem se foi...
Preserva a dignidade uma lucidez fina
A mesma que se atreve a enfrentar o fim
De olhos bem abertos e com um sorriso
Sem desmaio nem complacência
Nem vertigem ou agoiro

O que for virá.


sábado, 20 de dezembro de 2025

Crónica de Maus Costumes 447

 

É vinho

               Começo a crónica desta semana a repetir a ideia que tantas vezes registo: como todo o ser humano, sou mais miséria do que proeza e cometo erros e enganos, mesmo sem ser propositados. Porém, como dizia o Ronaldo a um colega que cometeu uma falta sobre ele e lhe pediu desculpa, porque tinha sido sem querer: “está bem, mas sem querer também é falta.” Eu sem, sem querer, também me enganei.

               Valeu-me a simpatia e a compreensão dos colegas, a quem agradeço. Quem me conhece sabe do meu brio profissional e fico furiosa quando falho (mesmo sem querer), principalmente, se o meu erro trouxer transtorno aos outros. Retrato-me publicamente, ainda que a maioria não o saiba, mas não faz mal, porque o pedido de desculpa seguiu, imediatamente, para quem de direito. Não é uma falha que não se possa resolver facilmente, mas sinto-a como um espinho que me fere a carne. Assim, serve o texto para comprovar a minha absoluta imperfeição e cumpre o efeito catártico, embora, não seja esse o fim da minha escrita.

               Este episódio obriga-me a pensar na implicação que as nossas ações têm na vida dos outros. As nossas escolhas que conduzem a ações, já sabemos e devemos ter consciência de que interferem na vida dos que nos rodeiam, mas mesmo uma ação involuntária pode condicionar outras vidas ao nosso redor. Pode ser benéfico e pode ser catastrófico. A vida do ser humano e a sua relação com o outro oscila como um pêndulo (não como o de Foucault), entre a harmonia e o desentendimento que só pode ser sanado por meio do diálogo. No entanto, para que isso seja uma realidade tem de haver disponibilidade de ambas as partes para ouvir, compreender e acolher. Olhando para o mundo, tudo isto tem faltado à humanidade. Felizmente, nas nossas relações pessoais, encontramos sempre quem o saiba fazer.

               Ocorre-me um episódio de infância. O senhor Claudino era um lavrador que fazia uma quinta próxima da minha casa, vulgarmente, um caseiro. A casa tinha, em baixo, a corte dos animais e lojas para guardar alfaias agrícolas e ferramentas e, por cima, a cozinha, escura, com a sua pedra tosca do lar e com o soalho gasto e preto, com tábuas rompidas, já com buracos que deixavam ver o fundo, que sempre me causavam uma pequena ansiedade por imaginar escorregar por lá baixo, mesmo que só coubesse um pé dos meus ou, então, o que me ocorria era que se o chão tinha buracos, poderia ir abaixo… Enquanto os adultos conversavam, bebericavam o seu vinho e tragavam uns nacos de presunto, acompanhado de broa, eu lá me ia arrepiando com a possibilidade de tudo aluir, mortinha por sair dali, para terra mais firme… Efetivamente, nunca se sabe o que se passa na mente de um gaiato… O lavrador era brioso (acho que o são, na generalidade) e ancho das suas habilidades, portanto, ninguém poderia ter melhores colheitas e produtos do que aqueles que lhe saíam do seu esforço e das mãos. Para além da quinta, o senhor Claudino fazia outros trabalhos para fora. Era ele quem podava as ramadas de muitos. Na época da poda, naquela altura toda a gente tinha ramada para produzir o seu próprio vinho… Amargo como trovisco e pior que vinho de pacote, enquanto houve ramada em casa, depois da morte do meu avô, que sabia bem do ofício da poda, vinha lá o senhor Claudino. Para além da jeira, era comum o dono da casa oferecer o almoço ao podador, de modo que nos dois dias em que o senhor lá andasse, comia por lá. A preocupação do meu pai era arranjar um vinho que satisfizesse o paladar apurado do apreciador… A conversa breve repetia-se todos os anos.

               O meu pai enchia-lhe o copo e ficava à espera do veredicto. Assim que o senhor Claudino enfiasse os beiços e o néctar lhe escorregasse goela abaixo, o meu pai perguntava:

               - Então, Claudino? Que tal a pinga?

