O homem que filmou o escuro
No espetáculo do Martim Sousa Tavares, ouvi algumas histórias e uma das mais engraçadas foi passada com o realizador João César Monteiro. Esse mesmo. O cineasta que colocou o público a ir ao cinema para olhar para um ecrã escuro durante a maior parte do filme, apenas com a leitura do guião, numa espécie de voz off. Ironia suprema: o filme chamava-se Branca de Neve, mas o ecrã ficava preto.
O público não gostou. Sentiu-se enganado. A película tinha sido financiada por entidades públicas, ligadas à cultura, envolvendo muito dinheiro, cerca de 130 mil contos, o que equivaleria a 650 mil euros, na atualidade. Evidentemente, o realizador não foi poupado a críticas, apelidado de maluco lunático, na melhor das hipóteses; de ladrão de contribuintes, na pior.
Porém, João César Monteiro era alguém fora dos padrões. Ele pretendia passar a mensagem de que há textos tão belos que dispensam a imagem. A imagem, dizia ele, distrai, desviando o foco da beleza textual. Ele já contestava a ditadura da imagem para valorizar a beleza da palavra. O público não compreendeu nem aceitou semelhante explicação, o que levou o cineasta a proferir a famosa frase: “eu quero que os portugueses se fodam”.
Naturalmente, se a audácia de fazer um filme auditivo, quase sem imagem, caiu mal, a injúria proferida ao povo não lhe foi perdoada. O caso lavrou muita tinta nos jornais e foi assunto à mesa do café. Num gesto polémico de humor cáustico, o realizador terá enviado uma quantia irrisória ao Estado como “reembolso”, acompanhada de um comentário sarcástico, após o ICAM (atual ICA) ter reduzido o subsídio a metade, após a estreia.
João César Monteiro era um provocador. Hoje, talvez a maioria sorria ao lembrar-se deste episódio; na época, foi considerado persona non grata. Efetivamente, num dos seus filmes, ele usa a frase em relação ao dinheiro que lhe dão: “Eu vou gastá-lo mal.” César Monteiro teve talento para o gastar mal.
Foi ele o autor do documentário de Sophia, realizado no Algarve, numas férias da família. O realizador ligou à poeta (Sophia queria ser chamada de poeta e não de poetisa) e esta acedeu, convidando-o para ir ter ao Algarve. Numa das cenas, grava a família no mar. Acontece que uma das familiares não mergulhava como Monteiro pretendia. Ele entrega a câmara ao barqueiro e atira-se à água para exemplificar. Conseguiu mergulhar, mas tardava regressar à superfície. É, então, quando um tio do Martim comenta: “Se calhar, ele está a afogar-se”. O pai e o tio do maestro mergulham e, na verdade, salvam o cineasta. Refeitos do susto, o realizador esclarece que não sabia nadar! Será difícil compreender o que lhe terá passado pela cabeça para se atirar à água sem saber nadar. Deve ter contado com a perícia dos nadadores, mas arriscou-se bem!
Esta e outras narrativas serviram para mostrar como somos feitos de histórias e como, nalguns casos, se atinge a imortalidade. Um homem só está morto quando não houver mais ninguém que dele se lembre. Quando lembramos os nossos mortos ao partilhar uma história comum, estamos a fixar a memória deles e a torná-los imortais. Os grandes artistas são recordados com uma certa nostalgia, até por aqueles que não os conheceram, e muitos são idolatrados post-mortem. Foi o que ocorreu com este cineasta português. Após a morte, a irreverência foi catalogada como genialidade e os críticos de cinema internacionais, principalmente os franceses, compararam-no a Jean-Luc Godard.
São vários os exemplos em que o reconhecimento maior chega após a morte, basta-nos pensar em Pessoa. No entanto, para nós, comuns mortais, a imortalidade nesta vida é menor e vem com prazo. Duraremos até que os nossos familiares e amigos se lembrem de nós. Quando formos apenas um nome perdido numa genealogia encomendada, sem que ninguém dê por nós, chegamos ao fim. Teremos alcançado o chão do mar, onde César Monteiro correu o risco de repousar.
Nina M.
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