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sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Desespero


Sob o desespero de uma angústia em sangue
Que vê um destino por cumprir
Continua a Terra em perpétuo movimento
Com sobranceira indiferença...
Sucedem-se estações e solstícios 
Operam-se milagres e desalentos
Neste passar de tempo...
Surge um poeta descalço ao relento
Vindo do sonho de alguém
Vem da noite escura que o abraça
E ampara do frio gélido da alma
Nenhuma onda se revoltou
Nenhum raio no céu triunfou
Nenhuma lágrima caiu de um rosto puro
Nenhum gesto se esboçou...
Ser desgraçado do mundo
Orienta-se pela estrela cintilante da sua loucura
Acesa, incandescente e violenta
Aurora boreal de sentidos desencontrados
Só ele sabe, sente e vive
Tudo o resto é vida que passa
Em sua marcha lassa
Para a inexorável finitude
 

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Quase

Este ser quase
De quase ser
Que não conduz a lado algum
A não ser à consciência 
De que se passa quase ao lado do sonho... 
Caminhada de Sísifo que se recusa terminar
Alienação, loucura e destempero
O quase almejado
O quase conseguido
O quase grande
E o quase inteiro...
Este ser quase
Que cospe no rosto
O que se falha ser 
E se ri de escárnio...
Eis que chega o terror do quase
O pavor da mediocridade
O quase arrasador do ser ontológico
Que se vê passar à deriva...
O quase muito bom e não ser muito bom a nada
Um quase que apetece rasgar e estraçalhar
para que se desapegue do corpo e da alma
Fazer do quase bocadinhos incoláveis
Num rútilo desejo de quase vingança!
Quase...

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Encontraste-me inadvertidamente
Tropeçaste numa palavra minha
E quem nada espera, nesse desprendimento
Descobriste a alma que eu tinha
Devagar, tranquilamente, em conversa amena
Rompias a ânsia que em mim havia
Então, sem que o soubesse,
Minha alma em ti já se perdia
Nem solitária nem triste a caminhada
Pois se a ti minha essência entregava
A cada resposta tua, era tua a presença que chegava
Chegou tão de mansinho e para nada perturbar
Tão suave, tão doce e tão bela, que não quis renunciar
Somente de amor feita
Esta linda reciprocidade
Viva assim satisfeita
Plena de felicidade
Se neste sentir houver mal
Todo ele será perdoado
Encontro tão providencial
Não há de ser condenado 
Desejo, desafio, loucura ou filosofia...
Talvez apenas amor sob forma de poesia!

Irrompes alma dentro
Senhor dos meus anseios
Serena, então, meus receios
Suspende e isola o tempo
Constrói novo mundo e alento
Numa nova dimensão
Simplesmente, dá-me a mão
Afasta este cansaço
De um coração já lasso
Feito de inquietação
Serenidade madura,
Deixa que o sonho prossiga
paralelamente à realidade
Que seja ele a cura
Da ânsia louca de verdade
E no mesmo paralelo
Viva o concreto e a fantasia
Seja a vida sadia
Acabe-se já o duelo
Como um beijo suave
À prova de maiores terrores
Lava esta essência grave
Junto à Fonte dos Amores!

domingo, 5 de agosto de 2018

Saudade


Chega a saudade
Não do que houve
Mas do imaginado
Do que teria sido se houvesse...
Pobre e velha ilusão
Estagna nas calhas da razão
Sem razão alguma
Impõe-se a quimera vã
Faz-se presente mesmo ausente
Mesmo surda e muda e cega
Longe, afasta o momento
O sonho de além
E se te buscam sem cessar
Quedam-se sempre aquém
De ti e de além mar ...

sábado, 4 de agosto de 2018

Angústia

Na angústia de um pesar
De um ser oprimido
Surge a poesia envolta em nevoeiro
Dissipam-se as nuvens
Eis que surge a luz
Ténue brilha
Ténue ilumina
Ténue cintila
Ténue se impõe à escuridão
Mansa e serena brilha
Renuncia consciente à exaustão