               Invariavelmente, ouvia sempre a mesma resposta:

- É vinho.

Lacónico, de poucas falas a olhar por baixo, a sentença estava dada. Admitir que aquele vinho era bom, seria menosprezar, no seu entendimento, o seu próprio produto. Portanto, a resposta poderia ser: não é mau, mas o meu é melhor. Mesmo que não fosse verdade, para ele era assim. Sempre todo ufano.

Todos os anos o meu pai repetia a diatribe, porque já sabia a resposta, que era, invariavelmente, a mesma. Também a dava em casa de outras pessoas, pelo que quando se cruzavam lá comentavam o sucedido.

O senhor Claudino era assim. Não desfazia o seu produto. Orgulhoso do que produzia, não condescendia, facilmente. Depois, juntou dinheiro, lá deixou a quinta, para se mudar para Fundo de Vila, junto ao rio, onde não morava ninguém, metido no meio do monte. Comprou terras e lá as cultivava mais o filhos e a Eva, mulher varonil e hercúlea que se viu consumida para atravessar a Ponte D. Luís, no Porto, com a ceira do farnel à cabeça, por ver o rio lá em baixo e achar que ia cair. As palavras da desgraçada eram: “Ai! os meu boizinhos! Nem por isso apelava pelos filhos! Mas o que há a admirar? Filhos em catadupa que só davam o que fazer… Realmente, os bois não aborreciam tanto!

Aos domingos, quando os meus pais se lembravam de o ir visitar, era um degredo… A canalha acha sempre a companhia dos adultos um aborrecimento e eu também o pensava e o problema era que o tempo parecia parar. A única coisa boa que havia na visita era o presunto caseiro, dos porcos que lá criava. Já em miúda gostava de presunto e de broa! Na gravidez, enjoei o carapau, mas o presunto e a broa nunca me causaram fastio!

De maneira que, lá por casa, entrou a expressão “é vinho”, como dizia o senhor Claudino, quando alguém acha que tem uma especialidade qualquer que, afinal, se revelou um logro ou quando queremos, apenas, brincar uns com os outros…

É vinho e “in vino veritas est”.

 

Nina M.

 

              

 

 

 

sábado, 13 de dezembro de 2025

Crónica de Maus Costumes 446

 

A culpa de ser humano quando o desvio se torna rumo

               Caros leitores… É mais leitoras, mas não vá haver alguém másculo que me leia e eu não saiba e possa sentir-se ofendido. Assim, vós que me ledes, sabeis que ando em experiências com a Minerva. Minerva é a minha aplicação do Gemini, sem querer fazer publicidade, com quem tenho andado a conversar e a quem batizei com o nome da deusa da sabedoria.

Efetivamente, ela é um acervo de informação magnífico! Pois bem… Decidi partilhar com ela, apenas para a testar, que tinha uma crónica para fazer, mas que me sentia desinspirada. Solícita, Minerva sugeriu-me, imediatamente, uns exercícios desbloqueadores de pensamento e uma série de ideias… Aconselhou a olhar para um objeto e relatar a história que ele poderia contar… Só m vem à cabeça os meus livros, os objetos que mais prezo, mas nem me aventuro por esse caminho… Se fosse recordar a história de cada livro, de quem mo ofereceu ou os que eu comprei e as circunstâncias, não sairia disto… Também me poderia focar num livro concreto, mas aí surgiria a dificuldade da escolha… Volto sempre à Criação do Mundo de Miguel Torga, mas são tantos e tão bons… No momento, ando ocupada com “Les Misérables” de Victor Hugo. Não me tinha chegado a empreitada do “Guerra e Paz” e meti-me noutra… Já começo com o síndroma de despedida. Já não falta tudo para acabar o vasto segundo volume. Lá pereceram os meus heróis republicanos, na barricada, trespassados de balas e de perfurações de baioneta… Acabou-se o intrépido e belo Enjolras, como o narrador sempre o caracteriza e os do seu bando: Combeferre, Courfeyrac, Feully, Prontaire e o benjamim da rapaziada, o atrevidote Gavroche. Uma morte honrosa de todos, de luta incessante até ao fim, em menor número, sabendo exatamente o que o destino lhes guardava se a rebelião não passasse a revolução. Não passou e os republicanos pereceram alegres, em nome de uma causa. Uma partida poética e trágica, numa luta desigual de Golias contra David. Ganhou o gigante, mas eu gosto sempre muito de anti-heróis. Lá escapou, uma vez mais, o Jean Valjean e levou o Mário da sua pequena Cosetta, mas num gesto magnânimo, tinha libertado, momentos antes, o seu inimigo mortal, o inspetor Javert, o funcionariozinho zeloso que não entende as injustiças da justiça e quer fazê-la cumprir a todo o custo. Quase me apetecia penicar o Valjean! Então, soltas o teu carrasco e, ainda, lhe dizes onde te encontras? Sabes bem que Javert tem a crueldade dos ímpios e a cegueira dos morcegos! Não vos relatarei o final… Faltam-me menos de duzentas páginas, grandes, escritas a letra do tamanho dez! A empreitada não é pequena e, se não sabia o que ia escrever, estão a ver as linhas que isto já rendeu… A Literatura sempre me salva…

