Seguidores

sábado, 11 de abril de 2026

Crónica de Maus Costumes 463

 

Viagens e cansaços

               A fadiga é muita e só por comprometimento alinhavo meia-dúzia de palavras. A leitura da crónica de Gonçalo Cadilhe, conhecido pela sua escrita de viagem, deixou-me a pensar.

            O autor, pródigo andarilho e que conhece o mundo nos seus infinitos recantos, afirma que muito lhe falta conhecer, ainda. Imediatamente estabeleço comparações. Se este homem tece esta constatação que direi eu? Só poderia considerar-me uma analfabeta de mundo. Conheço algumas coisas, mas ao pé deste viajante, o que conheço caber-lhe-á no bolso de um casaco.

            Surpreendeu-me, por isso, o conceito do síndrome de Stendhal, que desconhecia, por completo. O próprio autor que deu nome à “doença” o clarificou: o desânimo e a tristeza sentidos quando, na primeira viagem a Florença, se apercebeu de que o tempo de que dispunha era manifestamente insuficiente para albergar tanta descoberta e conhecimento. O ser sente-se incompetente para conseguir apreender tudo o que os sentidos lhe fazem chegar. Aí, surge a comoção.

Compreendo bem Stendhal, porque Florença causou-me o mesmo impacto. E, agora, Praga. São aqueles lugares com os quais nos identificamos de imediato, como se, de alguma forma, o nosso ser ali tivesse pertença. Não acontece com todos os locais, por mais belos que estes possam ser. Há uma espécie de magia que nos liga por um fio invisível a sítios que visitamos pela primeira vez. A riqueza despretensiosa destas cidades acolhedoras agrada-me, assim como a alegria traduzida em conversas na rua, uma certa boémia que lhes confere charme.

            Pelos vistos, ao Cadilhe, terá sido o Egipto a causar-lhe o mesmo efeito. Não nego, à partida, o que desconheço, mas não me imagino propriamente apaixonada por este país, apesar da sua importância para a história da humanidade e da biblioteca de Alexandria.

            Certo é que viajar é sempre prazeroso e o contacto com a realidade de outro país e de outros povos permite criar empatia pela diferença, aprender a respeitar outras culturas, enfim, a saber viver num mundo cada vez mais global.

            É o medo do outro que origina a discriminação, mas quando compreendemos que o forasteiro não vem para subtrair, mas para somar, passamos a olhar o mundo por outro prisma.

            Viajar é bom e a “democratização” das viagens de avião, uma benesse que não se pode perder.

 

Nina M.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sem comentários:

Enviar um comentário