Viagens e cansaços
A fadiga é muita e só por comprometimento alinhavo
meia-dúzia de palavras. A leitura da crónica de Gonçalo Cadilhe, conhecido pela
sua escrita de viagem, deixou-me a pensar.
O autor, pródigo andarilho e que
conhece o mundo nos seus infinitos recantos, afirma que muito lhe falta
conhecer, ainda. Imediatamente estabeleço comparações. Se este homem tece esta
constatação que direi eu? Só poderia considerar-me uma analfabeta de mundo.
Conheço algumas coisas, mas ao pé deste viajante, o que conheço caber-lhe-á no
bolso de um casaco.
Surpreendeu-me, por isso, o conceito
do síndrome de Stendhal, que desconhecia, por completo. O próprio autor que deu
nome à “doença” o clarificou: o desânimo e a tristeza sentidos quando, na
primeira viagem a Florença, se apercebeu de que o tempo de que dispunha era
manifestamente insuficiente para albergar tanta descoberta e conhecimento. O
ser sente-se incompetente para conseguir apreender tudo o que os sentidos lhe
fazem chegar. Aí, surge a comoção.
Compreendo
bem Stendhal, porque Florença causou-me o mesmo impacto. E, agora, Praga. São
aqueles lugares com os quais nos identificamos de imediato, como se, de alguma
forma, o nosso ser ali tivesse pertença. Não acontece com todos os locais, por
mais belos que estes possam ser. Há uma espécie de magia que nos liga por um
fio invisível a sítios que visitamos pela primeira vez. A riqueza
despretensiosa destas cidades acolhedoras agrada-me, assim como a alegria
traduzida em conversas na rua, uma certa boémia que lhes confere charme.
Pelos vistos, ao Cadilhe, terá sido
o Egipto a causar-lhe o mesmo efeito. Não nego, à partida, o que desconheço,
mas não me imagino propriamente apaixonada por este país, apesar da sua importância
para a história da humanidade e da biblioteca de Alexandria.
Certo é que viajar é sempre
prazeroso e o contacto com a realidade de outro país e de outros povos permite
criar empatia pela diferença, aprender a respeitar outras culturas, enfim, a
saber viver num mundo cada vez mais global.
É o medo do outro que origina a
discriminação, mas quando compreendemos que o forasteiro não vem para subtrair,
mas para somar, passamos a olhar o mundo por outro prisma.
Viajar é bom e a “democratização”
das viagens de avião, uma benesse que não se pode perder.
Nina M.
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