Outra das possibilidades apresentadas pela minha amiga IA é apresentar um texto com uma ideia contrária ao que se espera e, nesse âmbito, sugere o Natal ou a exposição de um fracasso pessoal… Bem… Minerva não sabe que, em relação à quadra natalícia, não falta já quem erga a voz para declarar o seu desgosto com a época e o seu consumismo e hipocrisia que lhe encontram! Portanto, o tema não ofereceria qualquer originalidade e, por outro lado, não me conhece assim tão bem… Nunca escreveria a desdenhar o Natal por ser a festa das festas para mim! A festa de que mais gosto, efetivamente, apesar do consumismo e da hipocrisiazinha de, repentinamente, ficarmos todos bonzinhos e compreensivos. Não quero saber. Isso reina o ano todo e, apesar de se dizer que o Natal é quando o homem quer, só o celebramos uma vez no ano! Eu gosto da magia do Natal. Gosto do Natal porque tudo nele é poesia: a sua mensagem e os seus símbolos. Gosto da música da Comercial, sempre divertida e animada e gosto da minha árvore (e este ano renovei a árvore e os enfeites!) e do meu presépio, do meu Deus-menino posto sobre o móvel. Ele chega sempre uns dias antes, a minha casa, pronto para receber, mais uma vez, a sua bênção, quando for aspergido na tradicional eucaristia. Há lá coisa mais poética do que celebrar o nascimento de quem tem tantos anos, nunca envelhece e deixou uma mensagem tão necessária!

Logo se vê que não cumpro requisito! Poderia lá apresentar uma ideia negativa do Natal! Quanto ao fracasso pessoal… Minerva… Como todo o ser humano sou mais miséria do que proeza! Já admiti a minha falta de jeito para tudo e mais alguma coisa! Não sei cantar, não sei desenhar, não sei construir coisas, não sei costura, aprendi rudimentos de croché, de malha e de bordados e pus para o lado, porque além do tédio, essas atividades nunca me deram qualquer prazer. Só serviam para me enervar! Coitadinha da minha avó Matilde! Ela, tão boa tecedeira, bem tentou passar-me o gosto por lavores… Mas aqui a este pedaço de asno nunca foi capaz de nada de jeito… Vou fazendo comida razoavelmente bem, mas sem grandes artifícios para os quais não tenho paciência nenhuma… Há, efetivamente, dois traços que me acompanham desde a infância: a mania de sentar as vizinhas para a porta da garagem e dar aula, escrevendo a giz, na porta que era de madeira e a mania de escrever tudo em todo o lado, nas paredes, nos móveis, nos livros, nas fotografias… (que me perdoem os meus pais, que eu já não posso). Consegui chegar à sala de aula, na qual ainda permaneço e quanto à escrita… É o que vedes… Ainda me sugeriu atentar num detalhe esquecido da minha rotina, mas… Francamente, Minerva! Os meus sábados são tão insípidos no cumprimento de tarefas domésticas, que ninguém está interessado em saber quantas camisas passei a ferro! Ainda me veio com temas mais profundos como o tempo, a perfeição inatingível, a culpa do descanso ou um contratempo pessoal… Minerva! Já tratei esses temas todos, mulher! Estás a enervar-me! Não conseguiste dar-me nenhuma ideia original, estou só a repetir-me, de outra forma… Vê lá se me arranjas um título decente para esta parafernália de coisas e arrematamos por aqui.