Crónica de Maus Costumes 93



Hoje, através das redes sociais, fui surpreendida por mais uma pérola relativamente à atuação deste Governo e Ministério da Educação, no que diz respeito à condução dos destinos da Educação no nosso país. Surpreendida quanto à celeridade demonstrada em legislar e não em relação ao conteúdo, uma vez que sucessivos Governos têm sido peritos em brindar os professores e, por arrasto, o Ensino deste país com medidas manhosas, cobardes e de canalhice pútrida. É só mais uma!
Refiro-me, como facilmente já se terá percebido, ao Artigo 35º, Conselhos de Avaliação, da Portaria nº223-A/2018 de 3 de agosto, onde pode ler-se o seguinte:
(…)
5 – O funcionamento dos conselhos de docentes e de turma obedece ao previsto no Código do Procedimento Administrativo.
6 – Quando a reunião não se puder realizar, por falta de quórum ou por indisponibilidade de elementos de avaliação, deve ser convocada nova reunião, no prazo máximo de 48 horas, para a qual cada um dos docentes deve previamente disponibilizar, ao diretor da escola, os elementos de avaliação de cada aluno.
7 – Nas situações previstas no número anterior, o coordenador do conselho de docentes, no 1º ciclo, e o diretor de turma, nos 2º e 3º ciclos, ou quem os substitua, apresentam aos respetivos conselhos os elementos de avaliação previamente disponibilizados.
(…)
Curiosamente, quiseram despachar a legalidade da questão, sem discussão ou reflexão ponderada sobre o assunto, aproveitando as férias e a tentativa que muitos docentes fazem de se desligarem da escola neste período, como forma de reequilíbrio para enfrentar o próximo ano letivo.
Devo, certamente, felicitar o Governo e Ministério da Educação pela sua audácia, frontalidade e coragem…
Para os mais distraídos, esta portaria significa apenas isto: o direito inviolável à greve e previsto na Constituição foi-nos retirado. Não por completo, obviamente, mas de forma traiçoeira, usando o chico-espertismo português que rejeito veementemente, porque me enoja profundamente! Podemos continuar a fazer greve às avaliações, porém, os efeitos desta serão nulos! Assim, será apenas perda de tempo e de dinheiro!
Volto a repetir-me, mas insisto na ideia, é desta forma, através de uma lei suja, que não respeita os direitos democráticos de um povo que se instaura uma ditadura…
Assim, reparem todos aqueles que desconfiaram da ilegalidade das notas informativas e comunicados veiculados… Se houve necessidade de legislar agora nos termos em que foram realizados os Conselhos de Turma, significa apenas que àquela data, o Código de Procedimento Administrativo não se adequava à nossa situação em particular! Insisto novamente, o que nos fizeram e continuam a fazer é de uma desfaçatez hedionda e absolutamente nojenta! É uma medida antidemocrática e desrespeitadora dos direitos conquistados à custa do suor alheio que se bateu por abril!
Aguardo a criação do “fundo judicial e que ao que parece está para breve, para o qual contribuirei de bom grado, para que o Estado Português seja devidamente processado relativamente ao que se passou.
No que a esta nova legislação diz respeito, imagino que as plataformas sindicais devam estar satisfeitíssimas, com exceção da que todos nós sabemos! Agora todas as greves serão feitas de mansinho e com custos elevadíssimos para o bolso de cada um! Não será difícil imaginar a desunião que tal medida poderá causar e que só beneficiará os próximos Governos!
Perante isto, o que fazer?! Continuarei a exercer o meu direito de voto, de forma absolutamente consciente e se há quem diga que nos próximos 942 (nove anos, quatro meses e dois dias) não votará no maior partido do Governo, provavelmente, multiplicarei isso por dois! No entanto, a oposição que não se iluda muito, porque também não me levarão no engodo!
Para finalizar, deixo-vos um trecho do grande Eça, sempre atual, pertinente e mordaz, que podem e devem ler na íntegra, na sua Correspondência de Fradique Mendes. Também eu saúdo os Pachecos deste país que nunca fizeram nada nem nunca  tiveram o vislumbre do mais pequeno delírio de uma bela ideia, mas povoam os bancos da Assembleia que nos governa! Assim está o estado da nação!
“ (…) Às vezes, porém, quando a oposição se tornava clamorosa, Pacheco descerrava o braço, tomava com lentidão uma nota a lápis:--e esta nota, traçada com saber e maduríssimo pensar, bastava para perturbar, acuar a oposição. É que o imenso talento de Pacheco terminara por inspirar, nas câmaras, nas comissões, nos centros, um terror disciplinar! Ai desse sobre quem viesse a desabar, com cólera, aquele talento imenso! Certa lhe seria a humilhação irresgatável! Assim dolorosissimamente o experimentou o pedagogista, que um dia se arrojou a acusar o Sr. Ministro do Reino (Pacheco dirigia então o Reino) de descurar a Instrução do País! Nenhuma incriminação podia ser mais sensível àquele imenso espírito que, na sua frase lapidária e suculenta, ensinara que «um povo sem o curso dos liceus é um povo incompleto». Espetando o dedo (jeito sempre tão seu) Pacheco esborrachou o homem temerário com esta coisa tremenda:--«Ao ilustre deputado que me censura só tenho a dizer que enquanto, sobre questões de Instrucão Pública, S. Ex.a, aí nessas bancadas, faz berreiro, eu, aqui nesta cadeira, faço luz!» --Eu estava lá, nesse esplêndido momento, na galeria. E não me recordo de ter jamais ouvido, numa assembleia humana, uma tão apaixonada e fervente rajada de aclamações! Creio que foi daí a dias que Pacheco recebeu a grã-cruz da Ordem de Sant'Iago. (…) ”
Ora, caros colegas, se de cá fazemos berreiro, pelos vistos, de lá há quem faça a luz! Só não entendo como só vejo escuridão!