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sábado, 12 de abril de 2025

Crónica de Maus Costumes 416

 

Um par de meias de lã

               Escrevo em modo confortável. Antes de me sentar, visto o pijamas e calço as meias de lã que impedem que os pés arrefeçam. Olho-as. São industriais. Ainda assim recordam-me a minha avó.

            Ela tricotava meias e aproveitava o resto dos novelos, no tempo em que as mães tricotavam as camisolas dos filhos, à noite, depois de jantar (que era sempre cedo) e de arrumar a cozinha. Agarravam nas agulhas e lá estavam um pedaço entretidas, com o fio sobre o pescoço, numa espécie de jugo, e o pedaço feito de camisola a escorregar-lhes sobre o regaço. Enfiavam as malhas cada vez mais apertadas pelo peso, com as agulhas pontiagudas e pesadas, num movimento sincopado e síncrono, quase automático. Nem precisavam de olhar, que a agulha sabia o caminho. Enfia a agulha direita na malha da esquerda, dá a laçada com a ajuda do polegar e puxa, a fazer mais uma malha, ponto de meia. Todas as mães sabiam fazer isto de cor, enquanto viam a Gabriela ou a Vila Faia. Quase todas as minhas camisolas foram feitas assim… Lembro-me particularmente de uma em tons de rosa velho, com tranças, um casaco branco-sujo, que formava umas rosinhas em relevo, trabalho minucioso e difícil, e de uma vermelha com uma girafa, dentro de uma cerca. Se não estou enganada, esta foi feita pela minha professora, amiga da mãe, a Dona Esperança. Estes trabalhos mais difíceis e minuciosos de contar malhas e meter outras cores pelo meio, na construção de um desenho específico seriam, talvez, mais difíceis para a minha mãe, que se lamentava da falta de jeito. A minha tia, também ela tinha aprendido o ofício de tecedeira com a mãe, minha avó, lia esses esquemas com muita facilidade. Habituada a montar teias não seriam as malhas que a atrapalhavam…

            Eu ainda aprendi a tricotar e a fazer ponto de pé e o croché, por insistência da avó, para quem as meninas deveriam ser prendadas e saber essas coisas e costura também… Mas… Não sei que diga… Nunca gostei nem tive paciência para esses lavores… Não me davam prazer nenhum… Depois de muita insistência, lá me arranjaram um farrapo com uma maçã passada a químico, que a muito custo bordei em ponto de pé e acho que já nem sei fazer… Eu queria lá saber do bordado… Preferia andar a correr pelos montes, perdida nas brincadeiras, a trepar os castelos de madeira ou a brincar às casinhas com as vizinhas. A partir de certo momento, pararam de insistir nessas ideias… Eu sempre achei que não iria precisar de saber isso para nada… Ou perceberam que não valia a pena a insistência, que ali não havia lura de onde saísse coelho… É assim até hoje.

De modo que a minha avó Matilde fazia o aproveitamento das lãs que sobravam das camisolas para fazer meias que aqueciam bem os pés no inverno. De alguma maneira, devemos ter chegado a um acordo tácito: nem ela me ensinava a tricotar nem eu insistia com a minha ideia de a ensinar a ler, porque ela sempre me dizia: “Ó filha! Agora não vale a pena! Burro velho não toma andadura!”

Ocorre-me, agora, de repente, que não me lembro de ver a minha avó a rir! Nunca a vi a rir, mas ouvia-lhe amiúde que “muito riso pouco siso!” Era uma mulher austera e de poucas falas. Comunicava o indispensável. Tinha a sabedoria de intuir que as palavras não devem ser desperdiçadas à toa. Não permitia a má-língua sobre ninguém, atalhando com um “cada um sabe de si e Deus de todos”. Todos lhe obedeciam, sem que ela tivesse de falar muito e muito menos gritar.

Houve um dia um episódio… Não sei porque me vem, agora, à memória, ou melhor, sei… Eu nunca me desculpei com ela e nem ela estaria à espera disso. Já não sei o motivo, mas a avó lá não me deixou fazer alguma coisa, certamente. Sei que eu fiquei muito furiosa, mas muito enraivecida e no meio da questão, irada, deixei escapar um “também havias de morrer e de partir as duas pernas”. Assim que me saíram semelhantes palavras, inundou-me a angústia. Eu não queria nada que ela morresse nem que partisse o que quer que fosse, mas estava dito e não havia forma de desdizer. A minha avó lá me repreendeu a perguntar-me se isso era coisa que se desejasse à avó e que Jesus estaria tristíssimo comigo. Eu teria sete ou oito anitos, não sei precisar. Muito contrita, fui carpir mágoas, com os olhos rasos de água, arrependidíssima, porque me pesava a consciência e a alma, a explicar interiormente a Jesus que não falava a sério e nem sabia como tinha acontecido, mas quando dei por mim, as palavras já tinham saído.

Não tinha a sorte, na altura, de conhecer os Evangelhos Apócrifos… Ninguém mos tinha dado a ler nem o professor Frederico Lourenço tinha feito a sua tradução… Tinha apenas um Novo Testamento para crianças, cujas parábolas lia e relia e já sabia de cor e salteado. Juntamente com os livros de “Os Cinco” era o que havia e o que fazia as minhas leituras. Se eu soubesse que o próprio Jesus, segundo Tomé, em criança, tinha tido as suas birras e os seus caprichos, ter-me-ia sentido aliviada. Afinal, se o próprio jesus, irritado, disse a um menino que se esbarrou com ele, indo contra o seu ombro: “Não continuarás o teu caminho.” Logo o menino caiu e morreu. Ora… Eu que tinha sido apenas uma imprudente desbocada, sem qualquer poder divino, não viria mal ao mundo… Claro que a criança divina, depois, desfazia as suas perrices, mas que as tinha, também, seria certo, pois afirma Tomé: “E ninguém doravante ousava encolerizá-lo, para que ele o não amaldiçoasse e estropiasse”.

Os meus dez por cento demoníacos divertem-se imenso com este lado pouco angelical e caprichoso de um Jesus petiz, que deve ter aprendido a controlar os seus ímpetos. Saber disto, na altura, ter-me-ia servido de consolo, porque o remorso não me largou até adormecer, nessa noite. Felizmente, no dia seguinte, eu e a avó já nos tínhamos esquecido do triste episódio. Não tenho de memória, mas poderei jurar que, no dia a seguir, terei andado na linha sem a aborrecer muito… Excetuando a hora de almoço, que era sempre um castigo e que ela me subornava com o que apelidava de refrescos de vinho. Obviamente, uma gota de vinho, um copo cheio de água e açúcar. Era doce e eu gostava, mas só podia beber quando terminasse de comer… Demorava séculos! Nunca tinha fome! Eram os refrescos de vinho da avó e as metades de pão com açúcar da tia Alexandrina! Já não uso açúcar em nada (com exceção de bolos) desde os meus vinte e cinco anos, mas aqueles pães da infância, eram um consolo!

Da avó Matilde tenho uma colcha por ela tecida e os seus brincos, com que sempre a conheci, sem que nunca os tivesse tirado. Nem para dormir a avó tirava os brincos. Não tenho, porém, nenhum par de meias de lã que tenha sobrado nem avó que as possa tricotar.

Nina M.

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