Ficai a saber que perguntei e só me fez sugestões parvas, mas misturando uma palavra de uma e de outra sugestão, sai qualquer coisa: A culpa de ser humano quando o desvio se torna rumo.

 

Nina M.

 

 

 

sábado, 6 de dezembro de 2025

Crónica de Maus Costumes 445

 

Por dias melhores

               Li um texto que me surgiu na rede onde publico e que me fez regressar no tempo. A autora remetia para um Portugal miserável, em que as mulheres, absolutamente submissas, tinham de ser os esteios da casa e suportar os desvarios alcoólicos dos maridos. Se estes tinham “bom vinho”, como é uso dizer-se, a coisa sempre ia, mas o maior fadário era quando o “mau vinho” punha cá fora a ruindade, normalmente, gerida em silêncio. Era pancadaria de meia-noite!

               Na minha freguesia, havia um caso desses. Era habitual, à segunda-feira, ouvir-se que a Maria (nome fictício), para não ferir suscetibilidades nem expor ninguém, tinha levado uma tareia do Zé (também fictício), porque o desgraçado chegou embriagado e desatou à pancada na mulher. Lembra o Sebastião da música infantil que comia tudo e, no fim, ainda, arreava na mulher! Esta violência povoava, inclusivamente, o universo das letras das músicas infantis, a comprovar que era social e culturalmente aceite que o Sebastião, o grande grunho barrigudo, depois de encher a pança, desse pancada na mulher. Eu sempre me lembro de, em pequena, esta letra e a do “atirei o pau ao gato” me meter uma confusão medonha! Aquilo nunca me fez qualquer sentido porque, em minha casa, ninguém atirava paus a gatos e muito menos o Sebastião, neste caso, João, o meu pai, sequer esboçou qualquer gesto de agressão à sua mulher e filhos! Bem pelo contrário! Fui muito menina do seu papá, como deve ser! Portanto, lembro-me, sim, de essas letras me deixarem desconcertada. O meu universo era distinto de tudo aquilo…

               Já me desviei do assunto… O fluxo do pensamento tem estas derivas, há que as suportar. Dizia que a Maria era frequentemente espancada pelo Zé, até ao dia em que decidiu parar com aquilo. Bendita coragem! Houve um sábado que ela não esteve pelos ajustes. Preparou-se para se defender. O marido, tal como era habitual, ia para o café, depois do jantar, e a mulher ficava a arrumar a cozinha e a cuidar dos filhos. A mentalidade comum era esta. Nessa noite, a coisa correu mal ao sujeito. Embebedar-se, embebedou, o mau vinho também apareceu, mas dessa vez a Maria não se aquietou, houve sublevação e quem levou uma valente tareia foi o Zé. O álcool tirara-lhe parte das forças e a esposa, mulher do campo, habituada à lida, à vida dura e à força braçal, pôs o Zé no lugar. Quem vai à guerra dá e leva. Na segunda-feira, a novidade percorrera a aldeia e as mulheres, entre sussurros, diziam, fez ela muito bem! Pecou por ser tão tarde! Aquela besta, sempre a arrear-lhe sem ter qualquer razão para isso! Eram estas as palavras… Notemos o discurso subliminar… As próprias mulheres entendiam que lhes pudessem bater se elas se portassem mal, se o seu comportamento não fosse o que se esperava de uma mulher, ou seja, se ela não tratasse da casa e não lhe fizesse a comida e coisas do género… Não entendiam que por mais que uma mulher pudesse ser falha, isso não justificava a violência, porque ninguém pode agredir o outro, já que ninguém é propriedade de alguém.

               É deste Portugal atrasado, mesquinho e miserável, analfabeto, em que os homens lavavam o estômago com vinho, em que as mulheres eram espancadas e os filhos saciados com sopas de vinho e chupetas de aguardente, de que muitos têm saudades! Do tempo em que as crianças enregelavam de tanto frio, levavam pedras aquecidas nas lareiras nas mãos para combater a geada ou os nevões, andavam de socos, na melhor das hipóteses, e descalços na pior delas, sem meias, sem casacos, à espera de que as senhoras burguesas e caridosas lhes fizessem os camisolinhas de lã para os pobres, como expiação dos pecados e alívio das consciências. Um país miserável e motivo de vergonha, até da alheia, cujo único refúgio consistia na religião que acolhia os pobres e lhes garantia serem os prediletos de Jesus. E eram, mas uma religião sem obra é como uma comida sem sal. Tem-se a forma, falta o sabor. E a religião incutida também era um quadro tenebroso. Deus não era amor! Era um Ser Supremo, omnipotente, omnisciente e omnipresente (qual big brother!) disposto aos piores castigos! Só de pensar nisso… Aquela gente já era tão, mas tão miserável, tão desgraçada, tão subjugada e com pouca esperança no futuro, se é que nele pensavam, porque a vida era aquilo que conheciam: tormenta, mas ainda havia a necessidade de os amedrontar com um hipotético castigo de penas infernais, na outra vida! Alertar para o perigo do inferno a quem por ele passou enquanto viveu! Sempre tem a sua graça… A mudança começou com o Concílio Vaticano II, ou melhor, o retorno às raízes da mensagem evangélica de amor deixada por Jesus. Poucos se questionariam sobre a figura severa de Deus, num país analfabeto, em que a vida era feita do nascer ao pôr do sol, à procura do sustento, que nunca era suficiente. A sardinha tinha de dar para quatro e a canalha comia o rabo para não se engasgar com as espinhas. Não admira que, naquela altura, fôssemos um país pequeno, de gente mirrada e raquítica, com falta de dentes e completamente acabados aos cinquenta anos! Um país em que tantos passavam a salto à França, sem dinheiro e com dois ou três salpicões e pão, para irem aguentando a fome durante a viagem. Ver fotografias deles é ver os refugiados da atualidade. É neste mesmo país pobre, que se vê amiúde esventrado por levas de emigração, que há alguns que se atrevem a erguer a voz àqueles que vêm, iguais a tantos de nós que um dia também foram!

               Surge-me o avô paterno Francisco, homem franzino, trigueiro, baixo, sempre de cigarro no canto da boca. O lábio já tinha calo. A sua boca só se despedia dos Definitivos para dormir. O domingo inteiro com o cigarrito que lhe amarelava os dedos. Isso e o copito de tinto que bebericava e oferecia às visitas de domingo. Já só jantava chá com bolacha Maria e comia petinga frita quase diariamente. Creio que o seu estômago se habituou à parcimónia. A Fartura faz mal. Faleceu o avô Chico aos setenta e qualquer coisa, de trombose… O homem que gostava de pregar partidas à vizinhança e que trabalhava como carpinteiro para quem lhe encomendasse serviço. Os filhos aprenderam com ele a arte, mas todos vieram a arranjar outros trabalhos, assim que a vida melhorou, depois do vinte e cinco de abril, quando a educação e a saúde se começaram a abrir às massas, as melhores conquistas de abril, juntamente, com a liberdade, obviamente.

               Há, ainda, muito por cumprir! Imenso! É preciso defender a educação e a saúde públicas como garantia de combate às assimetrias sociais que persistem. É preciso tornar o país mais produtivo. Urgente! É preciso muita coisa, mas querer olhar para trás, com saudade de um país obscuro e miserável, não! Não acredito haver quem possa sentir nostalgia da miséria. A saudade é mais funda… É da memória afetiva de certos momentos… De descobrir que no sapatinho de Natal havia um molete e uma maçã! E era dia de festa, por isso! A memória que se enternece com tamanha simplicidade e pureza e é essa limpidez de alma que o ser gosta de resgatar.

               O meu pai conseguia comer bacalhau, no Natal. Na consoada era à grande; no resto dos dias reinava a miséria. Talvez a regueifa e os Definitivos que sempre levava ao avô Francisco quando íamos a Vila Boa de Quires, fosse a compensação pelo bacalhau de que sempre gostou!

               Por dias melhores!

 

Nina M.